Falstaff é o meu favorito dentre os personagens de Shakespeare. Brincalhão, amante do vinho, amigo de seus amigos e filósofo da vida. Espirituoso, infunde espírito nos outros. Suas brincadeiras são meros disfarces para brilhantes tiradas filosóficas em que demonstra enorme alegria de viver. Mesmo ostentando o título de Sir, não tem fortuna e nem é preso a nenhuma instituição. Ainda que possa passar por militar, na verdade, faz galhofa com as guerras inglesas. Falstaff é um tipo que não encontramos mais hoje em dia: um espírito livre.
Invoco a presença de Falstaff para acusar o estado moderno, que ainda que tenha trazido tantas conquistas para a sociedade, parece tê-la uniformizado. O estado descobriu e ofereceu o que as pessoas mais desejam: pertencer a algum tipo de estrutura organizada. Homens e mulheres sacrificam a própria personalidade e a liberdade intelectual para exercerem qualquer função que dê a elas um sentimento de “pertencer a algo”. Pois a tentativa de ser livre parece ser difícil demais de ser enfrentada.
E esse sacrifício está escrevendo seus sinais de descontentamento no corpo dessas pessoas, em forma de fetiches. Estamos vivendo numa sociedade que preenche sua abstinência com soluções cosméticas – uma espécie de droga – enchendo o corpo de tatuagens, silicones, piercings e outras agressões, numa onda de profanação corporal que cada vez mais as desumaniza. As pessoas ostentam, com aparente orgulho, suas mutações corporais como se não soubéssemos que “fetiches são meras substituições de algo que fomos dolorosamente privados”; como se o fetiche não fosse fruto de uma profunda dor individual não resolvida. Como se alguém de nossa era, John Lennon, não tivesse dito: “não se drogue por não ser capaz de suportar sua própria dor”.
A liberdade individual não está em perigo. Não da forma que vivenciamos no passado, e que foi tão bem apresentada por George Orwell em seus livros, 1984 e a Revolução dos Bichos. Pelo menos no ocidente, regimes políticos abusivos são exceção. A tecnologia com seus recursos surpreendentes e aparentemente ilimitados – há quem diga que nós ainda não vimos nada do que está por vir – está por trás de quase tudo que estamos enfrentando.
As estatísticas do IDH- Índice de Desenvolvimento Humano da ONU levam em conta saúde, escolaridade e longevidade, mas nada preveem sobre o bem estar espiritual das sociedades. E é muito difícil mesmo fazê-lo. Os cidadão das nações que ostentam as primeiras posições no ranking, não são nenhuma prova de que sejam mais satisfeitas do que as dos países do bloco intermediário.
O fato é que cada vez mais a sociedade do espetáculo, tão denunciada por filósofos e psicólogos, se firma. Quanto mais as “redes sociais” na Internet aproximam as pessoas tanto mais elas se distanciam de si mesmas. E o Brasil é o campeão das redes de bate- papo. Os americanos, os criadores dessas redes, vêm ao Brasil estudar nosso surpreendente comportamento.
Mal sabem eles que somos uma nação que lê em média apenas três livros por ano. A maior de todas as preocupações do ser humano, mesmo que ele não o saiba, é fugir do tédio! Daí as redes sociais. Não estou dizendo que a felicidade passe pela leitura. Mas sabemos o quanto o conhecimento é importante para nos tornarmos mais conscientes do mundo e de nós mesmos. Não acredito em sociedades que não leem! Sociedades que não leem são sociedades manipuladas.
O estado e a tecnologia aprisionaram o espírito humano e precisamos discutir isso. Estamos precisando de espíritos livres. Espíritos de Falstaff.

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