IVAN LESSA
Tito Madi deveria ter escrito é que “o dia está tão frio, neva lá fora”. Mais adiante, alguns flocos em seu coração. Talvez um tombo na rua. Nisso que dá esse tempo.

Fico zanzando em casa. Há um limite para se postar diante da televisão e deixar aquilo tudo ficar passando.

Televisão é um passado que nada tem a nos dizer e, além do mais, aqui, em terras estrangeiras, fala outra língua que não a nossa.

A gata já não me aguenta mais. Depois desses anos todos, teria toda razão em olhar feio para mim, fazer aquele “hissss” assustador dos gatos e depois me dar uma boa unhada.

Nisso que dá pegar gripe, ficar semi-acamado. E olha que esse “semi” já beira a liberdade poética.

Vou à cozinha, abro uma lata de creme de tomate, esquento (nunca no microondas) no fogão, mexendo constantemente conforme recomendam as instruções na lata, espalho uns pedacinhos de queijo cheddar para dar uma incrementada. Tomo sentado na mesa da cozinha com uns biscoitos Cream Cracker.

Com uma parte do jornal dobrada diante de mim dentro dos moldes recomendados pela arte do origami. Fosse tablóide, não teria problema. Tomo conhecimento do que é publicável, ou inteligível pelos senhores jornalistas editores, da mais recente leva de vazamentos da WikiLeaks.

Lá estamos nós. Numa extensa matéria publicada no “The Guardian”. Gozado. Nos sítios brasileiros de jornais vi pouquíssimo ou nada. Muita celebração, isso sim, por uma conquista importante do Fluminense, aquele que, nos meus tempos, chamávamos de “Pó de Arroz”.

Meus tempos. Na sala, depois da manga colombiana de sobremesa, passo ligeiramente –tal como deve sempre ser feito: ligeiro e por cima– pelo que, agora, ironicamente (a ironia é uma conquista da idade), chamo de “meus tempos”. Ou o que dele sobrou.

Lembranças, memórias, prestações de eletrodomésticos a pagar. Tudo vago.

Ficar escarafunchando a cabeça não adianta, nem é recomendável ou confiável. Coisa demais. Ainda por cima com saúde avariada. Eu estaria, estou certo, vazando errado.

Olho, então, em torno, que da janela já estou farto. Sim, lençol de neve, tudo branco, parece algodão, que beleza, que chato, que perigo: os chavões me prendem entre seus braços fortes numa gravata mortífera nesta antiga luta-livre que travamos há anos.

Passo os olhos pelas três paredes cobertas de estantes de livros. Encimam compartimentos onde ficaram todos os meus LPs, todo meu vinil, e até mesmo a meia-dúzia dos bolachões de 78 rpm de goma-laca que, não me lembro direito porquê, acabei não passando para um cassete.

Uma vida às voltas com música popular. Cantada, em geral. Americana e brasileira. Sempre digo que sou fundador e membro único do Dead Singers Society.

Mandaram-se todos mas deixaram a voz, as canções. Ainda, para ficar na quinta fila do cinema, eu, feito aquele garoto do filme do Bruce Willis, hear dead people.

Tenho em CD quase tudo que me interessa. Mas CD não vale. E as capas? As contracapas? O cheiro dos danados?

Vez por outra, separo uma leva, como o Julian Assange separa seus WikiLeaks, deixo vazar com um bom banho neles de detergente, escovo, penteio os cabelos, boto terninho, gumex no cabelo e taco no prato do aparelho de som. Ah, chiados de minha vida! Ó, estalos que me acompanharam mocidade e aquilo que eu, em minha bestice de garotão, confundia com
esplendor!

Como os LPs, guardados em ordem que só eu entendo, em armários escancarados, suportam o peso da livrarada em cima, cismo e divago, como em algum samba-canção esquecido.

Enquanto ouço –e dou um exemplo veraz– Lúcio Alves acompanhado apenas de seu violão cantando Arranha-Céu, do Orestes Barbosa, passo os olhos, quase distraído pela biblioteca (é, o termo é forte) e ocorrem-me aquelas linhas do imenso Borges, que foi também Jorge Luis.
Pois ficar só em casa e doente acaba levando sempre a um tombo poético.

Escreveu Borges, em seu poema Limites, as seguintes linhas, que agora não me saem da cabeça, como um acorde caprichado e uma sétima diminuída do Lúcio:

“…Entre los libros de mi biblioteca (estoy viéndolos)
Hay alguno que ya nunca abriré…”

Substituo, para ficar no momento, libros por “faixas de discos” e abriré por “ouvirei” –e vou– já que ainda estou nesta vida, continuar passando mal.

Fonte: Folha de S. Paulo

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