GILBERTO DIMENSTEIN

NA NOITE DE SÁBADO PASSADO, ventava e caía garoa nas dezenas de crianças espremidas numa viela íngreme e tortuosa de um bairro da periferia de São Paulo (Jardim Ibirapuera), transformada provisoriamente em sala de cinema. Nenhuma delas saía do lugar. Estavam atentas ao filme “O Garoto”, mudo e em branco e preto, de Charles Chaplin.
Entre as cenas, quem dava dicas sobre o filme (tinha legendas em inglês) era o apresentador de TV Marcelo Tas, que fora atraído para aquela viela por um personagem que daria um roteiro ainda mais interessante do que o que se via na tela: um ex-traficante, Anderson Agostinho (apelidado Buiú), de 29 anos, que se apaixonou por livros. “Vi que também podia fazer com que as crianças gostassem de ler”, conta Buiú.
Resolveu, então, fazer misturas sedutoras. Uma delas foi a criação de um campeonato de futebol em que, para participar, os garotos têm de fazer parte de uma roda de leitura. Outra foi a leitura que antecede um filme, com direito a pipoca e refrigerante.
A tela fica na viela, em cima da casa de Buiú, até pouco tempo só conhecido por causar medo.

Ele seguiu uma trajetória infelizmente comum: deixou a escola, abusou das drogas, viciou-se e, para bancar o vício, virou assaltante e traficante. “Eu tinha poder de liderança.” Mas, vendo os amigos serem presos ou mortos, começou a pensar que iria seguir o mesmo caminho. “O que me incomodava mesmo era o sofrimento da minha mãe”, diz, apontando para sua mãe, uma das espectadoras, naquela noite de sábado, do filme de Chaplin.
Como gostava de grafitar, Buiú meteu-se num programa de artes plásticas na região do Jardim Ângela, na zona sul. Passou a ter contato com arte-educadores. “Tive, então, a ideia de fazer alguma coisa na minha viela.”
Testou a leitura. Primeiro, criou o campeonato de futebol com roda de leitura. Professores da região não só estimularam a ideia como quiseram contribuir na organização dos encontros. Com a aceitação, ele resolveu fazer, uma vez por mês, o cinema. Antes de cada sessão, alguém lê um trecho de algum livro.

Buiú voltou a frequentar o ensino fundamental. E quer ir mais longe. Descobriu uma pequena casa, no fim da sua viela, que poderia ser usada como biblioteca. “Virou meu sonho.” Imagina que, com aquela casa, as crianças e adolescentes vão ficar menos nas ruas e mais metidos nos livros. Está percorrendo várias associações do entorno, entre as quais a Casa do Zezinho, da pedagoga Dagmar Garroux, para ver se o projeto da biblioteca sai do papel.
Uma das ideias é criar uma espécie de “viela-livro”. Em todos os muros da rua, seriam copiados trechos de romances, contos ou poesias -o final daria na sonhada biblioteca. “Dá para encher este lugar aqui de poesia.”

Enquanto a biblioteca ainda permanece no plano da ficção, o projeto como um todo já está atraindo uma série de pessoas -Marcelo Tas é uma delas- dispostas a fazer deste Natal um mutirão para coleta de livros para a viela.

fonte: Folha de S.Paulo

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