Edição luxuosa de tiragem limitada traz originais de poemas, contos e cartas do escritor irlandês Oscar Wilde que pertenceram à coleção de Walther e Lúcia Moreira Salles, doados à Morgan Library.
A ideia de que a “arte é inútil” não nasceu exatamente com o escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900), mas foi ele quem, no prefácio de seu único romance, O Retrato de Dorian Gray, deixou registrada a frase que provocou enorme desconforto entre seus leitores, um deles aluno de Oxford. Em abril de 1891, Bernulf Clegg lhe escreveu uma carta perguntando em que outro livro havia desenvolvido essa teoria sobre a inutilidade da arte. Wilde respondeu de modo enviesado ao missivista, afirmando que a arte é inútil porque não foi feita para instruir ou motivar ações. Sua natureza seria soberbamente estéril, conclui Wilde. O manuscrito dessa carta é uma das preciosidades incluídas no magnífico A Portrait of Oscar Wilde, que será lançado na quarta-feira, a partir das 20 horas, na galeria AGain (Rua Alagoas, 651, Higienópolis), de Attilio Baschera e Gregorio Kramer, amigos de Lúcia Moreira Salles – responsável pela edição da obra, em inglês, de tiragem limitada e numerada de 525 exemplares, dos quais 280 estarão à venda por R$ 1 mil.
Wilde, em caricatura de Alfres Bryan de 1881.
A patrocinadora do livro, terceira mulher do banqueiro e diplomata Walther Moreira Salles, viveu até 2009 para assinar cada um dos volumes. A renda proveniente da comercialização será revertida para o projeto Brasileirinho da ONG Riovoluntario ((www.riovoluntario.org.br), da qual era a principal mantenedora. Cada exemplar terá o nome do comprador catalogado pela instituição norte-americana Morgan Library & Museum, proprietária de vários manuscritos de Oscar Wilde (inclusive de O Retrato de Dorian Gray), para a qual Lúcia doou os originais de poemas, contos e cartas do escritor pertencentes a ela e ao marido, que tinham uma coleção de manuscritos (leia texto a respeito na página seguinte).
O único neto vivo de Oscar Wilde, Merlin Holland, ao ser convidado por Lúcia para escrever sobre essa raridade destinada a bibliófilos, sabia se tratar de uma edição fac-similar de luxo, mas atenta aos detalhes. “Sinto que ele aprovaria a publicação”, diz Holland no prefácio. “Mais que um volume útil, o livro aspira ao reconhecimento de um belo objeto”, conclui, referindo-se com ironia à frase sobre a inutilidade da arte cunhada pelo avô esteta.
De fato, Holland, descendente de Vyvyan Holland, segundo filho de Wilde, tem consciência de que os manuscritos doados à Morgan não são só peças históricas, mas textos úteis para analisar suas escolhas estéticas e sintáticas. Cortes feitos pelo escritor nos originais de poemas e de contos são reveladores o suficiente para desacreditar essa sua crença na esterilidade da arte. A Wildeana da Morgan ganhou, ao contrário, um testemunho de sua fertilidade.
Desconcertantes fragmentos poéticos revelam, por exemplo, que Wilde se dedicava em Oxford não apenas a traduzir os clássicos gregos, mas a experiências sexuais nem sempre gratificantes. Os manuscritos do poema La Dame Jaune (1889), por exemplo, conta uma delas, o encontro com uma prostituta que lhe transmitiu sífilis. O episódio é confirmado na melhor biografia do escritor, a de Richard Ellmann, que comenta as afinidades de Wilde não só com os amigos religiosos como com a Grécia pagã. Ellmann mostra um Wilde dividido entre a conversão ao catolicismo e o chamado à lascívia, destacando como o escritor foi capaz de sair de uma audiência com o papa Pio IX direto para o túmulo do romântico e boêmio John Keats (1795-1821), compondo em seguida um subversivo poema herético em que compara o poeta morto “ao mártir e belo” São Sebastião. Entre a pureza e a autorrealização, Wilde ficou com a última. A Roma papal, observa Ellmann, perdeu para a pagã. É isso que a composição poética monocromática La Dame Jaune (A Dama Amarela) copia de Keats, cujo Sonet on Blue, observa Holland, influenciou seu avô mais do que talvez o desejasse. De fato, assim como Keats, que usa a cor azul para identificar os olhos da amada, Wilde usa a cor amarela para associar a dama de cabelos finos (a prostituta) à decadência, a filetes de ouro de um copo veneziano.
Os fragmentos poéticos constituem a segunda parte de A Portrait of Oscar Wilde. Na primeira, Roses and Rue, a presença de Keats é ainda mais flagrante. Trata-se de um poema escrito quando Wilde já estava fora de Oxford, em 1885. Ele conhece a amante do príncipe de Gales, a bela Lillie Langstry, seu passaporte para o mundo aristocrático, e convence a amiga a ser atriz – além de mostrar a ela como sua cama era confortável (mais um dos casos heterossexuais de um escritor identificado exclusivamente como gay). Publicado em 1885, quando Wilde já estava casado e com o primeiro filho (Cyryl) no colo, Roses and Rue teve o título alterado para Midsummer Dreams, tentativa vã de não dar crédito aos versos de Swindburne que também o inspiraram. É um poema com “versos ruins, mas sentimentos legítimos”, como bem definiu seu biógrafo Richard Ellmann.

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Fonte: O Estado de S. Paulo

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