Explorar elementos com teor mais erudito na literatura de cordel é uma das propostas trazidas pelo professor e artista plural Ulisses Germano. Sua poética tem como fonte inspiradora a vida e os sentimentos humanos

Ana Cecília Soares

O poeta cearense Ulisses Germano: “O que escrevo faz menção às coisas que leio, vejo e escuto. Não é o erudito pelo erudito, são aprendizados adquiridos que costumo registrar”

Bom de prosa, Ulisses Germano arranca sonoridade das palavras e poesia de tudo aquilo que vê ou sente. Cordelista, artista plástico, professor, músico e poeta, ele tira de suas próprias experiências de vida a inspiração necessária para seus cordéis. “Retiro muitos elementos da cultura nordestina. Escrevi um folheto chamado ´A História do Espinho que Furou os Olhos de Lampião´. Nesse cordel, dou voz e vez ao Espinho que expõe o seu discurso sobre a temática do cangaço que envolve muito lirismo, mas também fraudes, crimes e corrupções. O espinho de quipá encontra no meio de uma cancela um corrupto que começa a execrar a imagem de Lampião”.

O cordelista completa: “muita coisa tem sido escrita sobre o cangaço, então eu resolvi escrever essa fábula. O corrupto tenta subornar e comprar o Espinho. Ele se enfurece e depois se acalma tentando explicar para o deputado corrupto que tem muita gente que confunde memória curta com consciência tranquila. No folheto ´A Poética da Indiferença´, eu e Josenir Lacerda defendemos a tese de que o oposto do amor não é o ódio: é a indiferença. No ódio você ainda identifica o objeto odiado: ´Eu lhe odeio!´. Na indiferença o objeto é negado com mais perversidade. É lógico que um assunto tão abrangente como esse não pode ser abordado em sua inteireza nos 32 parágrafos de um folheto, mas o cordel também pode ser catarse”.

Da parceria com a amiga e também cordelista Josenir Lacerda, ele faz emergir belezas como a “Poética da indiferença”, a “Poética da inveja” e a “Poética do cangaço”. Além das produções individuais: “A quintessência da existência” e o já citado “A história do espinho que furou o olho de Lampião”.

Há quatro anos, o professor vem se aventurando pela literatura de cordel. Paixão antiga que lhe segue desde os tempos de menino. “Nunca na vida tinha me atrevido a fazer versos obedecendo à métrica e à rima. Um dia a poetisa Josenir Lacerda lançou um desafio de escrever um folheto de cordel em parceria. No começo eu relutei, mas Josenir tem a maestria do convencimento e eu acabei acreditando que realmente poderia fazer um cordel. Portanto, meu primeiro cordel foi escrito em parceria com ela”, explica. Por entre métricas e rimas, Ulisses Germano recupera lembranças ou, simplesmente, solta versos sobre amores, política, seres inanimados e pessoas reais. O cordel é aquilo que o torna leve. É o que lhe faz expurgar as dores e os rancores. Não é literatura inferior, como se apressa em dizer, mas a vida ritmada. De feitura tão difícil como um soneto.

“Uma boa amizade/ irmanada no respeito/ dura uma eternidade/ não deixa marca no peito/ o amor é uma semente/ que nasce dentro da mente/ que ama de qualquer jeito/Não é fácil conviver/ muito menos preservar/ o bom amigo quer ver/ o outro amigo lutar/ sem invejar seu sucesso facilita o processo/ que conduz ao verbo amar” (um trecho de “A quintessência da existência”).

Encantamento

Nascido em Iguatu e radicado no Crato, Ulisses Germano herdou dos avós, o clarinetista José Facundo e a bandolinista Ormecinda Correia, o amor pelas artes. Sentimento que lhe fez explorar diferentes áreas artísticas. Já criou na música, na literatura e nas artes plásticas. Uma imersão que o possibilita reinventar sua arte.

A favor de um cordel que fuja do “matutês”, como gosta de enfatizar, Ulisses Germano traz para seus cordéis elementos e temáticas mais acadêmicas. “Meus amigos brincam comigo que meus cordéis precisam de notas de rodapé. O que escrevo faz menção às coisas que leio, vejo e escuto. Não é o erudito pelo erudito, são aprendizados adquiridos que costumo registrar”.

Para ele, o cordel é um universo cheio de encantamentos. O primeiro, em sua opinião, diz respeito ao formato dos folhetos ilustrados por xilogravuras. “Considero o cordel o nosso primeiro livro de bolso. Os que são produzidos pela Academia dos Cordelistas do Crato e pela Lira Nordestina de Juazeiro do Norte ainda preservam a antiga tradição de confeccionar artesanalmente os folhetos. E isso me encanta. É Arte!”.

Quanto aos outros encantamentos apontados por Ulisses, estão a métrica e o ritmo que as palavras rimadas impõem para a cadência de sua leitura. “Um cordel bem lido é pura música. Todos os assuntos podem ser abordados na literatura de cordel. Nunca podemos esquecer que essa arte é fruto da oralidade, e a multiplicidade de temas abordados por esse estilo de escrever ao longo dos anos atestam essa verdade”.

Para este ano, o cordelista prepara vários projetos, perpassando diferentes campos artísticos. “Estou também produzindo trilhas para filmes documentários: ´Fundação Romualdo´; ´Um milagre paleontológico de Bola Bantim´; ´Professor Álamo da URCA´; e ´Água pra que te Quero´, da fotógrafa Nívea Uchôa. Todos serão lançados este ano. Meu mais recente cordel é intitulado ´A Proeza do Peixe Pedra´”.

Ulisses Germano diz adorar esta alcunha: “Peixe Pedra! E como não poderia deixar de ser, eu também dou voz e vez para o Peixe Pedra que tem a mania de declamar sextilhas: O passado é infinito/ O futuro também é / A origem está no mito /Da Ciência e da Fé / No longo e lento atrito / Da pedra com a maré”.

Fonte: Diário do Nordeste

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