Manuais de escrita feitos por quem entende do riscado, oficinas literárias, jogar todas as ideias no papel. Afinal, onde e como começa o trabalho de um escritor?
 

Rafael Rodrigues

 

A crescente popularização da internet nos últimos anos trouxe à tona uma verdade da qual poucos desconfiavam, mas que agora é notória: o número de pessoas que gostam de escrever e querem ser lidas é muito maior do que se imaginava. Prova disso é a quantidade de blogs criados na rede mundial de computadores.

Segundo o site BlogPulse (www.blogpulse.com), existem mais de 143 milhões de blogs no mundo inteiro – até o fechamento desta matéria -, sendo que alguns desses endereços virtuais são mantidos não apenas por uma pessoa, mas por duas ou mais, as chamadas equipes de blogs coletivos. É possível encontrar desde espaços destinados a simples desabafos sobre o dia a dia até blogs que abrigam textos longos e reflexivos sobre temas variados.

Mas o que leva alguém a escrever e publicar na internet? É possível que o grande chamariz seja a possibilidade de ter seus textos lidos por conhecidos e desconhecidos do mundo inteiro, sem muito mais trabalho que o de escrever e clicar no botão de postagem. O ato de escrever repentinamente se tornou um hábito para pessoas que antes nem sequer mantinham um bom e velho querido diário. Com tanta gente escrevendo virtualmente, não demoraria muito para que os autores da internet começassem a sentir necessidade de transformar suas páginas virtuais em páginas impressas.

Também não demorou para que as editoras enxergassem esse filão literário e em pouco tempo vários blogs foram transformados em livros ou, ao menos, seus autores foram convidados a engrossar as fileiras dos que têm livros publicados pelo modo ortodoxo nas prateleiras das grandes livrarias. Entretanto, não é preciso passar as noites rezando para que um funcionário influente de uma grande editora vá parar no humilde endereço do seu blog. Há maneiras mais fáceis de publicar seu livro.

Comparado com o crescimento vertiginoso da internet e dos blogs, pode-se dizer que essa mudança de visão foi lenta, mas na última década os avanços tecnológicos fizeram com que o processo de publicação independente de um livro se tornasse relativamente fácil. O site Clube de Autores (www.clubedeautores.com.br), por exemplo, permite que o escritor edite seu livro sem sair de casa. Basicamente, basta enviar o arquivo do original a ser publicado, definir as preferências de tamanho, montar a capa, dar preço ao volume e pronto: qualquer pessoa pode adquirir a obra através do site. Como a impressão é feita sob demanda, ou seja, o livro só é impresso se alguém fizer o pedido e pagar por ele, não há risco de que o escritor ou a empresa saiam no prejuízo.

No entanto, por mais que tenha ficado cada vez mais fácil escrever e publicar um livro sem sair da frente do computador e ainda que alguns ditos escritores imaginem que para se produzir a obra capital da literatura mundial basta ser alfabetizado, pode-se dizer que o excesso de segurança não é o forte dessa nova geração de escritores. Dessa forma, a procura por oficinas literárias aumentou – e muito. Afinal, quem tem experiência na área sabe bem que escrever não é uma tarefa fácil. Assim, surgiram no Brasil cursos destinados à formação de escritores. O problema é que o custo dos tais cursos é relativamente alto. Para cursar a oficina de criação literária da Academia Internacional de Cinema de São Paulo, por exemplo, é preciso desembolsar R$ 1.800,00 por cinco meses de aulas.

Mas se oficinas e cursos estão fora da realidade financeira de muitos aspirantes a novo expoente da literatura brasileira, existem saídas bem mais cômodas e em conta. Há, por exemplo, livros, parte de um gênero que poderia ser chamado de “auto-ajuda para escritores”, obras que visam a motivar as pessoas a escrever e, mais que isso, ensinar-lhes a melhor maneira de fazê-lo.

A Conhecimento Prático Literatura inaugura aqui uma série de matérias especialmente voltadas para aspirantes a escritor. Resenharemos as principais obras que querem ensinar e auxiliar àqueles que pretendem se prestar à tão nobre tarefa de escrever e traremos conselhos de escritores que já estão experienciados na labuta do mercado editorial brasileiro. Aspirantes, divirtam-se.

Para começar, algumas dicas de Thales Guaracy, autor de Amor e Tempestade e Campo de Estrelas.Os jornais – e, para mim, depois as revistas – foram a grande escola de escrever. Com o tempo, e o exercício cotidiano da escrita, a gente descobre que o melhor jeito de escrever é ir escrevendo – simplesmente . Com a experiência, adquirimos o pensamento organizado. Isto é, escrevemos como pensamos, e pensamos como escrevemos, de maneira que as coisas saem naturalmente para o papel, da mesma forma que sai a própria fala. Já sabemos o que é importante e quando sentamos para escrever tudo está dentro da cabeça em ordem e a caminho da página em branco. Torna-se um processo automático, assim como trocar a marcha do carro, uma operação que vai se tornando mecânica, e acaba sendo a expressão do movimento do motorista.

Claro, um texto rico depende de uma vida rica. De saber coisas. De observar. De mergulhar dentro de assuntos e de pessoas. O conhecimento, a experiência e um pouco de temperamento nos dá sempre um ponto de vista que enriquece o texto e é um ponto de partida para tudo o que escrevemos.

Meu trabalho como jornalista me ajudou com a literatura, porque trouxe muita experiência de vida, conhecimento, contato com pessoas enriquecedoras, histórias extraordinárias; e me deu a disciplina para escrever, sem prestar atenção no que está em volta. Ele me ajudou a identificar a abordagem mais correta para cada assunto, a definir o ponto de vista, a abordagem e me ensinou a não recuar, não me paralisar diante da página em branco. Para isso é preciso sempre ter algo a dizer.

O romance também ajudou meu trabalho no jornalismo. Me deu instrumentos para transformar em informação o que à primeira vista pode parecer observação subjetiva. Ajudou a entender melhor as pessoas e como elas agem. E a contar a história humana por trás de qualquer notícia, o que a faz tornar-se muito mais verdadeira e interessante.

Escrever não se ensina, é uma atividade permanente, tão ligada à nossa vida que depois de certo tempo faz parte dela como algo natural. Como começar: lendo, tendo curiosidade sincera por tudo, investigando, observando, tudo aquilo que traz conteúdo e nos dá capacidade instalada e um ponto de vista. E, depois, é o exercício diário de escrever – árduo, mas recompensador.

Rafael Rodrigues é editor-assistente e colunista do site Digestivo Cultural, além de colaborador de outros veículos. Mantém o blog Entretantos (http://bravonline.abril.com.br/blogs/entretantos).

Fonte: Revista Literatura

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