O livro “Caçadas de Pedrinho” de Monteiro Lobato vai continuar sendo usado em sala de aula. Algumas frases que aparecem na história foram consideradas racistas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), que pediu que a obras fosse retirada das escolas. A partir de agora, o livro terá uma explicação sobre o contexto em que foi escrito. Algo parecido com o que uma edição já traz sobre a caça à onça. A editora deixa claro que a aventura aconteceu em uma época em que a espécie não estava ameaçada de extinção, nem os animais silvestres eram protegidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Para o ministro da Educação, Fernando Haddad não é o caso de tirar o livro das escolas.
– Décadas se passaram. Expressões que não eram consideradas ofensivas, hoje são. Mas, em se tratando de Monteiro Lobato, de um clássico brasileiro da literatura infantil, nós só temos que contextualizar, advertir e orientar sobretudo o professor sobre como lidar com esse tipo de matéria em sala de aula disse durante entrevista ao Bom Dia Brasil.
O clássico da literatura infantil “Caçadas de Pedrinho” foi publicado pela primeira vez em 1933.
Membros da Academia Brasileira de Letras (ABL) são contrários proposta de censura ao livro. Segundo os imortais, os “professores e formuladores de política educacional deveriam ler a obra e se familiarizar com ela”. A ABL sugere ainda que os responsáveis pela educação estimulem uma leitura crítica por parte dos alunos.
Na internet também se multiplicaram as manifestações contrárias ao parecer. Um abaixo assinado, contra a restrição proposta pela CNE, já tem mais de 1.200 assinaturas.
Em nota técnica aprovada por unanimidade e publicada no Diário Oficial da União, o CNE decidiu que:
“A obra Caçadas de Pedrinho só deve ser utilizada no contexto da educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil. Isso não quer dizer que o fascínio de ouvir e contar histórias devam ser esquecidos; deve, na verdade, ser estimulado, mas há que se pensar em histórias que valorizem os diversos segmentos populacionais que formam a sociedade brasileira, dentre eles, o negro.”
Em outro trecho explica que vê como racista a abordagem da personagem feminina e negra Tia Anastácia e as referências aos personagens animais tais como urubu, macaco e feras africanas. “Estes fazem menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano, que se repete em vários trechos do livro analisado. A crítica feita baseia-se na legislação antirracista brasileira, a partir da promulgação da Constituição de 1988, na legislação educacional em vigor e em estudos teóricos que discutem a necessidade e a importância do trabalho com uma literatura antirracista na escola superando a adoção de obras que fazem referência ao negro com estereótipos fortemente carregados de elementos racistas.”
A nota reproduz ainda resposta que a Coordenação Geral do Material Didático, responsável por distribuir o livro por todo o País, deu às perguntas feitas desde o início do processo de avaliação em junho: “(…) naturalmente, como toda leitura escolar, o livro será lido sob a supervisão de um professor que, como leitor maduro, saberá mostrar que trechos isolados não compõem uma obra e que na literatura não é a soma das partes que fazem o todo. Também não deixará de aproveitar para discutir com os seus alunos os aspectos da realidade que a obra busca representar, articulando a leitura do livro com outras leituras e com o próprio cotidiano da escola, do bairro, da cidade e do país. São critérios de avaliação: a qualidade textual, a adequação temática, a ausência de preconceitos, estereótipos ou doutrinações, a qualidade gráfica e o potencial de leitura considerando o público-alvo.”
Em seguida, o documento diz que “cabe à Coordenação-Geral de Material Didático do MEC cumprir com os critérios por ela mesma estabelecidos na avaliação dos livros indicados, de que os mesmos primem pela ausência de preconceitos, estereótipos, não selecionando obras clássicas ou contemporâneas com tal teor”.

Fonte: O Globo

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