Para o norte-americano Nicholas Carr, não conseguimos mais ler com a concentração necessária e a culpa disso é da internet. Hipótese demasiado pessimista ou simples realidade?

Ler e assimilar informações é algo que acontece na era digital de maneira completamente distinta dos velhos tempos. A maior parte das pessoas informa-se, hoje em dia, através da web. E quem ainda se aventura a pegar um livro ou um jornal, acaba não raramente sendo interrompido pela mídia digital, já que a internet está onipresente.
O BlackBerry registra novos e-mails, as redes sociais alertam para novas mensagens e o próximo tweet também não espera. Não importa se na vida privada ou profissional, o hype é ser multitasking.
A internet está bagunçando nosso cérebro?
Os usuários de internet só ficam na superfície, diz Nicholas Carr, jornalista científico norte-americano. Carr já havia suscitado, há dois anos, uma polêmica internacional com seu ensaio O Google está nos tornando estúpidos?
Em seu livro The Shallows. What The Internet Is Doing To Our Brains (Os Superficiais. O que a internet está fazendo com nossos cérebros), o autor sugere, ele próprio, uma resposta à sua pergunta. Sua tese é de que a sociedade digital não consegue mais se concentrar porque os usuários da rede são constantemente atacados com uma avalanche de informações, de forma que essas informações não conseguem se firmar na memória de longo prazo.
              
O autor não exclui a si próprio: “Nos últimos anos, fui várias vezes acometido pela sensação de que alguém ou algo estaria bagunçando meu cérebro. Hoje, não penso mais da mesma forma que antigamente”, diz Carr. Isso, segundo ele, fica visível sobretudo no ato de ler, quando, depois de uma ou duas páginas, os pensamentos começam a se dispersar.
O autor, no entanto, não culpa apenas a internet em si. Embora saiba estimar as conquistas da revolução digital, ele acha que a internet também nos impede de compreender temas complexos.
Resultados de pesquisas sobre o funcionamento do cérebro
Carr não está sozinho com seus temores. Em 2009, Frank Schirrmacher, um dos editores do diário alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung, publicou o livro Payback. Por que nós, na era da informação, somos obrigados a fazer coisas que não queremos, e como podemos recuperar o controle sobre nosso pensamento.
Schirrmacher queixa-se no livro sobre distúrbios de concentração semelhantes aos mencionados por Carr e sobre a falta de discernimento da sociedade digital, que não consegue separar informações importantes das irrelevantes.
Na época, Carr cumprimentou Schirrmacher por sua obra, definindo-a como a mais importante contribuição para o debate sobre a internet até então. Schirrmacher, por sua vez, assina o prefácio do recente livro de Carr.
Aos 51 anos, Carr, ex-aluno da Universidade de elite de Harvard, recheia suas teses com resultados de pesquisas sobre o funcionamento do cérebro, como por exemplo com a menção das “mudanças neoplásticas” – conceito segundo o qual o cérebro não é um sistema estático, mas sim em constantes mudanças provocadas por novos impulsos.
Carr remete também a um estudo neurológico feito pela Universidade da Califórnia, no ano de 2008, no qual dois pesquisadores desenharam as correntes cerebrais de dois grupos de pessoas, enquanto estas usavam máquinas de busca na internet.
Um grupo tinha experiência no uso do Google, o outro, não. Os cérebros dos inexperientes mostraram, em um curto espaço de tempo, os mesmos valores de atividade cerebral que os dos conhecedores da máquina de busca. Até aí, tudo bem.
No entanto, Carr conclui – ao contrário dos cientistas da Universidade da Califórnia – que o alto índice de atividade cerebral significa ao mesmo tempo um enfraquecimento da memória de longo prazo.
“Carr tem e não tem razão ao mesmo tempo”
Peter Kruse, pesquisador alemão de tendências, estuda as consequências sociais da cultura de rede. Kruse concorda com Carr quando o assunto é a leitura, apontando como de grande valor o discurso do autor norte-americano em defesa do livro.
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