Liev Tolstói arregimentava multidões em torno de si e do que escrevia. Bastava espirrar em Iásnaia Poliana, a fazenda onde nasceu, viveu e só não morreu por pouco, para se preocuparem com o resfriado do gênio russo por toda a Europa. No século 19, ele era o equivalente a um rockstar. Ou, com aquela barba, seria um perfeito super-herói de desenho animado – o Capitão Caverna.

Tolstói tinha bandeiras pelas quais comprava brigas, era idolatrado, excêntrico e abraçou ideias estranhas nos últimos anos de vida – a mais notória foi a abstinência sexual completa, dentro e fora do casamento, durante a vida inteira, ponto de vista defendido na forma de ficção em Felicidade Conjugal e A Sonata a Kreutzer. Tivesse nascido um século e meio mais tarde, poderia quebrar quartos de hotel ou construir um parque de diversões para crianças. Talvez virasse um astro pop de nome LIEV ou um figurão da música eletrônica, DJ Tolstói. (Brincadeiras para dizer que Liev Nikolaievitch Tolstói era uma referência e muitos prestavam atenção no que fazia e dizia.)

Ele negou a propriedade, o governo, a igreja e a carne – em favor do vegetarianismo. Vários camponeses e intelectuais o seguiram. Quando o número de seguidores cresceu, o homem deu origem a uma doutrina, chamada tolstoísmo. Era o tolstoyan way of life. O governo russo o tolerava porque fazer qualquer coisa contra ele seria dar um tiro no próprio pé.
O autor de Guerra e Paz, Anna Kariênina e outras três obras-primas (regulando por baixo) era um pacifista, criticava a guerra e defendia a não violência, inspirando Mahatma Gandhi e Martin Luther King Jr. O primeiro chegou a se corresponder com o romancista.

John Lennon teria sido um belo tolstoiano – embora não parecesse particularmente interessado em abstinência sexual. Cinquenta e oito anos antes dos Beatles cantarem “All You Need Is Love” no disco Yellow Submarine, Tolstói já dizia que o amor era tudo de que você precisava.
Quando o escritor morreu, era 20 de novembro como hoje, mas cem anos atrás. Havia fugido de casa durante a noite porque não suportava mais brigar com a mulher, Sofia. Ele queria abrir mão dos direitos autorais de sua obra em nome do tolstoísmo.

Sofia se preocupava com os filhos e brigava com o marido porque tinha medo de ficar sem nada. Não entendia o desapego de Tolstói. Esse período pouco documentado inspirou o escritor Jay Parini e fazer um romance, mais tarde adaptado para o cinema. O livro (publicado no Brasil pela Record) e o filme (inexplicavelmente inédito no circuito comercial do país) se chamam A Última Estação.

Segundo Parini, Liev e Sofia tinham discussões barulhentas, com louças sendo arremessadas no chão e médicos irrompendo na sala para verificar batimentos cardíacos. O marido pôs um fim no drama familiar ao decidir ir embora da mansão onde moravam. Tinha 82 anos.Depois de algumas horas num trem, sentindo-se cansado, desceu na estação de Astapovo, de onde não sairia com vida. Sofia recebeu um telegrama e viajou para ver o marido acamado. De acordo com Parini, apesar de não se suportarem, os dois ainda se amavam muito. Ela recuperaria os direitos autorais quatro anos depois de enviuvar.

A intérprete
Não se deve subestimar o papel de Sofia na história toda. Ela participava ativamente do trabalho do marido, passando a limpo textos e até discutindo com ele certas passagens. Ninguém fora da família era capaz de entender a letra de Tolstói. Suas anotações eram como mensagens cifradas que Sofia decodificava para a humanidade. Ela copiou à mão as 1.200 páginas de Guerra e Paz seis vezes.

É uma referência um pouco infantil, mas existe um episódio do desenho animado Charlie Brown e Sua Turma (famoso pelo cachorro Snoopy) em que a professora dá a tarefa de ler Guerra e Paz durante as férias.

Durante o desenho inteiro, Charlie Brown carrega na mochila o colosso russo, pelo qual transitam 580 personagens. O livro era tão grande – e essa é a piada irresistível – que o personagem não conseguia evitar cair de costas, cedendo ao peso da mochila. Quando reclamou do número de páginas para o amigo Linus (o do cobertor), este, na mesma hora, disse que ele deveria se envergonhar. “Pense na mulher do autor, Charlie Brown, que teve de escrever à mão seis vezes o livro todo”. É um método diferente de incentivar a leitura do clássico sobre a insignificância do indivíduo na História: através da culpa.

Labuta dos críticos
A modalidade literária de Tolstói é o realismo, em que os literatos buscam reproduzir o mundo concreto da maneira mais fiel possível. Na prática, a maioria tenta enquanto Tolstói consegue. Ele e outros poucos.

Procure ler textos críticos a respeito do russo e os melhores não deixarão de mencionar que o mundo criado pelo escritor com tinta e papel é real a ponto de perturbar o leitor. Essa qualidade torna difícil o reconhecimento de um “estilo”. O crítico norte-americano Harold Bloom explica a situação como ninguém: “Tem-se, em Tolstói, a ilusão de que a natureza é quem escreve” e segue numa comparação com Shakespeare – o que, no caso de Bloom, é como compará-lo a Deus.

“O paradoxo, óbvio a todos os leitores, é que a arte clássica das narrativas de Tolstói e dos dramas shakespearianos só parece ser arte depois que nos recuperamos do impacto mimético e nos forçamos à prática analítica”, escreve Bloom num dos ensaios do livro Gênio (2002). Ele cita um “chavão da crítica” (chavão para ele), “de que Tolstói enxerga as coisas como se ninguém as houvesse visto antes, embora, ao mesmo tempo, revista de um sentido universal a estranheza daquilo que descreve”. É de Bloom a teoria de que Tolstói odiava Shakespeare (e ele o odiava, muito) simplesmente porque o dramaturgo inglês havia surgido antes.
Chega a ser divertido acompanhar a labuta de estudiosos para tentar explicar por que Tolstói é genial. Italo Calvino, o autor italiano de Cidades Invisíveis e Por Que Ler os Clássicos, afirma que o russo deixa a impressão de levar “a vida” para a página escrita (as aspas são de Calvino).

O escritor russo Máximo Górki (1868-1936), num encontro com operários, falou sobre o que chamava de “relevo prodigioso da representação”: “Quando se lê Tolstói, resulta – não estou exagerando, falo de impressões pessoais – uma sensação como que da existência física de suas personagens, a tal ponto a sua imagem é habilmente entalhada; ela parece estar diante de você, dá até vontade de tocá-la com o dedo”.

Falam, em suma, que o texto de Tolstói é do tipo que faz você esquecer que está lendo. Está certo, isso acontece em certos momentos, mas, verdade seja escrita, o leitor brasileiro tem direito de tropeçar nos sobrenomes russos que surgem pelo caminho. É impossível esquecer que se está lendo diante de um parágrafo curto como o da abertura de A Morte de Ivan Ilitch (2006), em que aparecem Ivan Iegoróvitch Chebek, Fiódor Vassílievitch, Ivan Iegórovitch e Piotr Ivânovitch, todos discutindo o caso Krassov num intervalo do julgamento da família Mielvínski.

Mas, lá pelo quarto romance russo, são grandes as chances de você estar mais familiarizado com os “vitchs” e “vinskis”. Lembre que os bons tradutores procuram sempre fazer a transliteração – tentam reproduzir a pronúncia do russo na grafia portuguesa. Daí o sobrenome de Anna Kariênina ter ganhado um “i” na tradução de Rubens Figueiredo para a Cosac Naify, em 2005, depois de décadas sendo chamada de “Karenina”, provavelmente por causa da versão em inglês.

Revelação
A força de Tolstói não reside na eficiência sobrenatural com que cria personagens e eventos. Seu talento é perturbador exatamente porque ele o usa para elaborar histórias em que os personagens experimentam situações extremas. Isso significa que, ao escrever sobre a morte de um ou o crime de outro, sobre o suicídio de uma ou a traição de outra, o realismo do que é narrado tem o impacto de uma revelação. Não é algo que se possa ilustrar com um pequeno fragmento de texto. É impossível estremecer diante do destino de Anna Kariênina sem conhecê-la. O livro foi inspirado num caso real, da amante de um vizinho de Tolstói. Trocada por outra, ela se matou debaixo de um trem, deixando um bilhete assustador para o ex-amante: “Você é meu assassino. Seja feliz, se um assassino puder ser feliz”. Seu nome, não por acaso, era Anna.

Como observa o crítico Samuel Titan Jr. no prefácio de Padre Sérgio, não bastasse ter alcançado o cume do romance histórico oitocentista graças ao épico Guerra e Paz, escrito entre 1863 e 69, o autor conquistou também o pico do romance familiar, na década seguinte (1873-77), com Anna Kariênina.

Um vazio íntimo
Depois de ler um Tolstói, dá para entender o que Harold Bloom quis dizer com “impacto mimético”. Tudo na história é tão real que dói.

Dói porque o autor não escreve para entoar as coisas boas da vida. Ele usa a literatura para sondar os problemas que via e os mal-estares que sentia. O tradutor e pesquisador Paulo Ronái argumenta que Anna Kariênina e Guerra e Paz têm “protagonistas incessantemente preocupados com o sentido da existência, atormentados por um vazio íntimo que desesperadamente procuravam encher: eram, precisamente, as personagens em quem o romancista mais pusera de si mesmo”.

Bloom afirmou, no início da década passada, que seu livro favorito de Tolstói era Khadji-Murát, uma obra-prima incompreendida e, por isso, subestimada. No Brasil, o professor e tradutor Boris Schnaiderman já defendia tese semelhante uma década antes do norte-americano. Senhor nonagenário, Schnaiderman fez um estudo valioso sobre a cultura russa, Os Escombros e o Mito, e é pioneiro nas traduções para o português feitas direto do russo.

Último trabalho de Tolstói e também o mais simbólico, Khadji-Murát (2009) tem 200 páginas. Para chegar a elas, Tolstói teria partido de uma versão com 2.166 páginas, segundo o crítico Vítor Schklóvski, sem contar o que perdeu pelo caminho ou o que terminou no lixo.

O velho russo desenvolvera uma aversão a tudo que era “literário” em seus textos. Buscava uma concisão que parecia não existir. Não queria contar uma história, queria escrever a verdade. Gostava de dizer que não fazia romances e, sim, documentos sobre questões pertinentes da época, fossem elas políticas ou sociais.

Olhando hoje, se engana quem pensa que máquinas do tempo não existem. Sozinho, Tolstói construiu pelo menos uma dúzia delas.

Irinêo Baptista Netto, na Gazeta do Povo

Liev Nikoláievich Tolstói morreu de pneumonia em Astapovo, no dia 20 de novembro de 1910.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments