Com menos de 15 anos de idade, ainda no ensino fundamental, estudantes de algumas escolas paulistanas já experimentaram o gosto de serem autores de livros. Em geral são obras coletivas, fruto de projetos de pesquisa com finalidade didática e muita dedicação, que extrapolam os limites da sala de aula.

Para os 70 alunos do 9.º ano do Colégio Regina Mundi, na zona sul, anteontem foi um dia emocionante, pois ocorreu o lançamento do livro Matemática nas Profissões, na Livraria Cultura. Trata-se de um projeto desenvolvido nas aulas de matemática que deu tão certo que os professores não se conformaram simplesmente em dar nota e passar para o próximo assunto.

“Todo professor de matemática escuta direto a pergunta: Por que tenho de aprender isso?”, explica a docente Elaine Barrela sobre o surgimento da ideia do trabalho. “Dividimos as turmas em grupos, e cada um teve de investigar como se usa a matemática em determinada profissão, com pesquisas e entrevistas. Eles se envolveram bastante, o resultado foi surpreendente.”

O resultado impressionou também os autores. “Não pensava que iria tão longe. Tenho muito orgulho do nosso trabalho”, diz o aluno Vinícius Ferraioli de Paula, de 14 anos. “Fizemos tudo no livro: pesquisa, textos e ilustrações. Para mim, a parte mais difícil foi escrever. Nunca tinha feito um texto tão grande.”

O Livro da Maria-Fedida, produzido pelos estudantes do 1.° ano do ensino fundamental de 2008 do Colégio São Domingos, surgiu de uma ideia proposta pelos próprios alunos. “Eles observaram ovinhos na escola e quiseram descobrir do que se tratava”, conta a professora Renata Aguiar, que orientou o projeto. Foram as 21 crianças que pesquisaram, escolheram que informações entrariam e fizeram os desenhos que ilustram a obra.

Primeiro, o trabalho virou um livreto distribuído para as famílias. Mas a mãe de um aluno, dona da editora Alameda, viu no material potencial para bem mais. “Quando contei em classe a proposta de transformar o projeto em livro de verdade, eles ficaram alucinados, toparam na hora”, lembra a professora. “Vou nas livrarias e fico muito feliz em ver um produto da escola também do lado fora dos nossos muros. A escola hoje não pode ficar fechada nela mesma.”

Depois dessa experiência, as professoras Eloise Janczur Guazzelli e Wilma de Brito Camargo lançaram um outro livro infantil, o Ponto de Vista, produzido a partir de desenhos dos alunos nas aulas de artes. A obra incentiva o leitor a também ser produtor de arte.

Uma das pioneiras em transformar o trabalho escolar em obra vendida nas livrarias foi a professora Theodora Maria de Almeida, com o Quem Canta Seus Males Espanta, de 1998. O livro já está na 31.ª edição.

As músicas foram gravadas e as ilustrações, feitas pelos alunos do ensino infantil do colégio Bola de Neve naquele ano. “Era um trabalho que nasceu a pedido dos pais, que vinham me perguntar como se cantava determinada música que os filhos aprendiam na escola”, diz Theodora. “Mas eu conhecia um pessoal de uma editora, e eles acharam a ideia bárbara.”

Modelo de sucesso. Em alguns colégios, a experiência dá tão certo que a escola resolve repetir o modelo nos anos seguintes. Pela segunda vez neste ano, alunos do 5.° ano do Colégio Santo Américo produziram um livro. O projeto da disciplina de língua portuguesa de 2009 – escrever em formato de cordel a história do clássico Odisseia – fez sucesso e teve tanta qualidade que virou um livro.

“O que fez a diferença foi o empenho. No início nem tínhamos a ideia de publicar um livro”, afirma a professora Sheila Stadafora. “Eu aparecia no corredor e os alunos já faziam coro, pedindo aulas para produzir o cordel. Não queriam saber de outro assunto.”

Este ano, a coletânea de contos de fada Clássicos em Cordel foi lançada na quarta-feira, em um sarau para as famílias. Um DVD com as histórias narradas pelos alunos acompanha a obra. Isadora Monteiro, de 10 anos, conta que o projeto a ensinou a trabalhar em equipe. “Cada um tinha uma função: um contava os versos, outro montava rimas. Foi tudo muito legal.”

Na escola Humboldt, o programa Poemas e Aquarelas vem sendo replicado desde 2004 por alunos do 7.º ano, cada vez com um novo tema. “É um trabalho interdisciplinar, que envolve português e artes, mas também pode incluir geografia, ciências, história”, diz a coordenadora Ivani Gatta. “Primeiro a gente amplia o repertório do aluno sobre aquele tema, depois o estimulamos a produzir.”

fonte: Estadão

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