Ivan Finotti

O que é uma obra de arte, senão um retrato de seu tempo? Não mais, segundo atuais padrões do império norte-americano. Para a nação mais politicamente correta do mundo, voltar atrás e refazer a realidade como ela deveria ter sido (na opinião de alguns) não é problema.

Atentados contra a realidade acontecem há milênios. A própria história, com seu clichê “escrita pelos vencedores”, não é fonte de verdade absoluta.

Mas o que espanta no caso desta semana é que quem propôs a alteração no livro de Mark Twain é um professor universitário. E quem concordou são pessoas supostamente comprometidas com as letras, editores de livros.

O professor disse que não quer sanear a obra de Mark Twain. “A crítica social aguçada continua lá”, opinou ele. Sim, está lá a crítica social que ele considera digna de estar lá.

Se Mark Twain escrevia crioulo para se referir a escravos em “As Aventuras de Huckleberry Finn” (1884), e não se usa mais essa alcunha no século 21, trata-se de prova incontestável de evolução social. Ao censurar a palavra, o professor e a editora desrespeitam 126 anos de luta por direitos humanos.

Essa mesquinhez histórica não é monopólio norte-americano. Quando a igreja torturava pessoas, aproveitava para pintar panos em cima do pênis e seios de seres bíblicos retratados em quadros e afrescos.

SEXO E ROCK

Séculos depois, lembrou o site do “New York Times” anteontem, o apresentador Ed Sullivan obrigou os Rolling Stones a cantarem em seu programa de TV americano “vamos passar um tempo juntos” em vez de “vamos passar uma noite juntos” (“Let’s Spend the Night Together”, 1967).

E em 2003, pôsteres da capa de “Abbey Road” (1969), dos Beatles, foram vendidos nos EUA sem o cigarro nas mãos de Paul McCartney, em uma ação feita sem a anuência dos ingleses.

Não, a sanitarização da obra de arte não é monopólio norte-americano; é monopólio da estupidez. Mas eles se esforçam nessa tarefa.

Fonte: Folha Online

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