Por Carlos de Souza – especial para o Viver (Tribuna do Norte)
Ele é considerado um dos mais importantes escritores da língua portuguesa em países africanos. Nascido em Beira, Portugal, logo cedo migrou com a família para Moçambique. Na web você vai encontrar informações com esta sobre ele: “Em muitas das suas obras, Mia Couto tenta recriar a língua portuguesa com uma influência moçambicana, utilizando o léxico de várias regiões do país e produzindo um novo modelo de narrativa africana. Terra Sonâmbula, o seu primeiro romance publicado em 1992, ganhou o Prêmio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos. Em 1995 foi considerado um dos doze melhores livros africanos do século XX por um júri criado pela Feira do Livro do Zimbabue.” Mia Couto vai estar no primeiro dia do Festival Literário de Pipa, que se realiza de 18 a 20 deste mês. Eu conversei com ele por telefone e o resultado é a entrevista a seguir.
Um escritor em estado de infância
Foto: Divulgação
Que relação você estabelece entre a literatura de língua portuguesa e a literatura brasileira?
A literatura de língua portuguesa é vária, é diversa. Portanto, quando se fala em Portugal, por exemplo, é um universo, depois é um universo que respeita aos países africanos, que são cinco, cada um deles é um mundo. Eu acho que agora, o que eu posso falar com mais propriedade é da relação com a África e particularmente com o meu país que é Moçambique. Existe um desconhecimento típico que é grave. Nós conhecemos pouco o que estar a se fazer no Brasil hoje. Agora durante as décadas de 50, 60 e 70 havia um conhecimento muito bom por parte de Moçambique por parte daquilo que se fazia no Brasil. Tenho companheiros que foram muito marcados por Jorge Amado, Manuel Bandeira, Graciliano Ramos, escritores dessa geração. Mas eu acho que o Brasil nunca conheceu muito bem o que se passava na África, e eu posso falar por extensão, o que se passava e o que se passa ainda em Portugal. Portanto existe entre nós nessa constelação dos países de língua portuguesa um desconhecimento típico que é grave. E isso a gente precisa resolver.
Como você vê a recepção de seu livros entre leitores brasileiros?
Eu acho que houve um percurso, um bom caminho. Me parece que está correndo bastante bem. Uma recepção muito maior, muito mais ampla do que era há dez anos atrás. Comecei a publicar no Brasil, curiosamente, mais tarde, bem mais tarde do que eu publiquei em países como a Noruega, Suécia e Alemanha.
Você escreve livros infantis? Como é escrever para crianças?
Eu tenho dois livros infantis. Um deles já foi publicado pela Companhia das Letras, chamado O Gato e o Escuro e o segundo livro, O País da Palavrinha, publicado pela Editora Língua Geral. Eu acho que não existe isso de escrever para crianças, a gente escreve. As crianças não são um público tão diferente como nós pensamos que sejam. Aliás, eu acho que sempre que escrevo é quase sempre em estado de infância. Nós próprios temos que assumir esse estado de infância como se tivéssemos despertos, nos reencantando com o mundo. E os livros despertam este encantamento que é o encantamento das crianças.

 

Parece que você não gosta muito da palavra tradição. Como você lida com o passado para sua criação?
Eu não tenho receio da palavra tradição. Só que muitas vezes ninguém sabe exatamente o que quer dizer quando estar a falar de tradição. Como se tradição fosse uma coisa do passado cristalizado. A tradição é uma coisa que pode ser nova, que é moderna também, que nós fazemos no dia a dia. A mesma coisa acontece com o passado. O passado é sempre muito mais recente do que nós pensamos. Ele vai sendo refabricado.
Da mesma forma que Chico Buarque aqui no Brasil, você cria muito bem sobre o universo feminino. Como você explica isso?
Eu acho que aí há uma fronteira que não sei bem se nós temos que respeitar tal qual como nos dizem que é, a fronteira entre o masculino e o feminino. Muitas vezes entendemos que alguma coisa é tipicamente masculina, outras vezes que é tipicamente feminina, sem entender exatamente porque. Muitas vezes quando pergunto a alguém, a dar um exemplo de alguma coisa tipicamente feminina e é muito difícil que a resposta surja clara. As pessoas falam coisas como intuição, vaidade, mas isso existe nos homens também. Também aqui nessa questão do que é feminino ou masculino estamos falando em construções que são construções culturais e sociais.
Qual o autor brasileiro que mais lhe chama a atenção?
Aquele que mais marcou, sem dúvida nenhuma foi Guimarães Rosa. Mas há vários autores do Brasil que influenciam muito a África de língua portuguesa e Portugal também, por um conjunto muito grande de autores: desde Jorge Amado, Graciliano Ramos, os poetas Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e agora Manoel de Barros, Adélia Prado… é uma lista muito grande.
Como é que você explica a criação de seus livros?
Eu nem sei explicar. O que faço é a partir de núcleos de questões que funcionem como alguma coisa que me tocou ou que me comoveu. Dali eu passo para a construção de personagens. Depois são esses personagens que me conduzem e eu tenho que estar numa relação de paixão com esses personagens. Não tenho a habilidade de previamente ter construído a arquitetura da história.

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