Como fazer que seu filho se torne um leitor apaixonado, sem pressão

Natal está chegando e eu logo me animo com a porção de livros que li este ano e com a possibilidade de presentear crianças com eles. Penso isso com os adultos também. Mas já ouvi tanto de outros colegas apaixonados por livros infantis, falando de si mesmos: “ai, eu sou aquele chato que em vez de dar brinquedo, dá livro para a criança”. E é isso que eu chamo de um começo ruim.

Porque se você dá um livro para uma criança com o objetivo de transformar a vida dela, de você ser o incrível propulsor de uma cultura de leitura que aquela criança só adquiriu por sua causa, para você mesmo se colocar no posto mais alto dos presenteadores do tipo “cabeça”… esqueça! Assim, você só conseguirá mesmo o posto de “o chato”.

Estava lendo uma coluna de Rubem Alves e ele novamente citava uma amada professora que o provocou a paixão pela literatura. Ele sempre deixa claro que isso aconteceu por uma razão: ela não dava livros para eles, ou mandava ler. Ela lia para os alunos. Uma paixão só é entendida quando se tem provas dela, ora.

Estou no meio de uma leitura bem interessante do escritor Caio Riter, autor de vários livros como o premiado O Rapaz que Não Era de Liverpool (Ed. SM). O livro se chama A Formação do Leitor Literário em Casa e na Escola (Ed. Biruta) e ele começa falando de sua relação pessoal com a leitura, dizendo que não tinha muitos livros em casa, mas que tinha uma mãe contadora de histórias. Mais para frente, ele divide uma história muito bonita. Ele disse que quando decidiu ser pai, junto com tal decisão vinha outra que sempre lhe pareceu muito natural: ter filhos leitores. E assim ele conta que lia histórias “para a barriga” e o quanto ele queria ser um contador de histórias o mais cedo possível. E ele diferencia o papel de escritor com o de contador de histórias. “Contar histórias aos filhos ou às crianças pelas quais temos afeto, geralmente é destituída de qualquer intenção. É apenas partilha, carinho, troca. É revelação de que um (aquele que conta) se interessa (ou se preocupa) por outro (aquele que escuta).”.

Ele continua contando que, então, sua filha Helena começou a ouvir histórias cedo e que, no dia em que foram para casa após o nascimento da irmã dela, Carolina, a mais velha, com então 4 anos de idade, correu ao quarto e retornou com um livro na mão. “Olhou-me com aquela cara de anjo travesso e disse:

– Lê para ela, pai.
Eu li. Sentei-me na poltrona com aquela bebê de dias no colo, a Helena ao lado, atenção total, e li a história de boas-vindas. Na ocasião, não cheguei a racionalizar sobre o que significava aquele ato da Helena. Hoje, na distância, pude perceber que ela ofereceu à irmã aquilo que de melhor havia em nossa casa: o encontro através da leitura. Afinal, não é assim que funciona? Sempre que recebemos em nossa casa alguém de quem gostamos, oferecemos a essa pessoa o que de melhor temos: a melhor poltrona, o melhor cardápio, a melhor música para ela ouvir. Helena ofereceu a leitura”.

Fiquei tão emocionada com este trecho. Imaginando que Caio já conseguiu o que desejava. E que foi de forma natural. Foi sendo leitor e mostrando sua paixão às filhas. Mesmo que eu não saiba os detalhes de seu dia a dia. Nada de imposição, nada de pressão. Apenas ame ler ao lado de seu filho.

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.

Fonte:  Revista Crescer

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