Ex-presidente revela o desconforto com a idealização de sua imagem. Autor não deve comentar sobre a obra que será lançada na terça-feira (12).
Uma nova compilação de documentos e registros pessoais de Nelson Mandela revela a dor que sentia na prisão por estar longe da família, durante as quase três décadas em que foi mantido prisioneiro pelo regime do apartheid, assim como seu desconforto com a idealização de sua imagem.
Trechos de “Conversas comigo mesmo”, que será lançado na próxima terça-feira, foram publicados em jornais sul-africanos e britânicos neste domingo. No livro, Mandela aborda todo tipo de assunto, dos perigos da corrupção no poder à profunda tristeza que sentiu pela morte do filho.
Nelson Mandela em seu aniversário de 92 anos. (Foto: Debbie Yazbek/Fundação Nelson Mandela – Reuters)
São décadas de cartas, diários e gravações pessoais, reunidas e organizadas por sua fundação em um projeto cuja principal meta é mostrar o homem por trás do ícone global.
Aos 92 anos, o homem que recebeu o Prêmio Nobel da Paz por seus esforços contra o regime segragacionista sul-africano diz que não quer ser lembrado como um santo acima do bem e do mal.
“Uma coisa que me preocupava profudamente na prisão era a imagem falsa que eu inadvertidamente projetei para o mundo; era ser considerado um santo”, revela um trecho do livro, publicado no Sunday Times sul-africano.
“Nunca fui um santo, mesmo se baseado na definição terrena de um santo como um pecador que continua tentando”.
Mandela foi mantido preso durante 27 anos. Libertado em 1990, liderou as negociações com o governo que culminaram em sua eleição como o primeiro presidente negro da história do país, em 1994.
Ele deixou o poder em 1999, depois de um mandato na presidência. Retirado da vida pública desde 2004, aparece pouco e aparenta fragilidade física.
Mandela ainda é reverenciado na África do Sul e no mundo, e apesar de esta não ser a primeira vez em que fala sobre seus defeitos e erros, críticas são praticamente inexistentes.
O livro parece convidar o leitor a uma reflexão mais ampla sobre sua vida, ao mesmo tempo em que foca no enorme sacrifício pessoal cobrado por sua devoção à luta pelo fim do apartheid.
“Quando jovem, eu reunia todas as fraquezas, erros e indiscrições de um garoto do interior, cuja visão e experiência eram influenciados principalmente por eventos na região onde cresci e os colégios onde estudei”, escreve Mandela.
“Eu era arrogante para esconder minhas fraquezas”.
Em cartas escritas na prisão para a família, Mandela dizia sentir-se impotente por não poder ajudar a mulher, Winnie, e os filhos.
Quando Winnie também foi presa, em 1969, ele escreveu para as filhas Zeni e Zindi, na época com 9 e 10 anos: “agora, mamãe e papai estão na prisão”.
“Pode ser que passem meses ou mesmo anos até que vocês a vejam de novo. Talvez vocês vivam como órfãs, sem a casa e os pais, sem o amor natural, o carinho e a proteção que mamãe dava a vocês”, diz a carta.
As cartas também revelam sua conturbada relação com Winnie, de quem ele se separou poucos anos depois de ser libertado.
Escrevendo para um amigo em 1987, Mandela conta que escreveu a Winnie para dizer que as filhas haviam crescido bem: “minha amada mulher ficou furiosa (…). Ela me lembrou: ‘eu, e não você, criei estas crianças, que você agora prefere a mim’. Eu fiquei chocado”.
Em outra carta, ele conta a um amigo como reagiu à morte de Thembi, filho mais velho de sua relação com a primeira mulher, que faleceu em um acidente de carro aos 24 anos em 1969 – a cujo funeral ele não recebeu autorização para ir.
“Quando fui informado da morte de meu filho, tremi da cabeça aos pés”, descreve, afirmando ter sentido o mesmo quando uma filha morrera aos nove meses de idade, anos antes.
O próprio Nelson Mandela não deve comentar a respeito do livro. Sua última aparição pública foi em julho, durante a final da Copa do Mundo da África do Sul, em Johanesburgo.

 
Fonte: G1

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