Pode soar bastante estranho para as várias gerações que cresceram lendo “O apanhador no campo de centeio“, de 1951, mas Holden Caulfield envelheceu. E, por ter envelhecido, foi responsável por uma dor de cabeça imensa para seu criador, o americano J.D. Salinger. A versão idosa de Holden, de 76 anos, foi criada pelo autor sueco Fredrik Colting, que lançou o romance “60 anos depois – Do outro lado do campo de centeio” em 2009, imaginando o que teria ocorrido com aquele adolescente rebelde e desbocado que desprezava características da vida adulta. Mas a iniciativa, que poderia ser vista por muitos como homenagem, foi encarada por Salinger como desrespeito e rendeu um processo contra Colting, proibindo a venda da obra nos Estados Unidos. Estava instaurada a polêmica.
 



Fredrik Colting
Foto: divulgação



Por conta disso, “Do outro lado do campo de centeio“, que chega ao Brasil este mês, pela editora Verus, ficou mais conhecido por conta da briga judicial e tudo o que a cercava do que por sua trama. Antes de se meter na confusão com Salinger, Colting era apenas o proprietário de uma pequena editora de livros na Suécia, sobretudo de obras de conteúdo pop. Ele próprio já tinha algumas publicações no currículo, como “The pornstar name book: the dirtiest names on the planet” (“O livro de nomes das estrelas pornô: os nomes mais sujos do planeta”), “The macho man’s drink book: because nude girls and alcohol go great together” (“O guia de bebidas para machos: porque garotas nuas e álcool combinam perfeitamente”) e “The pet cookbook: have your best friend for dinner” (“O guia culinário dos animais de estimação: leve seu melhor amigo para jantar”). Nada contra tão criativas obras, mas realmente parecia difícil acreditar que o autor sueco fosse a pessoa certa para encarar Holden Caulfield.
Salinger não acreditou. Quando o livro foi lançado nos EUA, no fim do primeiro semestre de 2009, seus advogados logo entraram na Justiça , pedindo que ele fosse recolhido das prateleiras.
– Quando aconteceu, não foi muito surpreendente, porque eu sei que as pessoas processam as outras o tempo todo nos EUA. Na Suécia é bem diferente. Eu não conheço pessoa alguma que já tenha aberto um único processo judicial – disse Colting em entrevista ao GLOBO. – Acho que é uma forma de censura. Meu livro não fez nada para prejudicar “O apanhador…”. Pelo contrário, ele fez suas vendas aumentarem. Se eu tivesse escrito uma continuação direta para o livro, aí sim eu mereceria um processo. Mas meu romance se passa 60 anos depois da história, com o personagem principal no mundo atual, encontrando seu criador pela última vez. A única relação com “O apanhador…” é em sua moldura.
No livro de Colting, Holden foge do asilo em que estava internado e sai em viagem pelos Estados Unidos até se encontrar com o próprio Salinger, transformado em personagem. Na versão, o autor americano – morto em janeiro de 2010, aos 91 anos – é um sujeito inseguro que tenta matar Holden, como forma de reassumir o controle de sua vida.
– Embora eu tenha lido “O apanhador no campo de centeio” duas vezes, a primeira quando eu tinha 15 anos e a outra recentemente, para escrever meu livro, eu realmente não sei muito sobre Salinger ou seu romance. Não sou especialista em nenhum dos dois. Meu livro não é sobre “O apanhador…”, é sobre a relação entre personagem e criador – diz Colting. – Não o vejo como uma continuação, mas como uma nova jornada, como muitas outras que se originaram da obra de Salinger. Eu a escrevi porque me fascinou o pensamento sobre o que teria acontecido com um personagem anos depois.
Uma das alegações do processo judicial por violação de direitos autorais movido contra Colting, porém, era justamente a semelhança entre as duas histórias. A ação de 20 páginas, datada de 1 de junho de 2009, lembra o quão Salinger era cuidadoso com sua obra e compara os livros: “A continuação começa, assim como ‘O apanhador…’, com a partida de Holden Caulfield de uma instituição e termina com Holden e sua irmã Phoebe num carrossel do Central Park.”
Um mês depois, em julho, um juiz de Nova York decidiu banir “Do outro lado do campo de centeio” dos Estados Unidos. A obra, porém, permanece nas livrarias de países como Inglaterra, Turquia, Coreia do Sul e agora o Brasil – o que dá um bom exemplo da universalidade de “O apanhador…”. Antes, Colting usava o pseudônimo John David California (o J.D., como o de Jerome David Salinger, não é mera coincidência), mas a notoriedade do caso fez com que ele assumisse a publicação em seu próprio nome.
 
– Eu tinha escolhido um pseudônimo porque também trabalho no mercado editorial, basicamente com livros de humor, então não queria confundir as coisas – explica Colting, refutando a ideia de que seu livro acabou beneficiado pela ação judicial. – Se Salinger não tivesse me processado, eu tenho certeza de que meu livro encontraria outros caminhos para alcançar as pessoas. Mas não acho que é importante ficar famoso ou ser bem-sucedido. Estamos falando de um livro, nada mais.
O problema, e talvez Colting tenha demorado a perceber, é que “O apanhador no campo de centeio” está longe de ser um mero livro para seus incontáveis fãs pelo mundo.

Fonte: O Globo

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