Um dos nomes maiores do humor de Hollywood é também autor de sucesso. Esta é a história do seu novo romance

Aos 65 anos, Steve Martin faz tudo para ser um dos nomes menos previsíveis da indústria do cinema nos EUA

Andando pela Madison Avenue abaixo, na tarde soalheira de domingo passado, Steve Martin tinha o ar de uma estrela de cinema mal disfarçada, com óculos escuros e um chapéu fedora antracite que lhe cobria o característico cabelo branco.

Mas uma vez chegado ao interior da Gagosian Gallery, uma das mais dinâmicas galerias de Nova Iorque, tirou o sobretudo. De fato escuro, gravata cor-de-vinho e sapatos pretos impecavelmente engraxados, parecia um dos negociantes de arte que descreve no seu novo romance.

Martin estava lá para falar do seu livro, “An Object of Beauty“, uma história passada no mundo da arte de Manhattan que resulta de décadas de observações pessoais. Martin é um coleccionador de longa data e conta entre os seus amigos grandes negociantes de arte como Larry Gagosian e William Acquavella, cujas galerias, a poucos quarteirões de distância uma da outra na zona onde se concentram os grandes negócios de arte do Upper East Side, figuram regularmente no romance.

Mas Martin insiste que está longe de ser uma autoridade no assunto e pareceu mais à vontade a falar de livros de arte do que de obras de arte.

“Não sou um perito”, afirmou, com a sinceridade seca por que é conhecido. “Acredite; eles não precisam de mim.”

Na galeria Gagosian, Martin ignorou uma sala cheia de quadros de John Currin em tonalidades vermelho-vivo, creme e dourado, dirigindo-se a um corredor estreito onde estavam expostas centenas de livros e catálogos.

“Alguém me disse que este tipo de bibliotecas já não é importante porque se consegue obter tudo na internet”, diz, olhando para as estantes do chão ao teto. “Mas não é verdade. Se se pesquisar no Google um artista e se pedirem imagens, não se obtém qualquer informação – não se sabe onde está o quadro, não se tem ideia da técnica utilizada, nem do tamanho, nem tão-pouco da proveniência. Por isso estas bibliotecas são mesmo importantes.”

Martin, de 65 anos, distanciou-se dos seus dias de comediante destravado em palco, mas continua a ser um actor cómico e é também um tocador de banjo itinerante, autor de livros de crianças, ensaísta e romancista. No próximo ano vai aparecer num filme acerca de competições de observação de aves, “The Big Year“, e lançar um disco de banjo, “Rare Bird Alert“.

Como pessoa, é sossegado, sério e bem-educado (abre as portas às senhoras e carrega nos botões dos elevadores), sem nada da personagem apatetada e desconjuntada que era a sua imagem pública há muitos anos. E, por vezes, fica um pouco constrangido. Ao dobrar a esquina da Madison Avenue com a rua 79, reparou num fotógrafo e fez uma careta. “Detesto fotografias minhas tiradas com este casacão”, diz, puxando a bainha do seu sobretudo Zegna, cinzento e largueirão.

Obras e criadores

Martin mergulhou no mundo da arte quando estava na faculdade. Aprendeu as bases com um amigo próximo, artista, e com um negociante de arte que tinha uma grande biblioteca. Ao viajar pelo país com o seu espectáculo cômico, parava em museus, geralmente em cidades universitárias, e ia apanhando livros pelo caminho.

“Tenho a teoria de que há pessoas que nascem com esse bichinho e que outras o adquirem” diz. “Eu adquiri-o.”

A primeira peça importante a integrar a sua coleção foi uma gravura de Ed Ruscha, que comprou há décadas. “É uma longa história”, diz. “Vendia-a quando saí de Los Angeles zangado.” É possível que ele tivesse de se desfazer da gravura para se esquecer de Los Angeles, se pensarmos que a obra de Ruscha é um espelho da cidade.

Presentemente, a sua coleção desafia qualquer tentativa de categorização, diz, revelando apenas que tem uma mistura de arte norte-americana dos séculos XIX e XX e “um quadro impressionista francês”. Não há muito tempo comprou um quadro de William Michael Harnett, um pintor de naturezas mortas do século XIX.

“É absolutamente fantástico viver com isso”, diz Martin. “É melhor do que a televisão. Não há dia em que não olhe para uma obra de arte ou passe algum tempo junto dela.”

A arte figura em “Shopgirl“, o seu curto romance de 2000 e, tal como “Shopgirl“, o novo romance tem por protagonista uma mulher jovem, Lacey Yeager.

Há dois anos começou a escrever “An Object of Beauty“, usando como referência livros da sua própria coleção, tão grande que teve de a repartir entre as suas casas de Nova Iorque e de Los Angeles. Analisou sobretudo os catálogos da Sotheby”s e da Christie”s e, pelo menos, três livros sobre Maxfield Parrish, um pintor dos EUA do século XX que ocupa um lugar de destaque no romance.

O livro está cheio de referências às suas experiências nova-iorquinas. Uma das personagens, um colecionador de arte e milionário de altos voos, chamado Patrice Claire, fica no hotel Carlyle sempre que chega de Paris. Martin tinha lá um pequeno apartamento, um pequeno T1, diz. Martin gosta de andar de bicicleta na ciclovia do West Side; o mesmo acontece com a personagem do livro, Lacey Yeager, um ambicioso e insinuante negociante de arte.

O texto contém muitos nomes verdadeiros, em grande parte para não obrigar os leitores a adivinharem que pessoa real representa cada personagem.

Telas para letras Parte do que o levou a escrever sobre arte, diz, é o desafio de captar um mundo que ainda lhe é um pouco alheio. Isto vindo de um homem que foi dono de um quadro de Edward Hopper, “Hotel Window”, vendido pela Sotheby”s em 2006 por 26,8 milhões de dólares.

“O meio em que o livro se move é o mundo da arte”, diz. “E a razão por que escolhi o mundo da arte é porque o conheço relativamente bem, mas não sei tudo o que se passa nele. E isso agrada-me. Poderia ter escolhido o mundo dos negócios, mas sinto que o conheço bem demais.”

Martin diz que não apresentou o manuscrito à editora até a obra estar concluída, para não se ver constrangido por prazos, sugestões de alteração ou outro tipo de pressões.

A Sotheby”s teve algumas reservas em ver-se retratada no livro a desempenhar um papel algo controverso: uma das personagens, funcionário da Sotheby”s, tenta instituir um esquema de licitação. A casa leiloeira não gostou.

“Ficaram um pouco nervosos com o facto de, no enredo, se dar uma fraude nas suas instalações, mas convenci-os de que acabam por ser uns heróis”, diz.

Martin vai saber em breve o que o mundo da arte acha do livro, que será lançado na terça-feira. Acquavella diz que começou agora a lê-lo; Gagosian vai organizar uma sessão de autógrafos do livro.

O manuscrito foi revisto por duas pessoas que trabalham em leiloeiras e Martin fez algumas pequenas alterações, com base nas sugestões que elas lhe deram.

Diz que não o preocupa que o livro nunca venha a dar um filme, como deu “Shopgirl“. “O meu agente disse-me, ”Temos de o divulgar pelas produtoras cinematográficas”, ao que eu respondi, ”Com toda a franqueza, não quero saber, porque não vou ter nada que ver com isso”, afirma. “Embora eu desse um bom Barton Talley” acrescenta, referindo-se a um dos grandes negociantes de arte do romance.

“Dei-o a ler à minha mulher” , diz, acabando por finalmente largar um sorriso. “A ela compete-lhe dizer, ”Fantástico!””

Fonte: ionline – Portugal

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