A prosa vivaz de G.K. Chesterton

Resumo
A imaginação surpreendente, a falta de moderação e o corpanzil de G.K. Chesterton fizeram dele uma figura original nas letras britânicas, comparável a Oscar Wilde. Dois livros de sua autoria trazem para o Brasil do séc. 21 o vigor de sua prosa, marcada pela combinação de um catolicismo muito pessoal com verve, lógica e inteligência crítica.

Marcelo Coelho
A CARTA ROUBADA“, de Edgar Allan Poe (1809-49), é um clássico da literatura policial. Publicado em 1844, o conto é tão conhecido que nem valeria fazer muito mistério sobre o seu desfecho.

Em todo caso, para não estragar as coisas, digamos apenas que o raciocínio do detetive, encarregado de encontrar um documento precioso, é ao mesmo tempo óbvio e contraintuitivo. Se existe alguma coisa que ninguém consegue enxergar é precisamente porque se encontra à vista de todos; o esconderijo mais oculto é aquele que, de tão óbvio, nem parece esconderijo.

Quase 70 anos depois, a história de “A Carta Roubada” foi “reescrita” num dos vários contos policiais publicados pelo escritor católico Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), criador de um detetive que era ao mesmo tempo padre. Na narrativa de Chesterton, de 1911, o Padre Brown descobre que a chave de determinado mistério não estava na carta, mas no carteiro.

O princípio é o mesmo: o melhor detetive será sempre aquele que tem olhos para descobrir aquilo que nunca esteve escondido, ou o segredo de um personagem que de tão simples não parece ter segredos. Não se trata de encontrar a agulha no palheiro, mas de atinar com a palha que sempre esteve lá.

Essa ideia está na base de inúmeros escritos de Chesterton, tanto ensaios e trabalhos de crítica literária quanto textos mais longos em defesa da religião católica. Alguns livros recentemente publicados no Brasil exemplificam essas duas vertentes do talento de Chesterton -a do ensaísta “leigo” e a do apologeta cristão.
O Tempero da Vida e Outros Ensaios” [trad. Luciana Viégas, Graphia, 192 págs., R$ 45] reúne ensaios variados, que tratam, por exemplo, das fábulas de Esopo, da vida matrimonial de Macbeth, da grandeza da literatura barata e, “last but not least”, de como escrever um conto policial.

Filho de um corretor de imóveis e de uma dona de casa com raízes calvinistas, Gilbert Keith Chesterton não teve sorte nos estudos e aproveitou seu talento de desenhista para fazer uma escola de artes; na virada do século, começaram a sair artigos seus na imprensa, assinados apenas, como era padrão na época, com as iniciais que se tornariam célebres: GKC.

Morreu rico, graças ao sucesso de seus livros, aos 62 anos. Tinha 1,93 m de altura e pesava mais de 130 quilos. Sua gargalhada era ouvida de longe, suas distrações e esquecimentos preenchem um volume de anedotas, seus hábitos alimentares estavam no extremo oposto dos de seu amigo e adversário, o vegetariano George Bernard Shaw, e em matéria de consumo alcoólico sua atitude não se destacava pela temperança.
“Barril de cerveja ao pé do altar”, disse dele Fernando Pessoa, no heterônimo Álvaro de Campos. É que, além do tamanhão, da bebida e do catolicismo, Chesterton se destacava por uma atitude francamente populista, ou “plebeia”, se quisermos, em matéria de gosto literário. Abominava o tom “decadentista”, ultrarrefinado, dos estetas de fins do século 19, e também as pretensões do imperialismo britânico, encarnadas em seu contemporâneo Rudyard Kipling. Gostava dos folhetins em que o malvado é o malvado, o herói é o herói e a donzela, a donzela.

Ao mesmo tempo, não existe nada mais próximo do seu estilo do que os sofisticados paradoxos de Oscar Wilde (1854-1900). Em certo sentido, Chesterton representa um passo adiante na técnica intelectual de Wilde -que era a de pôr de pernas para o ar tudo o que fosse clichê ou lugar-comum. A subversão aristocrática de Wilde se transformou numa “reconversão” católica nas mãos de Chesterton, e em seus escritos o senso comum, virado e revirado de cabeça para baixo, retorna maravilhosamente igual ao que sempre foi -só que banhado em nova luz.

Ortodoxia“, livro de 1908, começa ilustrando esse passe de mágica: “Muitas vezes alimentei a fantasia de escrever um romance sobre um navegador inglês que cometeu um pequeno erro ao calcular sua rota e descobriu a Inglaterra, tendo a impressão de estar numa nova ilha dos Mares do Sul […] Provavelmente a impressão geral será a de que o homem, que desembarcou (armado até os dentes e falando por sinais) para fincar a bandeira britânica naquele templo bárbaro que afinal de contas era o Pavilhão de Brighton, sentiu-se um perfeito idiota”.

Mas, continua Chesterton, “aquele navegador sou eu”.

Essa capacidade de estranhamento diante do cotidiano e de reconhecimento (nos dois sentidos do termo) pelo fato de estar diante da realidade de todos os dias reaparece em vários ensaios de “O Tempero da Vida“.

Sobre “As Mil e Uma Noites”, por exemplo, Chesterton diz que todas as descrições de palácios e riquezas presentes no livro podem arrebatar a imaginação do leitor, mas contam muito pouco. “A preciosidade da esmeralda, da ametista e do sândalo é somente a parábola e a expressão da preciosidade das pedras, do pó, e dos vira-latas pelas ruas […] Nenhum mendigo corcunda e abjeto existe que não possua um talismã que lhe garanta o poder sobre palácios e templos reais.”

O Homem Eterno” [trad. Almiro Pisetta, Mundo Cristão, 320 págs., R$ 29,90] sucede-se ao lançamento de “Ortodoxia“, em 2008, pela mesma editora, para trazer ao leitor brasileiro o essencial do Chesterton religioso. Embora os temas de “O Tempero da Vida” possam parecer mais interessantes, ninguém precisa ter medo dos escritos religiosos de Chesterton. São igualmente livres na forma, indisciplinados na fantasia, e -como tudo o que ele escreve- diabolicamente engraçados.

Em “O Homem Eterno“, publicado em 1925 (três anos depois de sua conversão definitiva ao catolicismo), chega ao auge sua disposição para valorizar o trivial e ver no simples uma complexidade que as coisas complexas não possuem. Todo o livro é uma crítica, do ponto de vista católico, das ideias mais “avançadas” dos historiadores evolucionistas do seu tempo.

O “homem das cavernas” não era para Chesterton um tipo de macaco mais desenvolvido, nem o “homem da Idade Média” um aldeão queimador de bruxas. Eram, antes de tudo, homens como nós. Só o preconceito da ciência vitoriana, tingido de racismo, seria capaz de tratá-los com superioridade, horror e condescendência.

Por que imaginar, continua ele, que haveria algum ritual mágico justificando aquelas pinturas pré-históricas de bisontes e caçadas, sem levar em conta que pudesse haver apenas prazer -o mesmo prazer gratuito que todos sentem- ao fazer um desenho bonito? Seria verdade que o troglodita saía depois à caça de mulheres, derrubando-as com um golpe de clava e arrastando-as pelos cabelos? Chesterton responde com outra pergunta: por que a mulher haveria de esperar até levar uma pancada na cabeça?

De surpresa em surpresa, Chesterton reescreve a história das religiões até chegar ao cristianismo, procurando demolir as construções que apontam para a semelhança exterior entre os diversos cultos. A originalidade cristã com relação aos cultos pagãos da fertilidade supera o que tinham em comum (o sacrifício, a ressurreição, o bode expiatório); é a antropologia evolucionista, no estilo de “O Ramo de Ouro” de James George Frazer (1854-1941), que se vê contestada, certamente não com grande aparato erudito, mas com verve e lógica.

Assim como a história da humanidade começa com o homem das cavernas, “a segunda metade da história humana, que foi como uma nova criação do mundo, começa numa caverna”. Pois “foi num lugar assim, exatamente debaixo dos pés dos passantes, num subterrâneo sob o próprio chão do mundo, que Jesus Cristo nasceu”.

A combinação da imagem de um bebê com a ideia do Criador do Universo é valorizada por Chesterton como uma espécie de chiste, de piada, que os “críticos científicos” não são capazes de entender. Eles “brandamente condenam como improvável algo que nós loucamente sempre exaltamos como incrível: como algo que seria bom demais para ser verdade, só que é verdade”.

Com imensa imaginação de crítico literário, Chesterton desvenda inúmeras metáforas do cristianismo, para em seguida, com senso quase automático do paradoxo e do humor, afirmar que não são simples “metáforas”. Seu poder de argumentação, nesse aspecto, está na capacidade de criar comparações e contraexemplos tão surpreendentes, tão próximos da loucura, que entre risos e imprevistos todas as suas teses acabam parecendo muito razoáveis -como uma fábula de Esopo ou uma charge humorística.

Eis um exemplo, que perde um pouco ao ser retirado do contexto argumentativo, mas que exatamente por isso cresce em ousadia de imaginação. “O europeu moderno”, diz Chesterton, “que procura sua religião na Ásia está atribuindo à Ásia a sua religião. Ele se parece com alguém que está mapeando o mar como se fosse terra firme: assinalando ondas como se fossem montanhas”.

Barril de cerveja ao pé do altar? A embriaguez e a gargalhada de Chesterton poderiam ser lembradas com outra metáfora, bem mais evidente. Sua literatura é o vinho, desatado e vivo, que se serve no ritual cristão.

Chesterton se destacava por uma atitude populista, ou “plebeia”, em matéria de gosto literário. Abominava o tom “decadentista”, ultrarrefinado, dos estetas de fins do século 19


O “homem das cavernas” não era para Chesterton um tipo de macaco mais desenvolvido, nem o “homem da Idade Média” um aldeão queimador de bruxas. Eram homens como nós

Fonte: Folha de S. Paulo – Ilustríssima
Imagem: Internet

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