“Seu” Clement, um francês que mais tarde se me tornou grande amigo, de quem se fala mais amplamente em outro capítulo, emprestava-me livros da série “Carot d’Estranges”, sobre a Revolução Francesa e outros, de Júlio Verne.

Mas, de todos quantos li, na infância, nenhum deles me influenciou tanto o espírito como “Os miseráveis”, que um vizinho, o barqueiro Cêncio (Vicente Romano), emprestou-me. Jean Valjean, seu protagonista, tornou-se uma figura digna de respeito e admiração, bem como o santo Bispo Muriel e os jovens revolucionários Enjolras, Grantaire, e o pequeno Gavroche. Passei a amar o grande Victor Hugo, pode dizer-se, desde criança, devido ao seu aspecto humano e poder descritivo. E essa predileção jamais se extinguiu pelo resto da vida.

Alem dessas leituras, todos os meses, retirava quinhentos réis do meu magro ordenado para adquirir uns livrinhos que continham resumos de óperas, de obras da literatura mundial, de história, geografia, biografias, com o que adquiri o gosto, ou o vício, da leitura. A seguir, passei a cultuar Dickens, Dumas, Balzac, Stendhal, Alencar, Zola e Lima Barreto.

Era hábito, àquele tempo, as famílias reunirem-se, à noite para leitura de romances, principalmente os de folhetins. Obras de Michel Zevaco, como “A ponte dos suspiros”, de ambiente veneziano, Fausta, Pardaillan, de capa e espada, faziam furor. O mesmo acontecia com os volumosos romances de Emílio Richebourg, Eugênio Sue e Ponson du Terrail. “Os mistérios de Paris”, do segundo, e os dramalhões, “A filha maldita” e “A entregadora de pão” eram os “best sellers” da época. Emílio Gaboriau, o pioneiro do romance policial, foi outro ídolo. Várias vezes figurei como ledor, nessas reuniões. Quase todos esses livros eram editados pela velha Casa Sonzogno, de Milão, em italiano, idioma comum dos ouvintes. Com isso, apurava meus conhecimentos dessa língua.

Jacob Penteado, em Belènzinho, 1910: retrato de um época (Carrenho Editorial / Narrativa Um)

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