Rosely Boschini*

A decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo de impedir a distribuição do conceituado livro “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século” a estudantes da rede pública de ensino cabe atenção, mas o momento anterior de levar aos tribunais a questão é motivo maior de reflexão devido à forma com que foi tratada a causa.

É preciso construir um debate mais amplo sobre essas contendas para não cairmos no lugar comum de exacerbada austeridade moral às letras e censura a obras literárias, principalmente aquelas já consagradas e conhecidas como referência do nosso idioma pela forma sublime com que usa palavras e expressões da Língua Portuguesa.

Os textos dos livros são repletos de traços de subjetividade que os avalizam como o melhor meio para desenvolver o conhecimento e a capacidade de reflexão. Não à toa é o maior instrumento de aprendizado de crianças e jovens.

Nesse campo, faz-se necessário que todas as variáveis literárias sejam apresentadas. Cabe nessa análise a inclusão de obras clássicas a contemporâneas, de cunho meramente pragmático e formal a relacionadas a temas mais complexos, como religião, comportamento e ética. Isso é inevitável e necessário para o desenvolvimento humano. A conduta puritana em torno de obras literárias não combina com o pensamento flexível necessário para viver em uma sociedade plural e democrática.

Portanto, torna-se importante que pais de alunos e educadores formem debate mais profundo do assunto – inclusive para busca de solução adequada para seu ambiente – antes de conduzir obras a questionamentos de cunho moral por meio de grupos pouco familiarizados com a pedagogia do ensino, como é o caso da obra tratada neste artigo.

Até porque muitos desses livros antes de serem adotados em escolas passam pelo crivo de sérias e competentes comissões de seleção de material didático, composta por um gama de profissionais alinhados à realidade e às necessidades do estudante brasileiro. Vale ressaltar que os mesmos estão sob a égide de importantes programas governamentais de inclusão socioeducacional.

Discutir livros e leituras é sadio e fundamental no processo da educação. A velocidade com que o mundo caminha faz com que frequentemente o próprio mercado se atente a revisar o seu conteúdo editorial tratado em obras literárias, para acompanhar as mudanças sociais e as novas condutas e atitudes estabelecidas pelo mundo moderno.

Na mesma linha, o setor editorial também presa pela manutenção da liberdade de expressão e o avanço no tratamento de temas que ampliem a observação apurada da atualidade, para que todos possam viver de forma mais harmoniosa nesse complexo mundo que nos cerca. A hipocrisia na definição de livros que possam ser lidos pelas crianças e jovens do país é o pior remédio para combater a desarmonia entre as pessoas.

*A autora é presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL).

Fonte: DCI

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