Profissionais de música popular veem na escrita uma forma nova e desafiadora de expressão e transpõem sucesso para bibliotecas e feiras do livro

Carlos André Moreira e Larissa Roso

Um dos personagens mais ativos da cultura nacional, Lobão, 53 anos, lança ainda este mês a biografia 50 Anos a Mil, em parceria com o jornalista e amigo Cláudio Júlio Tognolli. Ao incursionar pela literatura, o compositor carioca, presente à 56ª Feira do Livro de Porto Alegre, faz um trajeto que não é incomum no cenário artístico: o dos músicos que se ensaiam como escritores.

Além do recentemente multipremiado Chico Buarque, o caso mais emblemático, há Tony Bellotto e Nelson Motta, compositores que vêm construindo com constância e persistência carreiras de ficcionistas. O próprio Paulo Coelho, antes de se tornar mago best-seller, era mais conhecido como parceiro de Raul Seixas, autor das letras de Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás e O Diabo É o Pai do Rock. E os sofisticados José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski, ensaístas rigorosos, são parceiros em vários projetos musicais. O que leva à pergunta: em que medida o desafio de se expressar em letra e música é diverso ou similar ao da composição de uma obra literária?

— A música pode se construir sem palavras, não é fundamental a letra. A música é composta de três ou quatro linguagens ao mesmo tempo: há o texto, a música, a relação entre ambas, uma casando com a outra — comenta o compositor Claudio Levitan.

Para alguns “cantautores”, essa subordinação do texto a outros elementos torna, muitas vezes, a experiência da escrita uma libertação das regras que a métrica e a harmonia impõem ao texto para virar canção. É o caso de Nei Lisboa, que confessa: — Escrever, para mim, é um desafogo, uma oportunidade para me libertar daquela métrica imposta pela melodia.

Para Lobão, produzir o livro foi uma catarse:  — Meus pais se mataram por minha causa. Passei a gostar muito mais do meu pai e da minha mãe, a resguardá-los e respeitá-los — disse no Teatro Sancho Pança.

Duca Leindecker, da banda Cidadão Quem e do projeto Pouca Vogal, aproveita até hoje os rendimentos da boa acolhida que seus títulos tiveram no início da década — A Casa da Esquina e A Favor do Vento. Cumpre uma intensa agenda de participações em feiras e palestras em escolas, discutindo semelhanças e diferenças entre as duas formas de compor e incentivando a leitura.

— Não existe música certa ou errada, existe música bonita ou feia. A literatura é mais racional — avalia.

Fonte: Zero Hora

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