Há uma diferença enorme entre ler e estudar literatura. Eu vi muita gente que “gostava de ler” perdendo o interesse por literatura na universidade justamente por não aceitar essa diferença. O estudo e análise literária são coisas muito diferentes da literatura de entretenimento que a maioria de nós, ainda jovens, estávamos acostumados antes de começar a faculdade.

De modo geral, a análise literária é uma investigação de padrões que diferenciam períodos literários. O que há de comum entre Machado de Assis e Eça de Queirós que permita englobá-los num grupo cujas características compreendam o período do realismo? E quais são as diferenças desses dois escritores em relação a Aluísio Azevedo que o coloca entre os autores do naturalismo?

Para responder às duas perguntas é necessária uma investigação sistemática sobre os padrões das obras desses escritores. Os padrões predominantes em Machado de Assis – linguagem objetiva, ironia, crítica ao modo burguês (ou aristocrata decadente) de vida – são diferentes das características (padrões) que abundam em O Cortiço, por exemplo – que dá enfoque ao projeto naturalista, simpatizante das novas teorias médicas, que tenta explorar as vísceras do comportamento humano, de modo exagerado e zoomórfico. Ou seja, dois padrões explícitos diferentes separam dois períodos próximos, até mesmo contemporâneos, na literatura.

É quase uma matemática da literatura, uma caça ao “algoritmo” criativo que nos auxilia no trabalho de classificar e compreender as obras desses inesquecíveis defuntos.

Há quem argumente que o modernismo é justamente a quebra dos modelos, mas eu discordo dessa visão, uma vez que a quebra de padrão é também um tipo de padrão. Mas isto é assunto extenso demais para discutir e explorar aqui. Fica para outra hora.

fonte: Livraria do Thiago

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