Se houvesse uma novela inspirada na vida de Íris Abravanel, ela seria, como define a própria, uma tragicomédia. “Tenho bom humor dentro de mim desde pequena. Não gostava quando as pessoas discutiam na família. Que fazia? Saía, me vestia com a roupa da minha tia, passava um batom, pegava a bolsa e um sapato, entrava no meio da discussão e acabava tudo. Eu tinha dez, nove anos”, contou a novelista, que para exercer seu papel, escolheria Regina Duarte. No de Silvio Santos, Íris tem dúvidas.

Íris recebeu a coluna no seu escritório do Morumbi, semana passada, em meio ao furação que abala o Grupo Silvio Santos. Tranquila, afável, ela evitou comentários maiores sobre o problema do Panamericano. “A integridade do meu marido não foi nem será abalada”. Estava sim concentrada no lançamento do seu livro Recados Disfarçados, amanhã, na Fnac Pinheiros, SP. São contos-recados acumulados durante anos, meio pelo qual Íris costuma se comunicar. Muitos deles, dirigidos ao próprio marido, Silvio Santos. Aqui vão trechos da longa conversa.

A senhora deve ter tido um susto com o problema do Panamericano. Como vê a situação e como está o Silvio Santos?
A integridade de meu marido não foi nem será abalada. Ele é um homem de palavra e sempre foi cumpridor de suas responsabilidades. Prova disto é a atitude que ele teve agora.

A senhora tem fama de ser desapegada a bens materiais. Teve medo de perder tudo?
Nunca! Nossas maiores propriedades são a saúde, fora do nosso trabalho e nossa dignidade. Temos certeza que não vamos perder nada disso.

A senhora sabia do que estava acontecendo antes do problema estourar?
Olha, não vou falar sobre isto. O assunto é com o Panamericano e com seus dirigentes. Não falo pelo Silvio.

Bom, o fato é que sua vida daria uma novela. Se fosse, qual seria o título?
Daria uma novela, sim, e muito boa. Ela tem vários altos e baixos, né? Seria bom até para servir de testemunho, de incentivo. Eu sempre tive de assumir riscos, desde pequena. Somos quatro e sou a mais velha da família. E aí, o que sobrava? Tinha que consertar a parte elétrica da casa, levava choques, costurava os ferimentos dos cachorros, fazia curativo no meu pai quando ele se machucava… Sempre me coloquei à frente para resolver alguma coisa. Eu não tinha medo. Hoje eu vejo que isso me deu uma base, uma estrutura para poder enfrentar tudo que veio depois.

Como conheceu o Silvio?
Numa praia, com 19 anos. Ele era mais velho. Depois de um longo tempo, e muita tempestade, a gente acabou ficando junto. Ele era casado à época. Depois, a mulher dele faleceu.

Pensa em escrever um livro sobre a vida de vocês?
Talvez escrevesse um romance baseado em toda nossa história. Porque tem muita coisa que serviria de exemplo para as mulheres. E homens também. Olha, vou te contar uma coisa: quando eu escrevia crônicas para a revista Contigo, o primeiro a ler era ele. Escrevia na forma de recados, como é o nome do livro que lanço na terça (amanhã). E alguns desses textos que está em Recados Disfarçados eram para ele. Como O Peso do Mundo e Nosso Instinto Gregário.

Como surgiu essa sua vocação para escrever?
O Silvio é um excelente argumentador. É muito difícil você ganhar uma discussão com ele, praticamente impossível. A primeira palavra dele é Não. Eu adquiri com ele uma capacidade de argumentar, raciocinar e discernir. E tenho de fazer isso muito rápido, porque ele é muito ágil, né? Foi com ele que aprendi e desenvolvi isso. Poder vender aquilo que você acredita. Ele é também excelente vendedor.

E quando a senhora resolveu começar a trabalhar?
Nunca fui de ficar acomodada, nem tenho tendência para vida de dondoca. Eu sempre quis me sentir útil. Quando minhas filhas eram pequenas, me absorviam muito. Eu sempre fiz questão de participar, de acompanhar…

Então, depois que as criou, resolveu escrever profissionalmente?
É. Aí eu quis trabalhar… Até escrevi uma crônica sobre isso: “Homens, nós não precisamos de vocês”. Sobre o medo que eles têm que a mulher trabalhe fora e tal. Isso na minha geração, não na sua. Não sei se o homem ainda se sente inseguro em relação a isso. Mulher ganhar mais que o homem, por exemplo. Acho que ainda incomoda, não?

O que a senhora mais gosta na programação do SBT?
O que mais admiro é essa imparcialidade com o jornalismo. Eles são responsáveis e fazem um trabalho muito sério.

E o episódio da bolinha de papel nas eleições?
Não falo sobre política.

A senhora conversa sobre política com Silvio?
Não, não falamos.

Não lhe interessa?
Me preocupa. Só. E me mantenho atualizada.

Sei que a senhora não gosta de falar de política, mas quando Silvio resolveu ser político…
Ah, eu posso falar. Naquela época era um comitê de dois. Eu e ele. Porque ele atendia um telefone, eu atendia outro. Começou a chover telefonemas de todos os políticos. A gente não estava nada preparado para isso. Não tenho dúvidas que ele se elegeria. Mas não tenho dúvidas que, para nós como família, ele teria de tomar atitudes que não seriam populares. Poderiam prejudicá-lo como pessoa.

É a favor da liberdade de imprensa?
Total, total, total. Com responsabilidade. Todo o departamento de jornalismo do SBT tem total liberdade de dar a noticia. Silvio não interfere em nada.

Como o SBT lhe paga?
Eu sou contratada do SBT, tenho crachá e salário.

E pode revelar quanto ganha?
Não!

Por que é muito ou pouco?
Porque é muito pouco! Sabe aquele negócio que santo de casa não faz milagre? Acho que o maior salário é poder começar uma carreira com essa idade. É um privilégio. Isso, graças ao Silvio. Se ele não me contratasse… E poder desenvolver esse talento que eu tenho.

O Silvio é muito ciumento?
Esse foi um problema da nossa vida, e ele reconhece isso. O Silvio sempre foi ciumento. Até por isso eu só pude trabalhar no início porque era em casa. Hoje não. Está mais tranquilo. Também, se não estivesse! Hoje eu sei da importância de a gente ter passado por todos as crises e conflitos. Como é gostoso superar e chegar nessa fase! Não é coisa de velhice, rejuvenesce a gente. Ele me conhecer, eu conhecê-lo, a gente abrir mão das coisas que gosta pelo outro, até que passa a gostar e compartilhar das mesmas coisas. Nós éramos totalmente opostos. Ele gosta de cidade, eu de praia. Tenho de chamá-lo para ouvir os passarinhos.

O que a senhora sentiu quando sua filha, Patricia, foi sequestrada?
É como se tirassem um pedaço de você. Eu falava que eu sobreviveria a qualquer coisa, mas não suportaria um sequestro de uma filha.

Onde arranjou forças?
Primeiro, acreditar que nenhum fio de cabelo dela seria tocado. Precisava também perdoar as pessoas que estavam com ela. Eu me emociono até de falar porque eu também precisava acreditar que ela estava sendo bem cuidada. Foram sete dias, com helicópteros em cima da minha casa. Em nenhum momento eu entrei em pânico porque eu só queria acreditar que minha filha iria voltar e que estaria bem.

A senhora não odeia os sequestradores?
Não posso odiar. Eu acho que ia fazer muito mal pra mim. A mágoa deixa a gente amargurada. Temos de nos aperfeiçoar como seres humanos. Todos temos falhas. Acho que a gente precisa entender o outro também.

O que acha do meio empresarial?
Eu admiro demais o Silvio como empresário. Sou maior fã dele. Do posicionamento, as estratégias que ele tem. Acho brilhantes as saídas que ele encontra.

Silvio faz 80 anos dia 12. A senhora está preparando alguma comemoração?
Ele é completamente avesso a comemorações. Ele se sociabiliza somente com o auditório e o público dele. É extremamente caseiro. O nosso convívio é muito familiar. Na época em que as meninas estavam na escola eu até consegui levá-lo para festa de escola. Consegui que ele participasse da vida escolar das meninas.

Vocês continuam na ponte aérea São Paulo/Miami?
Sempre quando dá. Agora eu tô planejando no final do ano todo mundo lá. Vamos ver.

Já pensou em morar lá?
Mudar eu acho difícil, né? Os negócios dele estão todos aqui. Ele pode até diminuir o ritmo de trabalho, mas parar de trabalhar, não vai. Nem pode. Eu não posso tirar a vida dele. Lá ele pode ser ele mesmo. Ah, uma coisa interessante: o supermercado lá nós mesmos fazemos todos os dias. Compramos de pouquinho. Ele ama.

Fonte: Estadão

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