Grande pergunta. Nem sei por onde começar a responder porque eu não fiz essa pergunta a mim mesma antes, não dessa forma. A música tem uma função forte na minha vida também, mas a função é diferente, é menos envolta nos conceitos verbais e mais focada na expressão dos sentimentos impalpáveis, mais sutis e espirituais. A música me ensina a amar a vida como ela é. E a literatura me ajuda a entendê-la, a investigá-la, a perscrutar todos os seus porquês e razões e desrazões. A literatura me mantém apaixonada por essa posição de investigadora diante do mundo.
Ultimamente, estou saboreando devagarinho o Grande Sertão – Veredas, de Guimarães Rosa, e aprendo com ele, por exemplo, que “viver é muito perigoso”. Oh, sim, e que “o que a vida quer da gente, é coragem”. E, em geral, dos livros, me vem mesmo a ideia de que o importante, na vida, é simplesmente viver – deixar acontecer, e aproveitar as oportunidades de conhecimento sobre a alma humana, e a miséria e a beleza humana, que aparecerem.
A literatura me ensina a estar aberta a buscar novas questões, o tempo todo. Adoro aprender a ser inquieta com meus autores preferidos, como Paulo Leminski, Fernando Pessoa, Monteiro Lobato, João do Rio, Jack Kerouac, Gay Talese, Truman Capote, Anton Tchekov, Walt Whitman… e por aí vai.
Arthur Schopenhauer escreveu que, quando a gente lê um livro, deixa o autor “pensar” por nós. Deixamos que nossos pensamentos sejam os da voz do livro. De certa forma é assim. E justamente por essa generosidade de leitor é que podemos aprender algo com os livros. Mas, se depois de “pensar com a cabeça do autor”, pensamos com a nossa, então, o ensinamento se completa. E isso não é exatamente imediato. As palavras de um livro, emprestadas para nossas mentes, podem ecoar por anos, como memórias, lembranças, mistérios, sonhos, ou ainda como chaves subjetivas para entender situações novas a que somos constantemente apresentados nessa vida.
Mas a literatura também me ensinou a negar os maus livros, nem que “todo mundo” tenha comprado. Esses aí podem ficar bem longe da minha prateleira, e nem me importa que eu não entenda a “conversa de todo mundo”. Não estou nem aí, se estou por fora da moda. Aliás, leio muito mais é coisa velha, mesmo. E há um mundão de livros que ainda quero ler. Mas a própria literatura me ensinou a ter menos pressa, também. Cada livro tem sua hora, seu tempo e seu ritmo.

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