Para Mark Twain, a única maneira de escrever uma autobiografia com liberdade era saber que não seria publicada até muitos anos após sua morte, em 1910.
Para alguns trechos da própria história –que escreveu e ditou–, o autor deixou instruções bem específicas: “Palavras minhas que possam machucar os vivos devem esperar até edições posteriores. […] Marquei certos capítulos que devem ser mantidos escondidos, lacrados e não publicados durante cem anos”.
Um século depois de sua morte, a Universidade da Califórnia lança o primeiro de três volumes da autobiografia completa que Twain, nascido em 1835, começou a elaborar nos anos 1870.
A editora de “Autobiografia de Mark Twain – Volume 1” (760 págs.; edição eletrônica a partir de US$ 9,99, ou R$16,89, na Amazon.com, em inglês), Harriet Smith, diz que “muito do material já havia aparecido em edições prévias, mas algumas passagens haviam sido retiradas e incluídas em revistas e publicações menos conhecidas”.
Os outros dois volumes devem sair nos próximos “cinco ou seis anos”. Leia abaixo os principais trechos da entrevista da editora à Folha.
Isabel Lyon/TheNewYork Public Library/Divulgação
O escritor e ensaísta Mark Twain (1835-1910), em 1904
Folha – Quão difícil foi editar esse primeiro volume?
Harriet Smith – Foi um desafio, porque Mark Twain não deixou os materiais cuidadosamente reunidos e prontos para publicação. Além disso, muitos dos ditados datilografados sobreviveram em várias cópias, com mais de um conjunto de revisões autorais.
Pela nossa pesquisa, descobrimos o que os conteúdos deveriam ser e entendemos a história de como o livro foi criado. Em especial, percebemos que ele revisava uma cópia, atenuando a linguagem e apagando passagens, para que fossem publicados trechos em uma revista, a “North American Review”.
Por sabermos que ele não tinha a intenção de que as revisões entrassem na versão final, as rejeitamos.
Como o embargo de cem anos está relacionado à liberdade de pensamento que ele buscava?
Mark Twain já havia decidido, em 1876, que não poderia escrever livremente a menos que soubesse que suas palavras não seriam publicadas até muito tempo após sua morte.
Mas ele não escolheu um período em particular: o embargo de cem anos foi um dos muitos que sugeriu.
Alguns de seus comentários sobre o cristianismo, por exemplo, ele queria que fossem ocultados por 500 anos.
Que outras razões ele tinha para exigir o embargo?
Não há dúvida de que tinha consciência de que o embargo seria uma estratégia de marketing eficiente quando chegasse a hora de lançar a autobiografia.
É notável que em 1906 ele tivesse a certeza de que haveria interesse em sua autobiografia cem anos depois.
O que Mark Twain diria dos EUA de hoje?
Como atacou as corporações corruptas, os capitalistas gananciosos e os abastados “barões ladrões” de seu tempo (como John D. Rockefeller), ele certamente teria atacado os banqueiros e financistas culpados por muitos dos problemas econômicos nos EUA. E ele provavelmente teria se posicionado contra as guerras no Iraque e no Afeganistão.

 
Fonte: Folha Online

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