Escritor, jornalista e professor universitário, autor de quatorze livros, pai de dois filhos, um ouvinte declarado da chuva, um leitor apaixonado do sol. Quando conseguir se definir, deixará de ser poeta.” Essa é a apresentação que faz de si mesmo, no blog que leva o seu nome, o gaúcho Fabrício Carpinejar. Aos 37 anos, Carpinejar poderia ser como muitos poetas e escritores que restringem seu contato com o mundo aos livros que escreve e lê. Mas ele está longe de fazer o tipo que se esconde por trás das palavras.

Pelo contrário. Não contente em expor em livros seus pensamentos, às vezes assumidamente contraditórios, Carpinejar deu para atualizar três blogs – um de crônicas, outro de conselhos amorosos e o último sobre futebol – e para filosofar no Twitter, onde acumula mais de 63.000 seguidores. Um número sempre em expansão, aliás: em junho, eram 35.000. Separado, ele ainda divide a guarda dos dois filhos e tem tempo para o amor, que é seu tema preferido e que pautou as suas últimas crônicas, reunidas numa trilogia em que, segundo o autor, “a prosa está encharcada de poesia”.

A trilogia é composta pelos livros O Amor Esquece de Começar, uma visão bem feminina do sentimento, Canalha!, que desmente a ideia de que ser canalha é ruim e lhe rendeu o prêmio Jabuti de Literatura no ano passado, e o recém-lançado Mulher Perdigueira. No último, Carpinejar defende as mulheres, os ciúmes e as demonstrações públicas – e excessivas – de afeto. “Quero uma mulher perdigueira, possessiva, que me ligue a cada 15 minutos para contar uma ideia ou uma nova invenção para salvar as finanças, que ame meus amigos e odeie qualquer amiga que se aproxime, que arda de ciúme imaginário para prevenir o que nem aconteceu”, diz a crônica que abre o livro.

Como é a sua relação com o Twitter? Parece que você usa o microblog como um caderninho de anotações, fica anotando seus pensamentos ali para usar depois.
Isso! É meu Moleskine (marca francesa de caderno de anotações). Todo mundo diz que tem um com orgulho e empáfia, eu tenho meu twitter. Uma gaiola vazia canta mais que um pássaro. Ih, acho que eu acabei de fazer um tuíte. Vou colocar lá. Não é bonito? Eu acho bonito. Eu não entendi muito bem, mas acho que faz sentido.

Pois é, tem coisas que você escreve e não dá para entender bem, mesmo. Essas frases surgem na sua cabeça de repente e você anota lá, é assim?
É, são sugestões, insinuação. Isso também é muito feminino, o quanto a mulher consegue insinuar sem dizer, acho poético isso. O homem é que se entrega demais.

Você tem realizado oficinas de literatura no Twitter. Como é a experiência?
Eu trabalho com aforismos, que é parte do que se produz na rede social. Existe uma tradição muito forte desse tipo pensamento no Brasil, com presença de nomes como Mário Quintana, Millor Fernandes, Nelson Rodrigues e Otto Lara Rezende. A gente sempre teve a síntese, a concisão filosófica, pelo quanto o país sempre foi paradoxal, a gente sempre teve isso do contraste, de evidenciar um contraste, a máxima. Eu acredito que a grande escola brasileira é a escola do para-choque de caminhão. A gente gosta do lema de fazer, de contrariar. O brasileiro é apaixonado pela oposição. O gaúcho, mais ainda. Na oficina, eu falo sobre o quanto escrever pouco, em um pequeno espaço, dá o maior trabalho. Que quem tem preguiça escreve demais e apenas coloca o que pensa, sme trabalhar o texto. Escreve, escreve, escreve, mas não edita, não corta, não seleciona, não renuncia. Literatura sem renúncia é um terreno baldio.

Que tipo de ferramenta o Twitter pode ser para um escritor?
É preciso fazer uso do Twitter como uma ferramenta para atingir densidade sem deixar de ser simples. Para aprender a criar coisas desconsertantes com pouco espaço, saber buscar a cumplicidade da linguagem, como costurar duas, três histórias numa só. O Twitter é a naturalidade do convívio. Para você conviver com naturalidade, tem que suspirar, bocejar, gemer. O Twitter é o gemido, o suspiro, o bocejo, o sopro, é tudo aquilo que você esquece quando faz. Se a gente insistir em ser profundo sempre, acaba sendo redundante. O Twitter permite o oposto: a aventura da simplicidade.
O poder de sintetizar acaba sendo poético?Exatamente. Quando você quer agradar, você é redundante. Acontece que o cérebro é contundente, ainda mais no Twitter…

Adriana Caitano, na VEJA

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