Dois jornalistas da Gazeta do Povo que acompanham o mercado editorial organizaram listas pessoais dos melhores livros de 2010 tentando fugir da retrospectiva comum – aquela que destaca as obras que já foram muito faladas ao longo do ano. A ideia aqui é indicar títulos de ficção e não-ficção, escritos por autores brasileiros, que não receberam atenção suficiente. São livraços que valem ser lidos, relidos e guardados para consultas futuras. Se você não ficou sabendo deles quando saíram, tem agora uma segunda chance. A soma das listas dá dois romances, um livro de contos, outro de ensaios, um de poesia e três reedições (também romances).

Modos de encarar a vida

Os ensaios de Luiz Felipe Pondé e os versos de Fabrício Corsaletti foram duas das melhores coisas que aconteceram no meu ano de leitor. Quando surgiu o plano de escrever sobre os melhores livros brasileiros de 2010 de um ponto de vista mais pessoal, percebi que os deles ainda estavam comigo mesmo tendo lido um há semanas e o outro, há meses. Literalmente comigo.

Luiz Felipe Pondé escreve ensaios filosóficos sobre o valor das coisas num mundo à deriva

Mantenho ao alcance da mão Contra um Mundo Melhor, de Pondé, e Esquimó, de Corsaletti. Carrego comigo um deles, às vezes os dois, quase o tempo inteiro. Indico para amigos, copio trechos e mando por e-mail, mostro, empresto e dou de presente, quando é o caso. E faço isso porque os dois são atuais, falam de pensamentos e sensações presentes, e, em vez de se esgotarem em uma, duas ou várias leituras, ganham cada vez mais nuances e significados.

Os ensaios filosóficos de Pondé em Contra um Mundo Melhor (Leya) podem parecer pessimistas numa leitura apressada. Na verdade, ele procura sondar o valor das coisas – e o modo como as pessoas valorizam certas coisas. O seu ponto de vista é o de um “trágico” e, embora não seja religioso, é capaz de citar as Escrituras com propriedade, amarrá-las a conceitos filosóficos e entregar, no pacote, uma maneira extraordinária de encarar a vida.

Argumentando por que desconfia do discurso da “saúde total” que prega a preocupação com alimentos, meio ambiente, etc., Pondé escreve: “Algo se perde nessa dança miserável. O que se perde é o fato de que a vida é desperdício em si mesma. Sua grandeza está em perdê-la, como dizia a sabedoria do Evangelho, e isso não mudou”.

Corsaletti também mostra outros jeitos de ver e de viver (sei que essa frase soa meio “autoajuda”, mas não foi essa a intenção). Seus versos têm um poder persuasivo e são capazes de converter para a poesia quem não se interessa muito por ela. Com uma capacidade impressionante de usar palavras simples para iluminar sentimentos complexos – o desejo e a culpa são dois deles –, Corsaletti faz o leitor prestar atenção naquilo que ignorava.

Os poemas de Esquimó (Companhia das Letras) falam de amores possíveis e impossíveis, de rabanetes e orelhas – que podem servir de metáforas para a poesia e para o indivíduo em relação a si mesmo: “como sou feliz/ com as minhas orelhas// saber que depois de tudo// elas não me abandonaram/ não me maltrataram/ não me julgaram mal// pelo contrário/ me esperaram esse tempo todo/ de braços abertos/ e nunca botaram outro malandro/ no meu lugar// como sou feliz/ com as minhas orelhas”.

Uma narrativa

Li poucos romances brasileiros e Ribamar, de José Castello, marcou por ser um duelo do autor com o que sente pelo pai e pela literatura, representada por Kafka e sua Carta ao Pai. É um embate difícil de momentos antológicos.

(Irinêo Baptista Netto)

Viagem para o inconsciente

Entre os 48 livros de ficção brasileira que li para resenhar na Gazeta do Povo durante 2010, o mais arrebatador foi Perácio (Leya), de Bráulio Mantovani. Esse compromisso, que tem por finalidade render uma resenha todo domingo, traz algumas vantagens. Apesar do prazo, curto demais, e da necessidade de criar uma tese para conduzir o texto, o desafio ajuda a ter uma noção do que é produzido pelos ficcionistas brasileiros.

Perácio é o melhor romance brasileiro de 2010 pelo fato de o autor ter elaborado um enredo o mais inesperado possível. Nenhum outro escritor do Brasil ousou tanto em tempos recentes – Mantovani dialoga com Manoel Carlos Karam (1947-2007), que teve os seus primeiros livros, Fontes Murmurantes, O Impostor no Baile de Máscaras e Cebola, reeditados pela Kafka Edições (outro acerto literário do ano passado).

Mas o, até então, roteirista de filmes como Cidade de Deus e Tropa de Elite 1 e 2 fez algo inédito: reelaborou literariamente o que acontece quando temos pesadelos. O personagem que dá nome ao livro está, ou esteve, recluso em uma instituição psiquiátrica. O que aconteceu com ele é relatado, ao narrador e ao leitor, por meio de um outro personagem, o CFD.

O livro é dividido em dois fragmentos, que se alternam. Em um primeiro momento, o narrador, Bráulio Mantoan (quase o mesmo sobrenome do autor), explica como conheceu o personagem misterioso. O outro bloco narrativo traz aquilo que seria o relato de CFD – a porta de entrada no universo de Perácio.

O protagonista do romance passou por experiências que o traumatizaram. Ele foi encaminhando para uma cidade chamada Palankland, com a missão de retirar as madeiras dos caixões do cemitério para construir palanques a céu aberto. Tudo seguia “bem” até que ele se apaixonou por uma mulher, e então “a casa caiu”.

O texto do romance é rápido, e tende a envolver o leitor (eu fui seduzido). Há repetições, propositais, que criam uma espécie de hipnose. Mas a chave do livro está no seguinte fragmento: “Perácio tinha muito pesadelo. E quem tem muito pesadelo muitas vezes não sabe dizer a diferença entre o sonho e a realidade”. Mantovani escreveu um livro para mostrar como o limite entre sonho e realidade pode ser mais tênue do que imaginamos. Para Perácio, por exemplo, tal fronteira deixou de existir.

A complexidade da trama, sem nenhuma referência geográfica ou nuance pessoal mais explícita do autor, algo raro na prosa brasileira, faz de Perácio o melhor romance de 2010 – e se você estiver disposto a também ler o melhor livro de contos do ano passado, não hesite: confira Oásis Azul do Méier (Calibán), de Altamir Tojal.

(Marcio Renato dos Santos)

Fonte: Gazeta do Povo

Dica do Chicco Sal

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