Colunista defende estilo de Jane Austen, para ele o que há de mais puro e moderno em matéria de composição literária.

Por Ivan Lessa

Todos nestas ilhas têm como verdade universal que um dos melhores, se não o melhor texto, da literatura inglesa é o de Jane Austen.

Orgulho e Preconceito, Persuasão, Emma, Sentido e Sensibilidade, Northanger Abbey, para citar suas obras de 1811 a 1818, e que constituem o grosso – a bem dizer o fino – de sua produção literária, são estudados, adaptados para o cinema e a televisão, lidos e relidos não só para quem procura apenas uma boa leitura, mas todos aqueles que querem aprender.

Aprender o que é, e como se faz, literatura de primeira grandeza. Jane Austen é o modelo absoluto de se escrever bem.

Sabe-se agora que a moça – e peço perdão pela intimidade, pois nisso que dá se agarrar muito a seus livros – escrevia “mal”. Não só à beça e às pamparras, como também à bessa e às pampas.

A Jane Austen cabe a honra de ser modelo do que é um, ou uma, estilista. Talvez a maior estilista de todos os tempos, todas as línguas.

Eis que surge, das trevas, como um vilão, um acadêmico – e são sempre os acadêmicos – disposto a empanar o brilho de um espetáculo que já dura quase 200 anos.

Não vem ao caso o nome do homem. Presenteio-o com um justo anonimato.

Se queria apenas ter seu nome discutido, aqui, e comigo, entrou by the pipe, passeio eu pelo idioma de La Austen.

O indivíduo em questão, fuçando os originais do romance Persuasão, foi descobrir que Jane Austen escrevia “mal”. E tome aspas, “seu” moço.

Escrevia “mal”, segundo ele, porque foi encontrar uma pontuação instável sujeita a chuvas e trovoadas. Escrevia “mal” porque distribuía maiúsculas como quem dá de comer aos porcos (analogia lá do inefável indivíduo). Escrevia “mal” porque não tinha a menor idéia de como e quando abrir um parágrafo.

No que abro eu um parágrafo, só de gabolice e em memória de Jane Austen.

Ao que parece, e continuamos no chatíssimo território acadêmico, seu estilo correto e sinônimo, até hoje do que há de mais puro e moderno em matéria de composição literária, era o resultado da revisão e edição de seus originais, William Gifford, que cuidava dessas disciplinas na casa editora responsável pela publicação das obras de Jane Austen.

Nosso acadêmico, para todo o sempre anônimo, leu linha por linha do manuscrito original entregue pela estilista comparando-o ao resultado final publicado. Daí suas conclusões.

William Gifford, sabe-se, era um tipo tímido e modesto, quase desajeitado e cujo grande amor pela boa literatura resultava em sua extremada devoção a esses detalhes. Sim, eu disse, e repito: detalhes.

A Gifford devemos os famosos pontos-e-vírgulas que viraram marca registrada da grande (sim, claro, grande, uma coisa não tem nada a ver com a outra) autora inglesa.

Gifford eliminou os travessões que Jane Austen usava por pontos-e-vírgulas. No que fez muito bem. E, vamos frisar bem, em nada diminuiu a altíssima classe de Jane Austen. Ela escrevia mais do que bem. Escrevia divinamente. Conforme ela própria, boa juíza de sua obra, botou no papel num dia: “Minha técnica é miniaturista. Um pequeno pedaço de marfim onde trabalho com meus pincéis.” No que tinha toda razão. No escritor, em primeiro lugar vem a voz, a mão, o tom – o estilo, enfim.

O negócio é não confundir o que é dito com a maneira como foi dito. Neste parágrafo, que abri em homenagem a Jane Austen, vou de primeira pessoa e dou um exemplo pessoal do que é escrever bem e o que é escrever “mal”.

Em 1959, eu trabalhava como redator para a extinta, e hoje lendária revista Senhor. Uma das inovações introduzida por essa publicação era a de em cada exemplar introduzir um encarte, em proporção de livro. Não fosse o diretor de arte da revista o esplêndido Carlos Scliar.

Podia ser inédito, mas nem sempre.

Lembro-me dos encartes de O Urso, de William Faulkner, e de A Morte de Ivan Ilych, de Tolstói.

E me lembro, demais, pois guardei e estão comigo aqui em Londres, os originais de outra morte, igualmente obra-prima, feito a do romancista russo: A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água, de Jorge Amado, hoje reconhecido justamente como um clássico nosso e talvez a melhor coisa que o bom baiano escreveu.

Pois bem: aos originais. Um horror. Erros primários de ortografia, pontuação tosca, concordâncias dissonantes e por aí afora. Nada que o revisor oficial da revista, cujo nome esqueci (uma injustiça), não tenha acertado com um pé nas costas.

Um original de suas 120 páginas, todas rabiscadas, que mantenho guardado a sete chaves na minha casa em South Kensington. Juntamente com outro original, um artigo de Carlos Lacerda sobre rosas escrito em papel da antiga Câmara dos Deputados. Mas isso é outra história, outros 500 mil reais e fica para outro dia.

 
Fonte: O Estado de S. Paulo

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments