Em “Contra um Mundo Melhor”, o colunista da Folha contesta o senso comum e aponta as hipocrisias das patrulhas ideológicas

Em campanha, candidatos costumam se apresentar como modelos perfeitos de virtude. Se tudo o que dizem a seu respeito é a completa verdade, estão a um passo da beatificação em vida.

Ainda bem que há jornalismo independente para denunciar as inconsistências entre realidade e discurso. As pessoas comuns também bancam com frequência os santinhos: ninguém comete infração de trânsito, joga papel na rua, fala mal da vida alheia, desrespeita as minorias. Quase todos estão prontos a denunciar os que fazem essas coisas feias.

Ainda bem que há intelectuais públicos dispostos a mostrar como muitas vezes é oco o pau desses santinhos.

Um deles, Luiz Felipe Pondé, colunista da Folha e professor de filosofia da Faap, acaba de lançar o livro “Contra um Mundo Melhor“.

É difícil concordar com várias afirmações escandalosas. Mas é preciso reconhecer a importância dessas provocações para a reflexão sobre o comportamento humano.

Quem pode se conhecer se ignora os demônios que habitam o espírito de qualquer ser humano? Como pode se levar a sério ao se autorrepresentar como um anjo?

Pondé, com o exagero necessário para fazer pesar muito o outro prato da balança, de modo a provocar equilíbrio entre os dois, esfrega na cara essa realidade que a conveniência preguiçosa da alma induz a não enxergar.

Desde que o politicamente correto tomou conta das sociedades ocidentais, ficou arriscado agir como Pondé. Patrulhas ideológicas constrangem as vozes dissonantes com um fervor religioso e contam com o apoio exaltado ou a conivência de quase todo o público.

Exatamente por isso é importante haver quem esteja disposto a desafiar o senso comum com aparentes descalabros como: “tenho medo de pessoas muito felizes”, “detesto a vida perfeita”, “sou contra um mundo melhor”, “a culpa me encanta”.

Pondé provavelmente não ajuda a criar um mundo melhor. Mas pode ajudá-lo a se tornar menos hipócrita.
Carlos Eduardo da Silva é jornalista e foi ombudsman da Folha de abril de 2008 a fevereiro de 2010

Contra um mundo melhor
Luiz Felipe Pondé
Editora Leya
R$ 39,90 (218 págs.)

Fonte: Folha de S. Paulo

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