Maria Fernanda Rodrigues
“Leite Derramado”, o Livro do Ano do Jabuti, foi escolhido agora pelo júri do Prêmio Portugal Telecom como o melhor romance em língua portuguesa editado ano passado

Chico Buarque ganhou seu segundo prêmio literário em menos de uma semana. E, mais uma vez, foi recebê-lo. Leite derramado (Companhia das Letras) foi escolhido pelo júri do Prêmio Portugal Telecom como o melhor livro em língua portuguesa lançado em 2009. Nesta segunda-feira (8), durante o anúncio dos vencedores em São Paulo, ele disse que mesmo 20 anos depois de ter lançado seu primeiro livro, e com três dos quatro já feitos premiados, muitos ainda o consideram amador. Para ele, isso é natural. “As pessoas, muitas vezes, leem um livro de ficção sem dissociar o narrador da pessoa pública. Tem essa coisa que contamina a leitura e fica uma certa prevenção contra o escritor que não é escritor em tempo integral porque ele faz isso como um hobby”, comentou. “E fica sempre essa ideia de que o livro vende porque é de um apresentador de tevê ou porque é de um cantor”.
Mas fato é que Chico foi finalista em todos os principais prêmios deste ano. No Jabuti, ficou com o segundo lugar na categoria romance, mas garantiu o principal prêmio – o de Livro do Ano de ficção. Aliás, esta é a terceira vez em que ele ganha o Livro do Ano, o que torna o músico o escritor com mais livros nesta lista. Só Benjamim não conseguiu essa distinção. Na hora da tradicional foto dos vencedores no palco, brincou: “Não vai ter aquele checão?”. Não teve, mas depois ele vai ganhar um real no valor de R$ 100 mil.
Leite derramado deve virar peça, e pelo que Chico disse ontem ele deve seguir o caminho de Benjamim e de Budapeste, ambos adaptados para o cinema. “Estamos estudando, mas o livro não foi feito para virar filme, aliás nenhum romance meu foi feito para virar filme”, comentou.
Ao contrário de 2009, quando Cristóvão Tezza ganhou todos os prêmios literários, neste ano não houve unanimidade. Está certo que Chico ganhou dois prêmios, mas Edney Silvestre e Raimundo Carrero também tiveram o gostinho do primeiro lugar no Jabuti e no Prêmio São Paulo. Por Se eu fechar os olhos agora, Edney foi, inclusive, o melhor autor estreante no prêmio paulista e, dias depois, anunciado como o autor do melhor romance de 2009 pelo Jabuti.
Rodrigo Lacerda, autor de Outra vida (Objetiva/Alfaguara), segundo melhor romance do Portugal Telecom, também andou circulando entre os finalistas das principais premiações e ganhou alguns importantes prêmios. Ficou em 1º no concurso da Academia Brasileira de Letras, em segundo no da Biblioteca Nacional e esteve entre os 10 primeiros do Prêmio São Paulo e do Jabuti. “Tem livros que acontecem quando saem, outros que não vão acontecer nunca e outros que vão acontecendo devagar. Esse livro é um brigador. Enfrentou percalços como uma resenha muito negativa no começo, mas foi conquistando público e entrando nessas listas todas”, disse. Outra vida lhe tomou oito anos de trabalho. “Foi o mais difícil de todos, um inferno”, brincou. Enquanto brigava com o livro, chegou a escrever o belo infanto-juvenil O fazedor de velhos (Cosac Naify), vencedor do Jabuti. Pelo segundo lugar, ganhou R$ 35 mil.
Armando Freitas Filho ficou em terceiro por seu livro Lar, (Companhia das Letras), mas não foi à premiação. Ele ganhou R$ 15 mil.
A noite foi comandada por Jô Soares, que entrevistou Zeinal Bava, presidente executivo da Portugal Telecom, Nélida Piñon, Pilar Del Rio e Chico Buarque. Atrapalhado na hora do anúncio dos vencedores, esqueceu-se de mencionar os finalistas. Foram eles: Chico Buarque, Reinaldo Moraes, Carlos Brito Mello, Ondjak, Armando Freitas Filho, Bernardo Carvalho, Bernardo Ajzenberg, Rodrigo Lacerda e Carlito Azevedo. Saramago também estava entre eles, mas às vésperas da entrega do Portugal Telecom, Pilar Del Rio, a Fundação Saramago e a Companhia das Letras decidiram retirar Caim da disputa. É sempre mais justo que um autor vivo tenha a chance de ganhar.
Para compensar, Saramago, falecido recentemente, foi homenageado na noite passada com a exibição de um trecho do documentário “José & Pilar”.
Bava disse que este concurso é uma aposta muito alta da empresa e reflete um pouco o que é a missão da Portugal Telecom. Ele quer estar no Brasil nos próximos 500 anos, mas que já está de olho na África. “Nossa língua é um patrimônio, é um ativo muito grande e une as pessoas”. Já o presidente da Portugal Telecom no Brasil Shakhaf Wine destacou a homenagem ao Nobel português “que tanto difundiu a língua portuguesa mundo afora”.
Apesar de ser um prêmio para escritores de língua portuguesa editados no Brasil, neste ano oito dos nove finalistas eram brasileiros. A Companhia das Letras emplacou cinco títulos entre os finalistas e dois de seus autores ficaram entre os três primeiros colocados.

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