Esqueça a grandiosidade da Flip, nascida há oito anos em Paraty, e até mesmo alguns de seus filhotes, espalhados de Norte a Sul por este Brasil. A primeira Festa Literária de Santa Maria Madalena não teve atrações nacionais e internacionais famosas, como sua “matriz”. Também não teve patrocinadores de peso, celebridades ou homenagens a um escritor específico, reconhecido aqui ou lá fora. Na FLIM, quem fez a festa foi o povo da cidade e arredores, leitores contumazes e principiantes, escritores e professores locais, apoiados por comerciantes e autoridades do município fluminense. E os grandes homenageados foram a literatura como um todo e a leitura como forma de lazer e aprendizado e porta aberta para o mundo e a imaginação. Enfim, a melhor combinação do que quer a maioria das gentes: cultura e diversão.

A ideia nasceu, digamos, na roça, num cantinho conhecido como Dezessete e que, acreditem, tem uma biblioteca. Chegou ao centro da cidade, tomou forma, ganhou mais e mais adesões, chegou aos distritos de Triunfo, de Imbé… Ganhou até logomarca que sintetizou bem sua intenção: uma criança na serra com um livro na mão. E finalmente aconteceu, entre 12 e 14 de novembro, aproveitando o ensejo do feriadão.

Durante três dias, Madalena se coloriu de cartazes com poemas e frases de contos e romances. Os livros “brotavam” de suas árvores e paredes: dentro e fora dos locais que abrigaram atividades, encontravam-se páginas e páginas sendo manuseadas e examinadas por olhos curiosos de todas as idades. Adultos e adolescentes se fantasiaram para entreter o público. Uns, vestidos de palhacinhos, faziam graça e conquistavam a todos. Outros, passando-se pelos monstros de inúmeras histórias que povoam nosso imaginário, brincavam de amedrontar na “Tenda do Terror”, uma das atrações de maior sucesso entre a garotada mais velha, que fez fila para se assustar e gritar.

Enquanto isso, Dona Benta e Emília davam plantão no “Era uma vez…”, que transformou a Rua Mattos Pitombo num paraíso infantil, para o qual os moradores colaboraram abrindo espaço e estacionando seus carros longe de casa. Na “instalação”, quando não estava se divertindo com os personagens de Monteiro Lobato, os visitantes se distraíam lendo, desenhando, passeando…

Artes plásticas e histórias de pescador
Parece pouco? O que mais fazem as pessoas nas metrópoles? Vão ao teatro? A FLIM promoveu encenações como a do “Encontro marcado”, de Fernando Sabino. Vão a shows? Madalena teve dramatização de letras de Chico Buarque e apresentação musical de moradores talentosos em mais de um local. Vão a bares e restaurantes jogar conversa fora com os amigos? Pois a festa começou na noite de sexta-feira com os adultos contando “causos”, cada um buscando ser mais engraçado que o outro — e mais exagerado, como numa competição de mentiras de pescador. A dúvida era saber quem estava se divertindo mais: a plateia ou o contador.

Acha que não está de bom tamanho? Que tal barracas com artesanato típico, doces caseiros, com mais telas de artistas locais, ou com livros e revistas para trocar ou simplesmente pegar e levar para ler em casa? A FLIM teve tudo isso na Praça Frouthé — e o sucesso das tendas “Troca Troca” e “Livro Livre” foi tanto que não sobrou um gibi para contar a história…

Oficinas e brincadeiras
Em clubes e escolas, a todo momento aconteciam atividades e brincadeiras, tendo como foco desde o mundo digital e a produção de um documentário até a criação coletiva de histórias — com cada participante inventando um pedacinho e dando vez a outro — e jogos com palavras, ao estilo “logomania” — em que grupos formados por representantes de gerações variadas disputavam para ver qual dos dois achava mais vocábulos com as letras embaralhadas apresentadas a cada um. Teve até oficina exclusiva para marmanjos, em que educadores aprenderam técnicas de “contação de contos”, não sem antes participar de uma divertida e diferente “dança das cadeiras”, em que, a cada vez que a música era interrompida, saíam os assentos e as pessoas ficavam. Tente imaginar a bagunça que os professores fizeram…

Detalhe importante — especialmente para quem vive na cidade grande e ainda quer mais: tudo era aberto ao público, de graça!

Para os poucos “estrangeiros”, teve ainda a emoção de ver o deslumbramento das crianças, o interesse dos jovens, o orgulho dos adultos, a animação geral. Por todo canto, havia olhinhos brilhando, sorrisos nos rostos, algazarra e cochicheio de adolescentes, alegria de todos os tamanhos, do risinho tímido à gargalhada. Sem contar com aquela sensação de estar entre amigos, com todos se empenhando em fazer as coisas funcionarem e se ajudando, trocando cumprimentos e olhares cúmplices de satisfação.

Fonte: Opinião e Noticia

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