Conselho Nacional de Educação é contrário à distribuição de Caçadas de Pedrinho de Lobato e obras de Eisner e Senna estão sendo retiradas de escolas estaduais

Babiana Mugnol – Pioneiro

O maior escritor infantil brasileiro também corre o risco de ter Caçadas de Pedrinho retirado das prateleiras escolares
Foto: Portus Junior

Dois escritores reconhecidos estão com títulos ameaçados de extinção em escolas da cidade. Por determinação da Secretaria Estadual de Educação, três livros do ícone mundial das histórias em quadrinhos, Will Eisner, começam a ser recolhidas das escolas de ensino médio por, supostamente, apresentar conteúdo inadequado para estudantes dessa faixa etária. O maior escritor infantil brasileiro também corre o risco de ter Caçadas de Pedrinho retirado das prateleiras escolares. O Conselho Nacional de Educação (CNE) emitiu parecer contrário à distribuição do livro de Monteiro Lobato por conter conotação racista ao descrever a personagem Tia Nastácia, comparando-a a animais como o macaco.

Para a titular da 4ª Coordenadora Regional de Educação (CRE), Marta Fattori, Caçadas de Pedrinho é inofensivo. O problema maior, segundo ela, são publicações distribuídas pelo próprio Ministério da Educação e Cultura (MEC), contendo ilustrações e linguagem eróticas e violentas. Um Contrato com Deus, A Força da Vida e O Sonhador, de Eisner, enviados às escolas em 2009, e Caminhos Diversos _ Sob os Signos de Cordel, de Costa Senna, que chegou neste ano, estão sendo retirados das bibliotecas escolares pela 4ª CRE.

— Não é de hoje que Monteiro Lobato está nas escolas. Não vejo problema no livro Caçadas de Pedrinho, desde que as crianças sejam orientadas de determinados termos foram utilizados em função da época em que o autor escreveu. Lamento que discutam sua obra, enquanto o MEC está mandando esse outro tipo de material, sem que a gente fique sabendo — disse Marta, apontando cenas de sexo nos quadrinhos.

A titular da 4ª CRE encaminhou cópias dos livros para investigação da promotora da Infância e Juventude de Caxias do Sul, Adriana Chesani.

— Vou solicitar ao MEC explicações sobre os critérios de avaliação para distribuição desses livros. De repente, eles não estão levando em conta alguns preceitos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Ou, quem sabe, o Conselho Nacional de Educação não deu seu parecer, como fez para Monteiro Lobato — declara a promotora.

Livros didáticos e literários do Ministério de Educação e Cultura (Mec) chegam também às bibliotecas da rede municipal. Se Caçadas de Pedrinho for banido, as escolas municipais também perderiam esta obra. Na Biblioteca Pública Doutor Demétrio Niederauer, todas essas obras literárias polêmicas podem ser encontradas. No entanto, a diretora, Maria Cristina Pisoni, salienta que os livros possuem classificações indicativas.

A escritora de literatura infantil Elaine Pasquali Cavion coordena o projeto Monteiro Lobato, da Biblioteca Pública. A iniciativa, surgida há dois anos, trata de cultura e oralidade popular com mais de 15 escolas. Na opinião da escritora caxiense, formada em Letras e Literatura e especialista em Leitura e Mídias, antes de propor uma ação radical contra o livro de Lobato, é preciso levar em conta sua característica de retratar o cotidiano no início do século passado.

— Quando ele escrevia, ainda não havia discussão de linguagem politicamente correta. Hoje, provavelmente, ele nem escreveria Caçadas de Pedrinho, por causa da preservação das espécies. Não acredito que ele tinha a intenção de denegrir. Seria até uma incoerência de um autor que criou a contestadora Emília, ter ideias tão ultrapassadas como o racismo.
Contra a proibição, Elaine é a favor da mediação literária para esclarecimento de dúvidas. Ela acredita ainda que banir essas leituras poderá surtir efeito contrário.

— O lado bom é que as pessoas vão despertar ainda mais sua curiosidade para estas obras — aponta.

A rede particular de ensino não tem as bibliotecas abastecidas pelo MEC. Se tivesse, porém, é provável que as restrições a Monteiro Lobato teriam ardorosos críticos nas escolas. O projeto Janela do Livro, desenvolvido no Colégio Mutirão, incentiva os alunos a mergulhar na obra do criador do Sítio do Picapau Amarelo. A atividade culmina com a encenação de peças teatrais em escolas, empresas e até hospitais. A professora responsável pela Biblioteca Luis Fernando Verissimo, Domingas Colombo Giacomin, coordena a Janela do Livro há 16 anos e se diz extremamente revoltada com a posição contrária ao livro Caçadas de Pedrinho.

— Eu não enxergo racismo, vejo valorização do negro por meio de Tia Nastácia. Ou então teríamos que queimar todos os livros que falem de italianos, alemães e de outras raças. Eu jamais imaginei que no ano de 2010 fosse surgir uma polêmica absurda como essa — critica Domingas.

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