Maria Júlia Lledó

Ela não se contenta em estar impressa em livros nem em servir de mote para questões de vestibular. Quem a conhece garante: a poesia está sempre em movimento e costuma visitar os apaixonados pela vida.

Sejamos sinceros. Levante a mão quem gosta de poesia. Aposto que aqueles que fizeram cara feia, logo associaram poesia às longas estrofes declamadas de forma chata e sem sentimento algum. Ou àqueles versos memorizados a contragosto para uma prova de literatura. Professor do Centro de Ensino Paulo Freire, na Asa Norte, Jorge Amâncio observa que esse preconceito pode se formar na escola. “Se não mostramos que a poesia está em uma música, em uma visão de mundo ou em algo que podemos associar a nossa vida, fica difícil gostar dela”, acredita Amâncio, que já poetizou leis de Newton em aulas de física.

Antes mesmo dos primeiros anos na escola, já na infância, a poesia tem um papel fundamental. Poeta e autora do recém-lançado livro infantil Classificados e nem tanto (Ed. Galerinha Record), Marina Colasanti encontrou poesia, quando criança, nas histórias em quadrinhos do jornal italiano Il Corriere Dei Piccoli, época em que morou na Itália com os pais. Nos balões de conversa dos personagens, versos divertidos encantaram Marina. Foi aí que ela tomou gosto e começou a escrever os próprios poemas. “Para as crianças, a poesia é um jogo verbal extremamente divertido, é parente da música. Pode-se e deve-se oferecer poesia às crianças desde muito pequenas, enfronhadas que estão na linguagem simbólica”, defende.

Arte de escrever em verso. Inspiração. Aquilo que desperta o sentimento do belo, ou “abridor de latas da realidade”, como já disse a poeta e filósofa Viviane Mosé, o conceito de poesia vai além das definições de livros. Vencedor do Prêmio Rainha Sofia de Poesia de 2010, o poeta espanhol Francisco Brines, disse em entrevista ao jornal El País, assim que recebeu a homenagem, que a poesia não só educa a sensibilidade de uma pessoa como incute a tolerância na sociedade. Isso porque, na opinião do autor de 78 anos, a poesia auxilia as pessoas no processo de autoconhecimento. “Quando escrevo me sinto pleno, realizado. E ainda me surpreendo, porque isso ajuda a me encontrar, sem nenhuma necessidade de desenhar um autorretrato.”

Outros artistas compartilham da opinião do poeta espanhol. E por que não dizer que jornaleiros, engraxates, pipoqueiros, bancários, estudantes e tantos outros curiosos também adotaram a poesia como meio de entender si mesmos e o mundo? São homens e mulheres que veem algo de especial no dia a dia. Como fez o poeta Carlos Drummond de Andrade ao dar um novo significado à pedra no meio do caminho.

Atentos à poesia que há no cotidiano, conversamos sobre verso e pipoca com as atrizes Manuela Castelo Branco e Tatiana Carvalhedo. Também vimos a contribuição da sétima arte para o tema com a cineasta Danyella Proença e discutimos o papel do espaço público com a poeta Marina Mara. Sobre a importância da poesia na escola, ouvimos o diretor do Centro de Ensino Fundamental nº 8 do Gama, Fernando Freire.

Deixemos, então, de lado qualquer sombra de repetições ao estilo “batatinha quando nasce se esparrama pelo chão”. Chegou a hora e a vez da poesia-conversa. Daquela com gostinho de feita na hora, saída do forno, pronta para ser degustada.

Manuela Castelo Branco, Tatiana Carvalhedo e Marcelo Nenevê botam mais milho na panela das ideias

Manoel de Barros tem sabor de alecrim. Quer dizer, esse é o gosto da pipoca que leva o nome desse poeta apaixonado pela natureza e pelas miudezas. No carrinho do Pipocando poesia também pode-se provar um tantinho de Ferreira Ferreira Gullar, de Adélia Prado, de Hilda Hilst — doces ou salgados. O projeto ambulante das atrizes Manuela Castelo Branco, 34 anos, e Tatiana Carvalhedo, 33, junta a fome com a vontade de poetizar. “O principal objetivo do carrinho é este: desfazer o equívoco de que poesia é coisa erudita. Foi aí que, desde janeiro, colocamos a poesia para pipocar na rua”, explica Manuela, também conhecida no picadeiro como a palhaça Matusquela.

A arte de interpretar textos e de fazer poemas já acompanhava a trupe, mas o ofício de pipoqueiro foi aprendido com mestres da cidade. Entre eles, Jeová, Raimundinho e Amâncio — este último, um verdadeiro patrimônio do Teatro Nacional, onde faz ponto há décadas. Quando as atrizes falavam para eles sobre o projeto, torciam o nariz. Não achavam que poesia tinha a ver com pipoca, mas logo mudaram de ideia. “Meu delírio é que todo pipoqueiro de Brasília saiba falar um poema ou que todo saquinho de pipoca tenha um poema. Se ao chegar em Salvador, temos o acarajé, aqui poderíamos ter o saquinho de pipoca com poesia”, sonha alto Manuela.

Ao percorrer espaços públicos, praças, escolas, feiras de livro, festivais de teatro, lá vai o carrinho empurrado pelas atrizes e pelo novo ajudante, também poeta, Marcelo Nenevê, 26. “Olha a pipoca, olha o pipoqueiro, olha a pipoca, tem de doce e tem de sal… olha o pipoqueiro”, cantam para atrair atenção do público. Quem se aproxima para pedir o sabor, leva um verso como oferta da casa. “As pessoas vão entrando na brincadeira e interagindo. As crianças foram a maior surpresa, mas nosso público não tem uma faixa etária específica”, observa Tatiana.

E tem mais: o cliente que declamar um verso ganha desconto. O resultado? A gostosa experiência de misturar poesia com o desejo de devorar um saquinho de pipoca. “Com o Pipocando, sentimos que o gosto pela poesia é uma questão de estímulo. Quem tem medo de poesia não a conhece nem provou seu sabor”, brinca Tatiana.

Alguns poetas e seus sabores:

Hilda Hilst – Bacon
Adélia Prado – Rosa
Manoel de Barros – Alecrim
Elisa Lucinda – Chocolate e gengibre
Clarice Lispector – Curry e pimenta
Carlos Drummond de Andrade – Queijo
Ferreira Gullar – Sal tradicional
Cora Coralina – Doce tradicional

Fonte: Verdeveredas

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