ARIADNE ARAÚJO
colaboração para a Livraria da Folha


Divulgação
Colunista da revista "VIP" expõe intimidades sexuais
Colunista da revista “VIP” expõe intimidades sexuais em livro
Descasada, solitária e na maior seca de sexo, de amor também, ela caiu de boca na vida. Numa versão brasileira de “Sex and the City”, a jornalista Kika Salvi narra, sem papas na língua, suas aventuras e desventuras em um mundo machista e duro com mulheres que ainda não aprenderam a dizer um sonoro e redondo “não”. À maneira Bridget Jones, ela se desnuda em seu diário – o corpo e a alma.
O título primeiro que lhe veio à mente era “Vomitando sapos”. Mas, pensando bem, a moça decidiu chamar seu livro-diário-íntimo de“Kika, a Estranha: aventuras e desventuras de uma colunista de sexo descasada” (Geração). Já no prefácio, ela avisa, “vou incomodar com as coisas que eu escrevo”. Para contar sua história, ela dá nome aos bois, faz sua catarse pessoal e, doa a quem doer, diz tudo o que ela sempre quis dizer e nunca teve coragem.
A descida aos infernos de Kika Salvi começou com um divórcio que lhe deixou economicamente falida e com a certeza de que era frígida. Um vibrador alemão, tamanho standard mas de boa pilha, salvou-lhe a pátria – afinal, a “esquisita” estava em boa forma. Seu brinquedo alemão foi o amante secreto por meses – em todas as posições, Kika fazia-lhe sempre, e mais, pedidos sacanas, desfiava com ele seu rosário de impropérios.
Pensando assim, a moça visitou a Disneylândia de muitos candidatos a amor. Se essas experiências lhe trouxeram lágrimas, trouxeram também ensinamentos: “Quanto mais independente é a mulher, mas ela gosta de se submeter ao seu amado na cama”, declarou. Depois de muitos desatinos e uma depressão, final feliz para a “alma perdida”. O amor de sua vida apareceu, afinal. Por ele, ela largou a gandaia, o antidepressivo, o antipsicótico e entrou nos trilhos, finalmente. Do seu retrato no livro, ela diz: esta sou eu, para o bem e pra o mal”.Funcionou por um tempo, mas Kika queria mesmo era um homem em todos os sentidos. “Daí senti saudades de amar”. E isso significa não somente tórridas noites de sexo, mas de cafuné, de rirem juntos, de ser apertada com vigor e paixão. No livro, ela conta sua busca, seu delírio, suas tentativas frustradas e frustrantes. Aos leitores de suas crônicas sobre sexo na revista “VIP”, ela confessa que “nada supera a maravilhosa pegada masculina”.
Eu quero um homem rústico
Às vezes a realidade é melhor que a fantasia, mas não é inofensiva
Não leve muito a sério o que diz uma mulher. Pense sempre que a convicção feminina oscila com o ciclo menstrual. Já declarei milhões de vezes minha falta de talento (e de apetência, o que é pior) para sexo casual. Sobretudo com estranhos. E acho que poucas possibilidades me deixam tão aterrorizada quanto a de abrir fronteiras para invasores desconhecidos.
Mas daí veio a ovulação. E com ela a lua cheia. Adeus, convicções. Não bastasse o alerta vermelho diante da iminente derrocada de princípios, estava no Rio de Janeiro. Nem precisava dizer que tudo incitava ao pecado. O sol e a exuberância da paisagem (geográfica e humana) da cidade conspiravam a favor do erotismo, tudo vibrante e encantador. De alvoroçar meus poros paulistanos.
Estava sozinha, o que me impelia mais ainda ao despudor. E mesmo com o coração carregando uma presença latejante, a solteirice e a volúpia trataram de abafar a pulsação apaixonada. Estava livre, leve e solta na brisa carioca.
Então fui ao cinema. Nada até então tinha sido tão tocante quanto aquele Cidade de Deus. Fiquei aturdida com a beleza e a honestidade do filme, e também acometida pelo desejo indecoroso de ser subjugada por um traficante-do-bem igual ao Bené, ou tão boa-alma quanto ele. Se não fosse pedir muito, um pouco mais alto, mais velho e mais bonito. A perfeição da saturação melanínica.
A sensação do filme se impregnou no pensamento. Por onde andava, procurava um Bené. Quanto mais tórrido o ar ficava, mais me embrenhava na fantasia do homem rústico. Então, num domingo ensolarado e causticante, quis conhecer Santa Teresa. Fui de Ipanema até o centro e de lá para o bondinho, que era velho, mas subia com vigor.
Já na estação, vi a promessa de realizar meus devaneios. Não era um Bené, era mil vezes melhor. Mais alto, mais velho, mais portentoso do que ele e também muito mais bonito. Não tinha cara de traficante, é verdade, mas desejei que fosse rústico. Sentei-me perto dele e comecei a observá-lo. Tinha várias bolsas ao redor e fazia anotações (o que o eximia da rusticidade pretendida, já que nenhum tosco anota algo por prazer). Me ofereci a ajudá-lo com as bolsas – e existe abordagem melhor do que a cordialidade?
O bonde ia subindo e com ele a lascívia. Fomos conversando como manda o figurino: de onde eu era (via-se pela brancura que não era carioca), onde me hospedei, o que fazia da vida, mas tudo o que eu dizia saía no automático, porque no pensamento ressoavam: “Hummmmm, que delícia”, “Nooooossa, que coxas”, “Pode vir quente que eu já estou fervendo” e outros puritanismos semelhantes.
Antes que atingíssemos o pico (do morro), ele saltou. Mas já bem antes disso a fantasia tinha sido arrasada pela realidade ofuscante: ele era jornalista, tinha uma obra invejável, projetos pioneiros em música e literatura e uma capacidade de articulação infinitamente maior que a minha. Não era traficante, não morava em nenhum morro e conhecia os meus chefes.
Atributos demais para quem só precisava ser o Bené. Muito mais encantadores, é verdade, mas por isso mesmo perigosos. Porque os rompantes de volúpia são inofensivos quando frívolos. Mas assustadores quando vêm acompanhados de afinidade em demasia. Afinal, só o que eu queria era ser pregada na parede.
Autor: Kika Salvi
Editora: Geração
Páginas: 260
Quanto: R$ 12,90 (preço promocional, por tempo limitado)
Onde comprar: 0800-140090 ou na Livraria da Folha

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