Países que rendem homenagem a soldados desconhecidos. A Hungria rende sua eterna gratidão a um escritor. Um Escritor Desconhecido. Aquele que, no anonimato e a serviço do rei Bela III, contou a mais bela história sobre os húngaros, o Gesta Hungarorum, um manuscrito publicado por volta de 1200, que relata a história primitiva do país. Descrevendo-se apenas como um “servo fiel do rei”, o escritor desconhecido virou mito e estátua no Parque da Cidade de Budapeste, onde está sentado solenemente, envolto numa túnica que cobre seu rosto, segurando um lápis na mão. Dizem que tocá-lo dá sorte.

“Mas, quem é ele? Como vivia? Como era seu rosto? Sua voz? Quem amou? Ninguém sabe. Fiel ao seu ofício, ele jamais permitiu que sua identidade fosse revelada. Ele nunca deu valor nem a fama, nem a fortuna. Nada. O que lhe importava era apenas servir à humanidade com suas palavras, com seu ofício de escrever”, revela trecho do filme Budapeste, dirigido por Walter Carvalho e baseado no livro homônimo de Chico Buarque, que narra a história de José Costa, um ghost writer brasileiro que, assim como o célebre Escritor Desconhecido, escreve para terceiros em anonimato.

Menos romântico do que o mito húngaro, o “fantasma” de Chico sofre com a necessidade de ser lido e reconhecido, embora a necessidade fale mais alto. “Ver minhas obras assinadas por estranhos me dava um prazer nervoso, um tipo de ciúme ao contrário. Porque, para mim, não era o sujeito quem se apossava da minha escrita, era como se eu escrevesse no caderno dele”, diz o protagonista. No final do ano passado, outro filme, L’Autre Dumas, do diretor Safy Nebbou, toca também no tema, quando mostra a relação controversa entre o grande escritor Alexandre Dumas e seu possível ghost writer, Auguste Maquet.

“Decidimos que este seria um momento ideal para apresentar ao público alguns dos estudos técnicos e científicos da coleção do museu a fim de explicar os tipos e processos de investigação feitos para entender melhor as obras de arte”, explica o Ashok Roy, diretor de pesquisas científicas e curador da exposição da National Gallery.

Fora da ficção, o ofício de escritor-fantasma apresenta-se menos como um dilema e mais como uma oportunidade. A figura do “fantasma” há muito entrou pelos intestinos da arte, pelas vísceras da criação cultural, seja na literatura, na música ou em qualquer segmento onde se possa “terceirizar” a produção artística. Na literatura, o ghost writer (escritor fantasma) ficou mais famoso, mais ocupado, mais requisitado. Tem “carteira de trabalho”, fama nos bastidores das editoras, tem a compreensão dos colegas e, em alguns casos, goza até de respeitabilidade. Status de bastidor, de coxia, de penumbra autoral. O ghost writer não aparece, é o escritor que não recebe os créditos pelo trabalho, é um “autor de aluguel”, contratado por personalidades, celebridades, outros autores, editoras e por “freiras que viraram modelos, vigaristas que se transformaram em empresários, latifundiários”. Como o personagem Costa, da ficção, os fantasmas da vida real aceitam monografias, redação de discursos e produção de romances.

“O ghost writer tem que ser o mais discreto possível”, explicou por email uma das profissionais que atuam no mercado editorial brasileiro. Resposta similar dada por dezenas de outros escritores-fantasmas procurados pela Revista da Cultura, que, apesar de terem anúncios, sites e outras formas de divulgação, raramente concedem entrevista. “Trata-se de um compromisso ético com o cliente”, respondeu outro escritor, declinando do convite de participar da matéria. Razão pelo qual muitos acabam sem “rosto”.

Exemplo disso é o jornalista com quase trinta anos de experiência, um dos mais solicitados do país, ex-diretor de um jornal paulistano de larga circulação, correspondente de imprensa estrangeira, que em seu site www.ghostwriter.com.br revela mais sobre essa silenciosa profissão. Trabalhando há mais de uma década em uma editora de médio porte, tem em seu nome 29 livros publicados, alguns dos quais – garante – best-sellers traduzidos e lançados no exterior (Argentina, Equador, Portugal e Inglaterra). Como explica, não vê qualquer demérito em atuar como ou saber que alguém contrata o serviço de um ghost writer.

“Não há nenhuma vergonha nos serviços de um escritor-fantasma. Muito pelo contrário, servir-se deles pode até ser sinal de grande prestígio. Todo mundo sabe que os discursos dos presidentes de República e governadores, os relatórios dos ministros de Estado ou de diretores de grandes empresas não são redigidos pessoalmente ou pelas personalidades que os assinam. Políticos, estadistas, esportistas, atores e atrizes, homens públicos e empresários – todos eles contratam ghost writers para ajudá-los a redigir suas autobiografias, ou quando desejam relatar algum acontecimento em que tomaram parte, ou ainda quando querem deixar registrada a sua versão sobre um determinado fato polêmico”, conta.

The Ghost Writer (2010), o mais recente trabalho cinematográfico de Roman Polanski, retrata que nem sempre essa relação entre cliente e contratado se dá de forma tranquila, especialmente em “altos escalões”. O filme, ficção adaptada do romance literário O fantasma, de Robert Harris, conta a saga de um escritor-fantasma contratado para escrever as memórias de um primeiro-ministro britânico, envolvido em supostos crimes contra a humanidade. Polanski consegue mostrar as relações, às vezes conflituosas, repletas de incertezas e inseguranças no trabalho literário do ghost writer, além de criar um belo thriller.

No filme, o autor-fantasma é contratado por uma cifra bem convidativa, algo próximo a meio milhão de reais. Na vida real, o ghost writter brasileiro cobra conforme o trabalho solicitado, que não fica por menos de R$ 5 mil. Ele conta em seu site que trabalha silenciosamente, recebe sua remuneração profissional e depois desaparece para sempre (daí a designação de fantasma), mantendo inviolável o segredo de sua participação na obra. “A propriedade intelectual da obra fica para a pessoa que o contratou e pagou seus serviços. Ninguém, absolutamente ninguém, fica sabendo que ela utilizou os serviços de um escritor fantasma. É ela que assina o trabalho, que recebe os respectivos direitos autorais, que desfruta da fama e da glória que a obra possa render. O ghost writer, como todo fantasma que se preze, é um personagem discreto, não gosta de aparecer e prefere ficar no anonimato. Ninguém fica sabendo que foi ele que preparou o texto”, garante. O único trabalho que não aceita é a redação de trabalhos escolares ou teses universitárias, além de se recusar a usar nos textos expressões pornográficas, de baixo calão, ofensivas ou depreciativas a pessoas, raças ou grupos humanos.

A precaução é justificada. Segundo trabalho publicado em 2007 pela Faculdade de Medicina de Itajubá (MG), através da pesquisadora Maria Christina Anna Grieger, a venda de trabalhos científicos por ghost writers tem colocado em risco a produção científica nas universidades. Na área da saúde, por exemplo, fraudes na produção científica não são situações raras. Para analisar a dimensão desse comércio, a pesquisadora selecionou 18 sites nacionais que oferecem serviços de elaboração de artigos científicos, monografias, dissertações e teses. O resultado mostrou que das 18 empresas consultadas, dez (55%) responderam aceitando a encomenda mediante pagamentos que variaram entre R$ 200,00 e R$ 1.200,00. “Do ponto de vista ético, parece inquestionável a falha de caráter do pesquisador que se utiliza desse meio para sua produção científica”, explica Maria Christina.

A história mostra que nem todos os escritores-fantasmas estão preparados para desaparecer, para viver nas sombras. Em Budapeste, o protagonista é confrontado o tempo todo com perguntas como: “O que faz você pensar que crescer na sombra enobrece?”. Ele se defende: “A literatura não precisa se exibir”. As pressões familiares também ficam evidentes. A mulher de Costa confronta: “E você? Você diz que escreve tanto, mas eu nunca vi seu nome em lugar nenhum. Não sei o que responder quando perguntam o que meu marido faz. Meu querido, se você já editou um livro, não me chamou para o lançamento”, debocha.

Alguns casos ficaram conhecidos do grande público, tendo seus “fantasmas” revelados. Entre eles, Theodore Sorensen, o ghost writer do ex-presidente americano John Kennedy. Barbara Feinman seria a autora de Tarefa de uma aldeia e outras lições que as crianças nos ensinam, de Hillary Clinton. Muitos acreditam que Truman Capote era o ghost writer de O sol é para todos, livro de Harper Lee que recebeu o consagrado Prêmio Pulitzer. George Lucas teria utilizado os serviços de Alan Dean Foster para escrever sua famosa saga Star Wars. No Brasil, o português Francisco Gomes da Silva, o “Chalaça”, foi o ghost writer de D. Pedro I, escrevendo discursos, textos para jornais etc. Clarice Lispector também flertou com o anonimato e teria sido a ghost writer da atriz Ilka Soares. O caso mais recente é o de Jorge Tarquino, suposto escritor-fantasma deO doce veneno do escorpião (2005), sucesso de Raquel Pacheco (mais conhecida como Bruna Surfistinha), que vendeu mais de 300 mil cópias, e estreia versão cinematográfica em 2011, tendo a atriz Debora Secco como a ex-garota de programa.

Embora nunca receba as glórias por seu trabalho, o que o escritor-fantasma deseja mesmo é ser fantasma, ser invisível, ficar na sombra de suas letras, um herói anônimo, senhor absoluto do seu próprio respeito, assim como foi o Escritor Desconhecido da Hungria. O resto? O resto é silêncio, bronze e pássaros grulhando em volta.©

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