O escritor gaúcho de Três de Maio, Charles Kiefer, 52 anos, tem mais de 30 títulos publicados, alguns na França e em Portugal. Ganhador de prêmios como o Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, e o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro (com “O Pêndulo do Relógio”, “Um Outro Olhar” e “Antologia Pessoal”), Kiefer é conhecido por obras já arraigadas nos compêndios de literatura gaúcha como “Valsa para Bruno Stein” e “Quem faz Gemer a Terra”, mas também pelo seu intenso trabalho de auxiliar a estimular o surgimento de novos escritores, com as suas disputadas oficinas literárias, cujas listas de espera passam das 1,4 mil pessoas.

Ciente da impossibilidade do ensino pessoal do ofício da escritura, atividade que exerce há 25 anos, Kiefer lançou no fim de 2010 o livro “Para Ser escritor”, pela editora LeYa Brasil. O livro de ensaios aborda diversos aspectos do processo criativo que envolve a escrita. A obra fornece informações úteis sobre os mecanismos de funcionamento do sistema literário e os problemas éticos e sociais da vida autoral, além de refletir sobre novas formas de expressão, por exemplo, como os blogs. Há também dicas específicas para os aspirantes à profissionalização, como por exemplo, não realizar lançamentos em bares, boates ou restaurantes. Kiefer repassa ao leitor o conselho que recebeu do poeta Mário Quintana, após ler seu primeiro livro: “Meu filho, escreva 200 poemas… e publique 20”.

Em entrevista ao Correio do Povo, Kiefer fala sobre o livro, sobre o ensino do ofício da escritura, sobre questões como direitos autorais, entre outros temas:

Correio do Povo – O livro Para ser escritor pretende se inscrever em que categoria de obra?
Charles Kiefer – O livro é composto de pequenos ensaios, praticamente todos girando em torno da atividade de escritura, especialmente sobre as questões que envolvem as oficinas literárias, os novos autores, a vida de escritor, o sistema literário. Já escrevi outros livros com esse perfil, como O guardião da floresta, A última trincheira. Gosto desse formato, cuja estrutura é leve e simples. Ernesto Sábato, Oscar Wilde e Jorge Luis Borges também praticaram o gênero.

CP – O que há para ensinar em relação ao fazer literário para estas gerações que estão começando a escrever no século XXI?
Kiefer – Apenas e somente a tradição ocidental. Tenho alunos de oficina literária que me acompanham há 16 anos. Nem eles nem eu aprendemos um décimo do que ainda temos de estudar/aprender. O único problema para quem está chegando agora à vida literária é que o reservatório de leituras amplia-se a cada dia.

CP – Em determinado momento da obra tu fazes a separação entre até onde vai o escritor, o autor e o profissional de literatura. Esta distinção está clara atualmente ou deve ser sempre pensada e repensada, principalmente numa época, onde todos queremos ser tão bons em tudo, como diria Pessoa?
Kiefer – No ensaio “Ser escritor” já fiz a necessária distinção entre os três. O escritor só existe no próprio instante em que escreve. E isto não precisa nunca ser atualizado. Isso foi assim quando a primeira poeta escreveu os primeiros versos (e pode ter certeza que o primeiro escritor foi mulher) e será assim quando o último escritor colocar o ponto final na história da literatura da Terra.

CP – Muitas das tuas referências literárias e teóricas transparecem no livro, como Aristóteles, Gaston Bachelard, Camus, Borges e Alejo Carpentier, até porque o tom da obra é confessional e de orientação aos leitores e futuros escritores. Existiria e qual seria uma linha básica referencial e cronológica de autores para aqueles que querem ser escritores?
Kiefer – Essa questão é um problema para todo professor de literatura. Privilegiar os clássicos ou os contemporâneos? O importante é que o candidato a escritor “circule” em torno de todas as possibilidades. Importante é encontrar a própria voz. E depois, procurar autores do passado ou do presente que tenham o mesmo timbre, o mesmo tom. Uma vez feita essa sintonia, é recomendável que o candidato a escritor conheça todos os outros timbres e tons da história literária.

CP – Na publicação, existem tantos conselhos sobre o que não fazer: plágio, a má literatura, envio de originais a escritores e não a editoras ou profissionais, sacralização do próprio texto, não lançar o livro em bares, adjetivação etc. O que seriam as premissas básicas para um escritor iniciante não sair errante nos primeiros passos da carreira?
Kiefer – Um: ler, atentamente, Para ser escritor. Dois: entrar no meu blog, onde vou postar uma bibliografia teórica básica para os iniciantes (a tua entrevista me deu a idéia de fazer isso. Viste como tudo é dialético, dinâmico e evolutivo?). Eis o endereço do blog: http://charleskiefer.blogspot.com. Três: se possível, freqüentar uma oficina literária. O professor pode ser um chato e incompetente, mas a companhia de um grupo com os mesmos interesses “escriturais” tem um poder emulador impressionante.

CP – O conto e a poesia são dois gêneros que ganham destaque no livro. Sobre o conto, Edgar Allan Poe já disse que deve ter “intensidade como acontecimento puro”, enquanto Gaetan Picon diz que a poesia deve ser expressa pelas imagens, aludindo a uma relação privilegiada entre homem e mundo. Como escritor e docente, o que há de síntese para se dizer aos aspirantes a contistas e poetas?
Kiefer – Talvez esse seja o grande problema da pós-modernidade: queremos sínteses, queremos coisas instantâneas. Não há sínteses, há longos processos. Sobre o conto, recomendo a leitura de A poética do conto: de Poe a Borges, um passeio pelo gênero, que lançarei em março pela Editora Leya. Quanto à poesia, o principiante podia iniciar por um grande livro teórico de um grande poeta: A Poesia: Uma Iniciação a Leitura Poética.

CP – O funcionamento do sistema literário, as questões de autoralidade e outros temas também são incluídos no livro. Como analisas a questão do sistema literário atualmente?
Kiefer – Como em tantas outras áreas, estamos no olho do furacão. O suporte livro de papel está em processo de transformação para suporte eletrônico; a noção de direitos autorais está em discussão. Há gente até pregando o copyleft, que seria a liberação total dos direitos autorais. Hoje, parece haver mais autores do que leitores. Como sempre digo, se cada aluno meu ou ex-aluno meu comprasse os livros publicados pelos próprios colegas edições inteiras se esgotariam em dias. Mas não é isso que acontece. Estamos todos olhando somente para o próprio espelho.

CP – Qual a passagem do livro que julgas mais confessional?
Kiefer – As “confissões” que se encontram em Para ser escritor são sempre ilustrativas. Escrevi esse livro para os que foram, são e serão meus alunos. E para todos aqueles que estão em listas de espera e que jamais serão meus alunos, pois não terei condições de longevidade para dar conta dos mais de 1.400 (isso mesmo, mais de 1.400) candidatos às minhas oficinas. Minhas turmas tem 15, 16 alunos. E os que estão nos meus grupos não querem sair. Assim, não consigo abrir muitos grupos novos. O jeito é ler Para ser escritor e aguardar o sorteio!

CP – Para finalizar, gostaria que resumisse a tua atividade docente atual e como deve ser a postura de um professor ou ministrante de oficina literária (sei que um capítulo do livro já contém este tema, mas não podemos o entregar de todo)?
Kiefer – Sou professor de Escrita Criativa, Produção de Textos Poéticos e Oficina de Criação Literária na Graduação em Letras, da PUC, e professor de Conto Brasileiro: Teoria e Prática, na Especialização em Letras, da PUC; professor de Oficina Literária na Livraria Palavraria; e professor de Oficina Literária, na empresa de cursos e oficinas que tenho na Itororó.

Fonte: Luiz Gonzaga Lopes / Correio do Povo

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