“(…) O mineiro gosta de suas tradições, sabe que elas têm valor. Mas, de um modo único e valioso, não transforma isso numa bandeira para menosprezar, ou diminuir, as demais tradições, os demais modos de viver. Isso, repito, é muito menos comum do que parece.
Que outro Estado traria, riscando e demarcando os espaços de sua capital, os nomes dos outros Estados? Claro, dirão, isso foi fruto de uma cidade planejada, portanto uma escolha fria, racional. Pode ser, mas prefiro acreditar que não. Essa divisão de Belo Horizonte em Alagoas, Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro é emblemática do modo de ser mineiro, que gosta de suas tradições e delas se orgulha, mas olha, com curiosidade e admiração, para o resto do Brasil, aceitando e procurando conhecer outros modos de ser e viver.
E as ruas de Belo Horizonte, como são surpreendentemente estranhas… Obedecem a uma lógica própria, muito peculiar. Descartes sofreria por aqui. É uma lógica sentimental, vagamente poética, avessa a limites racionais. Não queira, como em outros lugares, entrar aqui e sair ali, como a geometria euclidiana ensina. Você chega nos lugares seguindo o coração, à toa e despreocupadamente, e não por estreitos caminhos lógicos (…).
E os bares? Aparecem no meio da rua, em lugares inesperados, parece que eles não deveriam estar ali. Mas estão. E são tantos, e tão poeticamente fortes, que é difícil não ser boêmio em Belo Horizonte. bares em esquinas, em ladeiras, em altas encostas; há os perto e os longe de tudo; há os que todos conhecem, e os que parecem ter sido descobertos por você. Tudo bem, parafraseando Mendes Campos, cada bar tem o Cabral que merece (…).”
Felipe Peixoto Braga Netto, em “As coisas simpáticas da vida” (Landy Editora)

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