O pesquisador isralense Oren Harman revela como a biologia, a psicologia e a sociologia explicam o impulso de ajudar o próximo em prejuízo de si mesmo

Letícia Sorg, na Época
   Reprodução

Oren Harman, professor da Universidade Bar Ilan, em Tel Aviv, Israel, uniu seus conhecimentos sobre história da ciência e biologia para contar a evolução dos estudos sobre altruísmo no livro The Price of altruism (O preço do altruísmo), lançado no ano passado nos Estados Unidos. “Price”, do título em inglês, é também uma referência ao pesquisador George Price, um dos primeiros a tentar entender por que alguns indivíduos chegam a colocar em risco a própria vida para salvar a do próximo, um comportamento que contraria o princípio de autopreservação da teoria evolucionista proposta por Charles Darwin. Nesta entrevista, Harman define altruísmo e discute as descobertas científicas sobre um dos comportamentos humanos mais complexos:
ÉPOCA – Qual a diferença entre altruísmo, generosidade e solidariedade?

Oren Harman – Altruísmo, empatia, solidariedade, generosidade são todos conceitos relacionados, mas há diferenças e distinções importantes entre eles. Quando cientistas e cientistas sociais falam sobre altruísmo, geralmente estão falando de uma ação em que, para beneficiar o outro, o indivíduo arca com um custo ou prejuízo para si próprio. Embora o altruísmo tenha importância social, é muito mais uma ação pessoal, motivada por razões pessoais de diferentes tipos e voltada a alvos particulares. Solidariedade é um conceito mais social, baseado no sentimento coletivo de unidade, e não requer sacrifício pessoal. A generosidade pode ser uma forma de altruísmo, mas não precisa ser, tecnicamente falando. Todos os termos têm histórias e usos diferentes, vindos de diferentes tradições, mas não acho que as diferenças semânticas sejam realmente importantes.
ÉPOCA – Há tipos de altruísmo?
Harman –
Em meu livro, discuto dois tipos de altruísmo: o biológico e o psicológico. O biológico é baseado nas abelhas sacrificando-se pelo bem da comunidade, nas amebas sociais que se sacrificam para que outra parte da população sobreviva por mais um dia, em alguns tipos de flores que deixam de competir com membros da própria espécie, em morcegos hematófagos que dividem o sangue com membros do grupo que foram menos afortunados na caça, entre outros. O que reúne todos esses atos é a própria definição de altruísmo: qualquer tipo de comportamento que reduza a sua capacidade de sobrevivência e aumente a capacidade de sobrevivência do outro. Note que não há intenção nesse caso: o altruísmo biológico é definido como o resultado de uma ação, não pelas motivações por trás dela (por isso até uma ameba pode ser altruísta!). Falamos de altruísmo psicológico quando consideramos ações entre pessoas. Nesse caso, intenção é tudo: se ajudo uma senhora a atravessar a rua mas ela sabe que só a estou ajudando porque quero que ela me inclua em seu testamento, ela corretamente não me verá como um altruísta, mesmo que eu seja atropelado por um caminhão e morra ao tentar ajudá-la. Então, há uma grande diferença entre o altruísmo biológico, que é momentâneo e pertence à natureza, e o altruísmo psicológico, um fenômeno que vemos em humanos. Ainda assim, como o cérebro humano é um órgão que passou pelo processo de evolução – como o joelho, o fígado ou a cor da nossa pele – deve haver uma ligação entre os altruísmos biológico e psicológico, e cientistas desde Darwin vêm tentando entender exatamente qual é essa conexão. Somos bons com os outros e ajudamos os outros porque somos verdadeiramente altruístas? Ou estamos seguindo algum tipo de imperativo biológico criado por milhões de anos de seleção natural para melhorar as nossas chances de sobrevivência? Essas são as questões que tentamos solucionar.
ÉPOCA – Um dos temas comuns dos estudos sobre altruísmo é a motivação desse comportamento. Por que é importante entender as razões por trás do altruísmo?
Harman –
Você levanta uma questão interessante: será que conseguimos saber quais são as motivações para os atos de altruísmo? A ciência consegue responder a essa questão? Quando alguém encontra um mendigo na rua, pode decidir dar dinheiro a ele para diminuir o próprio sentimento de estresse. Essa forma de doação não é, portanto, altruísmo puro, mas, na verdade, uma forma de egoísmo. O mesmo vale para um filantropo que faz caridade para ganhar reputação como caridoso. Numa escala menor, quando fazemos boas ações para outros, há processos biológicos em nossos corpos que, inconscientemente, melhoram nosso bem-estar. Por isso, os cínicos geralmente dizem que não há algo como o altruísmo puro. Eles dizem: “Arranhe um altruísta e verá um egoísta sangrar”. Mas acredito que a ciência nunca responderá a essa questão de forma definitiva. Porque ela não tem as ferramentas para decompor as motivações humanas e chegar a essa resolução. A verdade é que as pessoas fazem o bem por várias razões, e geralmente por razões que parecem conflitantes, mas não o são. Ajudar um estranho que precisa pode satisfazer na mesma medida o senso altruísta de justiça social e empatia com relação ao outro como a necessidade do indivíduo de se sentir bem consigo mesmo. Portanto, não tenho certeza de que seja importante entender completamente as motivações por trás dos atos altruísticos das pessoas. O que conta, no final do dia, é o resultado dessas ações, mais do que suas causas: o fato de que pessoas receberam ajuda e cuidado é que é importante.

ÉPOCA – Algumas pessoas dedicam-se sempre a ações solidárias, enquanto outras ajudam apenas em tragédias, como no caso dos deslizamentos na serra fluminense. Há diferença entre um tipo e outro de altruísmo?
Harman –
É uma questão difícil. O que a teoria evolucionista, assim como a sociologia, nos ensina, é que quando um grupo é ameaçado, muitos de seus membros se unem para cooperar. Isso pode ter a ver com o fato de que, quando os grupos competem entre si, aqueles com mais indivíduos altruístas são mais bem-sucedidos, porque há uma maior cooperação. Dentro do grupo, faz sentido para o indivíduo, do ponto de vista puramente racional, ser egoísta, porque o egoísta não precisa pagar nenhum preço e ainda goza da ajuda de todo mundo. Mas se o grupo é ameaçado, o comportamento altruísta aumenta. Portanto, há um conflito inerente entre o indivíduo e o grupo quando se trata de altruísmo, e tanto biólogos quando antropólogos e sociólogos estudam as condições particulares em que o interesse do grupo pode sobrepujar o interesse do indivíduo. As tragédias nacionais e as guerras parecem ser mecanismos fortes para catapultar a ação em grupo.

Os altruístas que agem altruisticamente o tempo todo, não apenas quando as coisas ficam realmente duras, podem fazê-lo por várias razões: porque foram educados de forma a promover e valorizar o serviço e o altruísmo, ou porque eles são mais empáticos que outros por sua constituição (e, sim, parece haver uma grande variação de empatia e altruísmo nas populações humanas), ou porque suas circunstâncias de vida, quaisquer que sejam, tenham-nos levado nessa direção. De novo, é muito difícil apontar as motivações, mas é um fato que, quando um grupo se percebe sob ameaça ou perigo, muitos de seus membros vão passar, de repente, a agir com o grupo, em vez de agirem por si próprios.

ÉPOCA – A capacidade de ter empatia pelos outros parece ser um fator importante para criar ações de altruísmo. Qual a diferença entre alguém que tem empatia e chora ao ver a notícia das enchentes na TV e alguém que tem empatia, chora ao ver a notícia na TV e decide ajudar?
Harman –
Alguns cientistas vão atribuir essa diferença à constituição ou à biologia. Eles vão mostrar estudos dizendo que quando você usa um spray com ocitocina nas narinas dos homens, esses indivíduos imediatamente se tornam ativamente mais altruístas e têm mais empatia. Vão mostrar estudos neurogenéticos fazendo correlações entre o comportamento “pró-social” e alguns marcadores genéticos. Vão mostrar estudos com ressonância magnética que apontam grandes partes do cérebro se ativando quando altruístas fazem o bem. Mas, claro, embora estudemos esses resultados com cuidado e aprendamos com eles, precisamos exercitar também um certo ceticismo saudável a respeito da habilidade que eles têm de fornecer as respostas para as perguntas que estamos fazendo. As causas do comportamento humano são tão complexas e variadas que reduzir um comportamento complexo como o altruísmo a uma molécula ou gene ou área do cérebro é inviável. Como o filósofo Wittgenstein escreveu, as questões mais importantes nunca poderão ser respondidas pela ciência. Na verdade, elas não podem nem ser feitas, de certa maneira. Por que alguém sacrificaria a própria vida pelos outros enquanto outros nunca sonhariam fazê-lo? Nós não sabemos. O que sabemos é que, geralmente, quando as pessoas se arriscam para ajudar os outros – como fez Wesley Autrey, que pulou nos trilhos do metrô de Nova York para salvar Cameron Hollopeter, que havia caído –, elas dizem que apenas sentiram que precisavam fazê-lo, ou não pensaram duas vezes. Em outras palavras, a ação foi quase automática e não passou pelo circuito do cérebro que governa as ações ponderadas. Explicar por que isso a acontece é um mistério que talvez nunca solucionemos. E não é de todo mau.
ÉPOCA – A cultura e a religião influenciam no comportamento altruísta?
Harman –
O tamanho do grupo pode ter muito a ver com o altruísmo: sabemos que quanto menor a comunidade, mais provável que as cooperem e sejam amigáveis umas com as outras. Isso faz sentido porque a reputação é muito importante nessa comunidade: se você é conhecido como alguém que só olha para si próprio, as pessoas tendem a interagir com você de maneira menos cooperativa. E quanto menor o grupo e melhor o conhecimento que as pessoas têm das outras, mais importante a reputação. As cidades grandes onde todo mundo é um estranho não necessariamente ajudam a promover boas relações porque o anonimato tira o fardo de se preocupar com a reputação. Foi Platão quem disse que o tamanho ideal de uma cidade seria grande o suficiente para as pessoas não saberem o nome umas das outras, mas pequena o suficiente para que todo mundo fosse capaz de reconhecer os outros pela fisionomia. Não há dúvidas de que a interrelação entre a seleção de grupo e o que chamamos de reciprocidade indireta teve um papel importante na evolução do nosso senso moral, de justiça e vergonha, e, portanto, na nossa habilidade de agir altruisticamente em relação ao próximo.

Dito isso, não há dúvidas de que a educação e a cultura também têm um papel importantíssimo. Muitos dizem que esses são os fatores mais importantes para incutir atitudes altruístas. Aprender com o nosso passado evolutivo é importante, mas tem seus limites, e a cultura é realmente um fator especial. Claramente, se você é ensinado a respeitar os outros como a si mesmo, e a valorizar esse preceito, seu posicionamento sobre a vida e os outros será diferente do que o de alguém que aprendeu a buscar o primeiro lugar num mundo ultra competitivo. As predisposições biológicas existem, mas são determinantes apenas em casos patológicos. A cultura e a educação realmente contam mais do que qualquer outra coisa.

ÉPOCA – A mídia tem algum papel em relação ao comportamento altruísta, especialmente em tragédias, como as enchentes da região serrana do Rio de Janeiro?
Harman –
A importância da reputação, especialmnte entre espécies sociais como a nossa, não pode ser menosprezada. Por isso, a mídia pode ter um papel importante a fazer nesse sentido, uma vez que chega às casas via televisão, internet, celular e rádio. Na verdade, a vergonha é um poderoso motor para ações, e se as pessoas forem estimuladas a se sentir desconfortáveis por não agir de forma altruísta, isso pode levá-las a mudar, olhar para os lados e ajudar os outros. A vergonha é comumente induzida por pressão dos pares, mas não preciso dizer a você que a mídia tem um papel importante no imaginário coletivo da sociedade.

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