Para o psicanalista Renato Mezan, o livro de J.K. Rowling ajuda a oferecer modelos de conduta, assim como a Ilíada e a Odisseia de Homero o fizeram para a sociedade grega.

Eliseu Barreira Junior

Renato Mezan, psicanalista e professor da PUC de São Paulo, começou a ler Harry Potter atraído pela repercussão da história na mídia. Leu o primeiro livro, leu o segundo e, a partir do terceiro volume da série, passou a importar a obra diretamente da Inlgaterra. Foi fisgado pela história. Mezan não faz parte, portanto, da geração que cresceu lendo Harry Potter. Ele faz parte de um grupo de adultos que se tornaram fãs do bruxinho. Em entrevista a ÉPOCA, Mezan se diz cético quanto à possibilidade de uma obra literária determinar a maneira de uma geração pensar ou agir. Segundo ele, o comportamento dos jovens sofre influências não só de livros, mas também de novelas, desenhos animados e seriados de televisão. Mezan afirma ainda que os temas discutidos por J. K. Rowling são universais. “Coragem, amizade, orgulho, ambição, ética e questões sociais sempre preocuparam a humanidade. O que há de especial em Harry Potter é que a autora trata desses assuntos focando o universo dos adolescentes, algo que os mobiliza, e tempera tudo isso com elementos mágicos.” Para o psicanalista, assim como a Ilíada e a Odisseia de Homero, datadas do século VIII a.C, ajudaram a educar a sociedade grega ao oferecer modelos de conduta, Harry Potter exerceu papel semelhante para uma geração. “Tudo indica que o livro vai perdurar por muitas outras gerações, porque sempre existirão jovens preocupados com os dilemas que a vida coloca.”

QUEM É
Renato Mezan, psicanalista e professor da PUC-SP. Nasceu no Rio de Janeiro em 1950

O QUE FAZ
É o maior estudioso brasileiro da obra do austríaco Sigmund Freud. Seus livros, como Freud, Pensador da Cultura, são referência internacional

ÉPOCA – A série Harry Potter definiu os valores e comportamentos de uma geração?
Renato Mezan – Sou muito cético em relação a afirmações generalistas. Acredito que nenhuma geração é construída por esta ou aquela história. O comportamento dos jovens sofre influências não só de livros, mas também de novelas, desenhos animados e seriados de televisão. É importante lembrar que, diferentemente do que acontece na Europa, os brasileiros, em geral, leem muito pouco. No Brasil, a telenovela exerce um papel muito mais forte sobre a vida das pessoas do que um livro. Isso não quer dizer que, entre aqueles que tenham lido Harry Potter, nenhum ensinamento tenha sido adquirido. Sim, isso aconteceu. Mas não de uma forma determinista, entende?

ÉPOCA – Muitos jovens relatam que por causa de Harry Potter começaram a ter gosto pela leitura…
Mezan – Sim, isso é possível. Eu acredito, porém, que foi por meio dos filmes e do estardalhaço publicitário em torno da história que Harry Potter se fez conhecido entre as crianças e adolescentes. Sei de casos de vários jovens que nunca leram os livros, mas que conhecem as tramas de cor e salteado por causa das produções de Hollywood. Independentemente disso, J.K. Rowling escreve magnificamente bem para o público jovem. Ela é muito inventiva.

ÉPOCA – Qual é a razão do sucesso de Harry Potter?
Mezan – Há várias explicações. Em primeiro lugar, J.K Rowling acertou em cheio quando criou um universo paralelo em que os heróis são imperfeitos como nós. Não há quem seja totalmente do bem, nem quem seja totalmente do mal. Se analisarmos a história do Super-Homem, por exemplo, veremos que é ele perfeito, maravilhoso e idealizado. Hoje em dia, não há mais espaço para heróis assim. O Harry Potter tem medo, é impulsivo, faz mesquinharias com o Rony, seu melhor amigo, de vez em quando. O Dumbledore era um cara arrogante na juventude, achava que era o dono do mundo e errou bastante. Isso cria proximidade, aderência, com o leitor. Os personagens, apesar de serem bruxos e viverem num mundo mágico, são críveis, de carne e osso. Em segundo lugar, o livro é um romance de formação, em que o crescimento dos personagens é permeado de uma série de dilemas que todo jovem vivencia. A cada história, Harry, Rony e Hermione são introduzidos num contexto cada vez mais ameaçador em que os valores pesam. Em certo momento, o Dumbledore diz para o Harry: ‘tempos difíceis se aproximam e você precisará escolher entre o que é certo e o que é fácil’. Essa é a mensagem central da série: coragem para fazer o que é certo, discernimento para fazer o que é bom e força de vontade para combater o que é errado. Em terceiro lugar, Harry Potter foi escrito em inglês e não em finlandês ou em português. Monteiro Lobato, que também criou um mundo ficcional próprio com muitos volumes e aventuras, se tivesse escrito em inglês, talvez tivesse sido um grande sucesso do século XX em matéria de história infantil como é J.K. Rowling.

ÉPOCA – Em Harry Potter, há a discussão de uma série de questões, como o racismo, a amizade e o respeito à diversidade. São assuntos que preocupam a juventude dessa década ou não? Os valores em discussão refletem anseios e preocupações dessa geração?
Mezan – Não sei se há valores dessa década em discussão em Harry Potter. Sou meio cético em matéria de generalizações. O ser humano é um pouco vaidoso e narcisista por natureza e nós tendemos a achar que a nossa época é muito diferente das outras. Eu acho que não é. Não há grandes variações, a não ser em relação à tecnologia. Harry Potter não trata de questões dessa geração. No livro, há questões universais em pauta. Coragem, amizade, orgulho, ambição, ética e questões sociais sempre preocuparam a humanidade. O que há de especial no livro é que a autora trata desses assuntos focando o universo dos adolescentes, algo que os mobiliza, e tempera tudo isso com elementos mágicos. Ela discute esses valores tratando da adolescência, de questões ligadas ao desenvolvimento, à maturação. O Harry, assim como qualquer jovem, tem de passar por grandes provações para chegar à independência, à idade adulta. Ele começa a história saindo da casa dos tios, que são pais adotivos ruins e que o discriminam. O livro aborda assim problemas familiares que toda criança enfrenta, de uma maneira ou de outra, em diferentes graus. Em seguida, o Harry descobre um mundo no qual ele é aceito, valorizado, cujo futuro dos bruxos e dos trouxas está em suas mãos. Nesse contexto, ele percebe que só isso não basta para crescer, é preciso que se esforce, que faça amigos, passe por problemas de relacionamento com os outros, vivencie perdas e decepções. Conforme a história avança e os personagens crescem, tudo isso fica mais complexo, intenso. Qual geração nunca teve de enfrentar desafios dessa natureza? J.K. Rowling teve a habilidade, competência e sorte de explorar essa temática.

ÉPOCA – Um veio fecundo que mobiliza a humanidade desde sempre…
Mezan – Sem dúvida. Não acho que literatura, ficção, determine a forma como uma geração agirá, mas creio que forneça modelos de comportamento para angústias e dilemas do homem. Assim como a Ilíada e a Odisseia de Homero, datadas do século VIII a.C, ajudaram a educar a sociedade grega ao oferecer parâmetros de conduta, Harry Potter exerceu papel semelhante para uma geração. Ele é a Ilíada de uma geração. Os gregos se educaram com essas obras porque elas discutiam valores como honra, valentia, coragem, amizade, fidelidade, orgulho, ambição e questões sociais e éticas de comportamento – como eu devo ser, como eu devo me comportar, o que é certo, o que é o errado, o que é o bem, o que é o mal. Harry Potter entra nessa linhagem que começa com a Ilíada e a Odisseia e que está presente em inúmeros mitos das sociedades ocidentais. Nesse sentido, o livro não é diferente de outros romances que também tiveram um papel na sua época. E os melhores em todas as épocas se tornaram clássicos.

ÉPOCA – Harry Potter se tornará um clássico da literatura?
Mezan – Dentro do que é possível profetizar, tudo indica que sim. Ele é um livro para a juventude, e sempre existirão adolescentes que enfrentarão os mesmos problemas do personagem. Como crescer? Como ser feliz dentro das circunstâncias? Como conquistar amigos e lidar com os adversários variados? Como resolver os problemas que a vida vai colocando? Essas são dúvidas que todos sempre enfrentarão. Outro ponto que eu considero importante destacar, no caso específico de Harry Potter, é que a magia é como a ciência no nosso mundo. Ela tem de ser aprendida com grande esforço. O fato de você ser um bruxo de nascença e ter esse talento, essa capacidade, esse dom, não garante que você será um bom bruxo, vide as inúmeras vezes em que os feitiços dão errado. Então, o conhecimento tem um valor muito grande e deve ser adquirido arduamente e demonstrado. Essa é uma mensagem peculiar da história. Se você quer ter sucesso, tem de se esforçar e o esforço compensa.

Fonte: Época

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