Sérgio Rodrigues
Muito interessante o ensaio do crítico argentino Damián Tabarovsky publicado ontem no bom caderno Ilustríssima da “Folha de S. Paulo”, sob o título “O escritor sem público”. Melhor avisar logo que se trata de coisa cabeçuda, cheia de frases como esta: “Nessa comunidade negativa, a leitura não se impõe sob o modo da distribuição (como no mercado) nem no da circulação (como na academia), mas como generalidade imaginária da particularidade”.
O interesse do texto, apesar da opacidade, reside no fato de o autor buscar declaradamente uma superação do impasse em que parece ter empacado o debate literário das últimas décadas: a oposição frontal e pouco inteligente entre literatura “de mercado”, com sua ênfase na narrativa, e literatura “acadêmica” (isto é, valorizada por acadêmicos, não necessariamente e na verdade quase nunca escrita por eles), com sua apologia do trabalho de linguagem.
Essa busca de síntese tem valor em si. O problema é que, se entendi o que Tabarovsky quis dizer, sua proposta de um novo radicalismo – que ele chama de literatura “de esquerda”, tomando o cuidado de ressalvar que o rótulo não coincide com o de posições político-partidárias – desemboca na exclusão sumária do leitor: “Em troca, é preciso pensar a literatura de outro modo, a partir de outro lugar, a partir de um sem lugar. Esse sem lugar é o espaço da literatura de esquerda. A partir desse sem lugar, fala o escritor sem público”.
E nesse momento, no fim do ensaio, fica claro que o título, que parecia uma critica ao escritor incapaz de se comunicar com o público, é o exato oposto: uma exaltação do escritor sem público. Difícil não ver no texto, em vez de um diagnóstico, mais um sintoma destes tempos esquisitos, com o solipsismo do autor em contraponto perfeito ao solipsismo do leitor que o meio digital estimula, como apontou Don DeLillo aqui, num post recente.
Estaremos definitivamente condenados ao diálogo de surdos? Ou não é nada disso, basta deixar de besteira e ir ler um bom livro?
O futuro da literatura, como o futuro de qualquer coisa, tem muito de incerto. Mas duvido que o leitor não esteja presente.
fonte: VEJA

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