De Máquina de Escrever, Via G1

Em 1935, o Komintern despachou para o Brasil um grupo de homens e mulheres com uma missão: derrubar o Governo de Getúlio Vargas e instaurar o comunismo no país. A força-tarefa incluía Luis Carlos Prestes, que então vivia em Moscou, e Olga Benário, responsável por sua segurança, além de agentes italianos, argentinos e russos. Incluía também um terrorista alemão, Johnny de Graaf e sua falsa esposa, Helena Krüger, designada motorista de Prestes. O resultado é bem conhecido: o levante fracassou, e seus protagonistas acabaram exilados, presos (como Prestes) ou mortos (como Olga, entregue pelo Governo Vargas aos nazistas).

A história da Intentona Comunista, seus dramas e tragédias pessoais, e da ação dos agentes secretos de esquerda no Brasil já foi bastante estudada, resultando em livros como Olga, de Fernando Moraes, e Camaradas, de William Waack. Mas ainda havia muito a descobrir, como mostra o historiador americano R.S.Rose em Johnny – A vida do espião que delatou a rebelião comunista de 1935, escrito em parceria com Gordon D.Scott, recém-lançado pela Editora record. Rose demonstra que Johnny era na verdade um agente duplo, que trabalhava para o Serviço Secreto Inglês, o M16, ao mesmo tempo em que treinava brasileiros para a revolta. Mas revela, também, que Prestes não estava nem de perto preparado para conduzir uma revolução vitoriosa, nem como comandante militar nem como analista político.

A participação decisiva de Johnny no fracasso da Intentona Comunista é apenas um dos capítulos do livro de Rose. O espião também participou de missões na Inglaterra, na Argentina e na China, entre outros países, numa sequência de aventuras, traições, assassinatos e intrigas digna dos filmes de 007 ou dos romances de John Le Carré. Nesta entrevista, R.S.Rose, também autor de Uma das coisas esquecidas (sobre o brutal aparelho repressivo montado pelo Governo Vargas), fala sobre a sua pesquisa e a incrível trajetória de Johnny de Graaf. O livro será lançado no dia 6 de dezembro, na Livraria Da Conde, no Leblon, no Rio de Janeiro,  a partir das 19h. [matéria publicada originalmente no caderno ‘Prosa & Verso’, do jornal O GLOBO]

– Como surgiu seu interesse pela vida do espião Johnny de Graaf e como foi feita a pesquisa que resultou no livro?

R.S.ROSE: Fiquei interessado em Johnny de Graaf após a leitura do livro Olga de Fernando Moraes. Minha pesquisa sobre De Graaf durou 14 anos. Visitei o Brasil, Argentina, Estados Unidos , Canadá, Alemanha, Polônia, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Bélgica, Holanda, Inglaterra, Escócia e Rússia. Os mais importantes arquivos e informações estão no FBI em Washington, no Serviço de Inteligência Canadense em Ottawa, nos Arquivos do Comintern em Moscou, no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (DOPS), e em vários arquivos na Alemanha.

– Fale sobre a juventude de Johnny de Graaf: por que ele se tornou um anticomunista convicto e como ele se tornou um espião?

ROSE: Johnny amava seu pai, mas detestava sua mãe. Ela era uma mulher que usava os filhos para tentar arrancar dinheiro de parentes, fingindo que eram muito pobres. Mas o ponto crítico foi quando Johnny, ainda jovem, descobriu que sua mãe trabalhava como prostituta, ocasionalmente. Sua família era da classe trabalhadora. Eles viviam na pobreza e ele de início viu o socialismo como uma saída. O primeiro contato com o pensamento de esquerda aconteceu na escola primária. O imperialismo alemão antes da Primeira Guerra o levou ainda mais para a esquerda. Por estar envolvido na morte do ativista nazista Horst Wessel, em 1930, e por suas outras atividades políticas, o KPD (Partido Comunista Alemão) queria tirá-lo da Alemanha. Nesse momento, os soviéticos lhe ofereceram educação universitária em Moscou. Ele aceitou e foi para a capital mundial do socialismo, mas, depois de três meses, chegou à conclusão que o comunismo soviético era terrível. Então, ele quis sair da URSS, mas não era uma questão fácil. Assim, Johnny decidiu estudar a fabricação de bombas e terrorismo; dois temas que fariam seus superiores soviéticos querem tirá-lo do país. E aconteceu. Uma vez no exterior, ele começou a pensar qual embaixada ou consulado de que país deveria abordar. Os americanos recusaram, e sua segunda tentativa, em 1933, foi a Embaixada inglesa, em Berlim. Os ingleses o transformaram então em um agente duplo.

– Qual foi o papel de Graaf em outros episódios, por exemplo, na China?

ROSE: Johnny afirmou ter tido o papel de provocar o início da Longa Marcha na China. Mais tarde ele também fez uma série de coisas na Argentina, que incluíram matar pessoalmente um membro da família real inglesa que era um espião nazista, além de assassinar Helena Krüger [que foi motorista de Prestes e “esposa” de Johnny em sua missão brasileira] e entregar líderes do Partido Comunista Argentino à polícia. Ainda assim, ele conseguiu convencer um de seus companheiros no Brasil, Amleto Locatelli, de que ele, Johnny, era inocente de qualquer cumplicidade no fracasso da Intentona Comunista.

– Johnny de Graaf sai de seu livro como um herói ou um vilão? Por quê?

ROSE: Para os que quiserem, um vilão, por tudo que Johnny fez contra os comunistas desde que começou a trabalhar para o MI6: o canalha está lá. Para os que estiverem atrás de um herói, por seu longo e profundo ódio aos nazistas, chegando a ponto de ameaçar matar o próprio irmão por sua adesão ao Partido Nazista, o herói está lá também.

– Que impressão Luis Carlos Prestes causou em Johnny? E que impressão Johnny causou nos comunistas brasileiros?

ROSE: Quando Johnny e Luis Carlos Prestes se encontraram pela primeira vez, ainda em Moscou, Johnny pensou que Prestes era confiante demais, principalmente quando ele afirmou que 90% dos trabalhos para iniciar uma revolução já haviam sido feitos. Johnny se deu bem com todos, exceto com Prestes e Arthur Ewert, também conhecido como Harry Berger. Mas, na verdade, Ewert e Johnny já eram inimigos muito antes de 1935.

– Sem a atuação De Graaf, o que teria acontecido de diferente com Prestes e a rebelião comunista de 1935?

ROSE: Essa é um questão impossível de responder. É meu palpite, no entanto, que as coisas poderiam muito bem ter sido diferentes se Johnny e Helena não tivessem feito parte da equipe designada por Moscou para vir para o Brasil.

– Graaf adotou 69 identidades diferentes, mas como era a sua personalidade verdadeira? Qual era o seu perfil psicológico, quais as suas motivações? Qual era a sua relação com os judeus? E com as mulheres? Ele era um homem vingativo?

ROSE: Johnny era um homem de um outro tempo, de uma época em que a palavra pessoal era um contrato. Ele detestava mentirosos e pessoas que abusavam, na sua opinião, de pessoas honestas da classe trabalhadora. Como um homem pobre depois da Primeira Guerra, ele sentia que um judeu ou alguns judeus o haviam enganado. A partir desse momento, ele se tornou desconfiado de indivíduos daquela religião. Com as mulheres, Johnny não teve nenhum problema. Ele foi casado duas vezes, e Gertrude Krüger [irmã de Helena, que Johnny assassinou] foi o amor da sua vida. Certamente ele era vingativo, se alguém o traísse. Veja o que ele fez a Arthur Ewert [em função da delação de Johnny, Ewert foi preso e barbaramente torturado: depois de 13 anos na prisão, voltou para a Alemanha em 1946, passando o resto da vida num hospital psiquiátrico].

– Em que momento a vida de Graaf correu mais perigo?

ROSE: O regresso a Moscou, durante os expurgos stalinistas, pode ser classificado como o momento mais perigoso em sua vida. Valentine Vivian e Frank Foley ,do Serviço Secreto Inglês, o M I6, o avisaram para não voltar, mas Johnny rejeitou o aviso. Ele sentiu que, se não voltasse, os soviéticos iriam rastreá-lo. Da mesma forma, em 1939, a descoberta de Johnny do couraçado alemão Graf Spee e o relatório dele para Londres provocou os nazistas no Brasil a “comprarem sua prisão.” Ele chegou quase a morrer na Fortaleza de Santa Cruz. Dutra ordenou sua prisão. Filinto Müller encarregou seus homens de cuidar disso, então ele, Filinto, mentiu para Johnny dizendo que estava fora do país em férias e não sabia de nada sobre isso.

Luciano Trigo é escritor, jornalista, tradutor e editor de livros. E pai da Valentina. Autor de “O viajante imóvel”, sobre Machado de Assis, “Engenho e memória”, sobre José Lins do Rego, e meia dúzia de outros livros, entre eles infantis. Foi editor dos suplementos “Idéias”, no Jornal do Brasil, e “Prosa & Verso”, no Globo, e colaborador de diversos jornais. Editou também as revistas “Leia Livros” e “Poesia Sempre”. Foi editor da Nova Fronteira e da Odisséia Editorial.

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