Vale mais a pena usar a temporada para se atualizar e rever ideias ou ler sem culpa?

Luis Antônio Giron – Revista Época

Quem gosta de ler aproveita as férias e as folgas de verão para pegar livros que contenham a menor quantidade possível de conteúdo. Não há nada mais delicioso do que ler sem culpa, como dizem os americanos. Nada melhor que levar (ou carregar nos leitores digitais e tabletes) um monte de livros para a viagem e deixar o cérebro em casa. Neste momento, ninguém se faz a pergunta: que livro você levaria para uma ilha deserta? Nas férias, os leitores levam consigo justamente aquelas obras que jamais pensariam em levar à tal ilha deserta. Os livros de férias são antimodelos, descartáveis e saborosamente inúteis. Ler também é lazer. Para mim, a melhor forma de se divertir depois de você sabe o quê. Livro é o melhor teletransportador disponível no mercado; não importa o modelo, seja lá em papel, computador, celular, e-reader ou tablete.

Pessoalmente eu adoro o intervalo que vai do Natal ao Ano Novo porque parece que a vidinha das obrigações é suspensa e a história passa a quase inexistir. É um momento em que a gente se esquece do que é e do que gostaria de ser ou ter sido. São aqueles dias que ninguém faz planos nem promessas. Um retorno ao divertido irracionalismo infantil. Depois que esse tempo passou, prometi a mim mesmo que manteria a sensação ao longo do ano. Ou, pelo menos, tentaria resgatá-la nos instantes de maior irritação. Mesmo quando caí na real a o assistir o discurso de posse da presidenta Dilma Roussef – alinhando a cultura a produtos que devem ser exportados, nivelando-os às arroubas de soja -, prometi manter-me neutro.

Fiquei tão zen que, no último feriadão, resolvi fazer o contrário de meus hábitos de leitura. Já que sou ninguém e não devo nada a quem quer que seja, nem mesmo a mim mesmo, tomei a paradoxal resolução de ler os livros “sérios” que não havia tido tempo de terminar ao longo do ano. Transportei à ilha da suspensão da História os títulos que talvez valessem a pena de fato ser lidos e que não haviam sido destacados suficientemente. Assumi o risco de me isolar com obras áridas ou chatas. Mas não me arrependi. Cinco dessas leituras podem servir como dicas. Ei-las.

Comecei pelo menos arriscado dos gêneros para ler: uma biografia. Vida, paixão e obra de João do Rio (Civilização Brasileira, 308 páginas, R$ 47,90), do jornalista e pesquisador João Carlos Rodrigues. O livro passou meio em branco na imprensa literária, talvez porque fosse uma reescritura de um livro publicado em 1996 pelo autor. Pensei que ia me deparar com um remake, mas descobri uma biografia poderosa e reveladora de um dos personagens mais paradigmáticos da belle époque brasileira, momento de transformações urbanas e sociais na capital da República. João do Rio – pseudônimo do jornalista e ficcionista Paulo Barreto (1881-1921) – foi o flâneur do “bota abaixo” do prefeito carioca Pereira Passos, que queria transformar o Rio de Janeiro numa Paris tropical à beira-mar. Claro que deu com os burros n’água. E João do Rio foi um Baudelaire que não deu certo – e, por isso mesmo, digno de compaixão. Rodrigues retrata o dandismo e o homossexualismo explícito de João do Rio, num momento em que os hábitos da alta sociedade se modificavam. Por volta de 1916, o grand monde carioca trocava o estilo de vida francês pelo americano. João do Rio foi o cronista dessa virada comportamental. Rodrigues acompanha a evolução estilística e ideológica do autor. Começou como repórter ambicioso e estreante na Gazeta de Notícias. Para este jornal, ele foi autor de uma série de reportagens que ficaram instantaneamente famosas e resultaram no livro As religiões do Rio em 1905. Trata-se do primeiro livro-reportagem publicado no Brasil, cuja leitura eu recomendo em qualquer estação do ano. Depois se tornou uma caricatura de cronista social, com sua coluna Pall-Mall Rio, em que captou o choque das novidades americanas no cotidiano carioca. Eu conhecia a vida de João do Rio porque havia lido a obra A vida vertiginosa de João do Rio, de Raimundo Magalhães Jr. Um livro de leitura agradável – Mas, como fiquei sabendo pela biografia de Rodrigues, coalhado de erros e omissões. Rodrigues restitui, por exemplo, a militância homossexual e feminista do escritor, algo que Magalhães Jr. Deixou nas entrelinhas. Outra passagem nova para mim é a que se refere ao caso entre o escritor e a bailarina americana Isadora Duncan em 1916, quando ela visitou o país e se apresentou no Rio e em São Paulo. Magalhães Jr. reduziu o caso a um reles “flirt”. Mas segundo Rodrigues, João do Rio e Isadora passaram meses fazendo sexo, às vezes a céu aberto, desafiando o falso moralismo e o código de posturas do tempo. Levei para a beira do mar João do Rio, vida paixão e obra, e por causa dele perdi muita onda.

Ainda no setor biografia, fiquei hipnotizado (a ponto de deixar para lá caminhadas nas trilhas do sertão da praia) com Nássara passado a limpo (José Olympio, 252 páginas, R$ 35,00), de Carlos Didier. Antonio Nássara (1910-1995) ficou famoso como caricaturista e compositor. Desenhou as grandes personalidades da música popular brasileira, primeiro usando fotos e depois “mentalizando” o modelo. Nássara extraía a “alma”, a “essência” da personalidade. E foi assim que revelo um Lamartine Babo ensimesmado, um Noel Rosa melancólico – e a si próprio como um gaiato. Nássara foi compositor de músicas de sucesso. O maior deles aconteceu com a marcha “Alá-La-ô”, em parceria com Haroldo Lobo, sucesso desde o carnaval de 1941. O biógrafo, o músico Carlos Didier (conhecido com Caôla), é autor da primorosa biografia de Noel Rosa, ao lado de João Máximo, lançada em 1990 e até hoje fora de circulação por proibições legais, e de uma injustamente desconhecida biografia do jornalista e poeta Orestes Barbosa. É um pesquisador rigoroso. O livro de Nássara é repleto de caricaturas e episódios saborosos. Como não podia faltar numa pesquisa de Didier, o livro conta com notas, musicografia e discografia. Caôla redescobre Nássara para o século XXI.

Outro livro que me distraiu da chuva e do mar foi Memórias de um historiador de domingo, de Boris Fausto (Companhia das Letras, 288 páginas, R$ 45,00). É a autobiografia do historiador paulistano de 80 anos. Pode parecer um memorial acadêmico. Mas, na realidade, conta um pedaço da vida paulistana dos anos 40 e 50, tempo em que Fausto fez o curso de Direito na faculdade do Largo de São Francisco e se tornou procurador de Estado da Universidade de São Paulo. A graça do livro é a quantidade de aventuras políticas de Fausto e sua amada, Cynira Stocco. Os dois militaram no trotskismo. Ela havia começado no movimento católico e, depois, se dedicou ao trabalho social. Ele revela as fragilidades da vida acadêmica e o péssimo ensino da faculdade de Direito na década de 40. Boris Fausto prova que as memórias de um intelectual podem virar lições de vida – se alguém está atrás de lições.

Também li ficção, e destaco dois títulos que me chamaram a atenção pelo aparente anacronismo do tema: o homem diante da máquina. São eles a peça de teatro A fábrica de Robôs (Hedra, 148 páginas, R$ 21,00, tradução do tcheco de Vera Machac,), do autor tcheco Karel Tchápek (1890-1958), e o romance A máquina de Joseph Walser (Companhia das Letras, 168 páginas, R$31,20), do português Gonçalo M. Tavares. O conflito entre homens e máquinas é um tema típico do século XX, tempo de guerras, assassinatos em massa, genocídio e otimização industrial.

O “drama coletivo” de Tchápek estreou no Teatro Nacional de Praga em 1921, com grande sucesso. É um drama sobre a revolta dos operários contra uma fábrica robotizada. Os robôs castraram a iniciativa dos homens e usurparam os valores humanos. Para salvar a espécie humana da destruição, o operário Alquist se levanta e promove a conjuração. Um texto tão ágil que o leitor consegue montar a peça mentalmente.

O alvo da crítica de Tchápek é quase o mesmo de Gonçalo M. Tavares, um escritor português de 40 anos que já declarou se interessar mais pela Europa Central do que pelo Atlântico, como tantos colegas compatriotas. Seus livros estão cheios de referências germânicas e nomes que remetem a figuras literárias, atuais ou não. É o caso do protagonista do romance, Joseph Walser. Ele remete a um só tempo a Joseph K. de A metamorfose, de Franz Kafka, e ao escritor alemão Robert Walser. O romance é escrito em estilo seco, na forma de uma fábula distópica: Joseph Walser trabalha numa fábrica como operador de uma máquina que ele considera perfeita. Sua vida é regida pelos movimentos regulares do mecanismo. Ele vive com uma mulher e mantém uma coleção bizarra, de peças soltas, tiradas de máquinas, mas que perdem a identidade original e se tornam irreconhecíveis. Um belo dia, Joseph perde o dedo indicador da mão direita – e sua vida, surpreendentemente, transforma-se em uma monotonia ainda maior. Afastado da amada máquina, ele passa a admirá-la à distância, da secretaria da fábrica. Percebe que a falta de um dedo alterou para sempre o seu espírito. Seu chefe, o encarregado Klober, informa que está dormindo com sua mulher. Alguns amigos com quem joga cartas preparam um atentado contra a cidade. O dilema de Joseph Walser está entre trair os amigos ou a si próprio. A narrativa de Gonçalo M. Tavares tem a grandeza de seus modelos, Kafka e Samuel Beckett. Tanto a história dele como a peça de Tchápek apontam para uma questão que parece ultrapassada, mas nunca foi tão presente como agora: o fascínio dos homens pelas máquinas, metálicas, plásticas ou virtuais. Estamos cada vez mais nos acasalando a elas. Vale tanto esforço?

Diante desse quinteto infernal de livros, eu me dei conta da maior das obviedades: a diferença entre o best-seller convencional e os grandes livros não está, pelo menos para mim, no coeficiente de diversão ou atenção. Reside no que os livros têm a dizer, seja lá que forma usem para isso. A vida é muito curta para perder tempo com bobagem. Melhor partir para os livros essenciais, em número incalculável e inatingível.

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