BRENO BALDRATI E IRINÊO BAPTISTA NETTO, na Gazeta do Povo

Arquivo/ Gazeta do Povo / “A vida em grande medida é efêmera. Existe muita frustração. O fracasso nos ajuda a lembrar que existe muito pó em tudo. Mas essa frase também tem um outro nível, quando ela é pensada num contexto de uma sociedade pautada pelo sucesso em todos os níveis.”

Ao perceber a dimensão do acaso no rumo da vida, o indivíduo pode ter dois tipos de reações. Uma, como se o acaso fosse a evidência necessária para viver angustiado. A outra, experiência mais difícil de ocorrer, é uma re­­lativa despreocupação com a busca por um sentido na vida. “É uma forma de libertação”, diz o filósofo Luiz Felipe Pondé, autor de Contra um Mundo Melhor – Ensaios do Afeto (Leya).

Na entrevista a seguir, ele fala do acaso e de outros temas abordados no novo livro, uma pancanda em quem acredita num mundo melhor. Alternando ensaios curtos e outros mais longos, Pondé combate o que ele chama de “marketing de comportamento” – “o discurso hi­­pócrita, com toques de sofisticação, que visa a esconder o fato de que o ser o humano é um ser perdido, angustiado e com medo”.

Confira os principais trechos da conversa, feita por telefone.

O acaso domina a vida?

Não podemos dizer com certeza que o acaso domina as nossas vidas. Não há como provar isso. Se você pensar do ponto de vista científico, não há como chegar a uma resposta definitiva. Mas eu diria que, em grande medida, existe muito acaso nas nossas vidas. Tem muito acaso no universo, mas não acho que ele tenha um sentido último.

Por que a percepção do acaso seria relevante para o indivíduo?

Pode ser relevante num sentido de gerar melancolia e depressão. Alguém que diga: “Ah, é acaso, então não tem sentido, é sorte ou azar”. Muita gente recebe isso como uma espécie de evidência para ficar triste ou angustiado. Mas há uma outra forma, mais sofisticada e mais rara, que pode ser uma experiência de libertação. Já que existe uma grande dimensão de acaso, e talvez as coisas não tenham grande sentido, então talvez eu possa ficar menos paranoico em busca de um sentido. Ele é relevante dessas duas formas.

No livro, você diz: “Porque o que nos humaniza é o fracasso, homens e mulheres muito felizes não são homens e mulheres”. Por que a consciência do fracasso é tão importante?

Essa ideia tem duas abordagens. Primeiro, foi pensada como oposição. Uma frase que visa a iluminar o que seria o oposto dela: o sucesso não humaniza as pessoas. Todo mundo que fale a verdade quando tem grande sucesso – numa coisa pontual, ao longo da vida ou num certo período –, tende a uma certa arrogância, tende a se achar o máximo, fica mais impaciente com as pessoas que não são tão capazes quanto ele. Num primeiro momento, o fracasso humaniza, porque ajuda a recuperar um pouco a justa medida das coisas. A vida em grande medida é efêmera. Existe muita frustração. O fracasso nos ajuda a lembrar que existe muito pó em tudo. Mas essa frase também tem um outro nível, quando ela é pensada num contexto de uma sociedade pautada pelo sucesso em todos os níveis. Além de eu achar que uma sociedade assim é brega, é muito patogênica. Fica todo mundo o tempo todo querendo ter sucesso, su­­cesso, sucesso. Nesse sentido, ‘o que nos humaniza é o fracasso’, é apontar um pouco o olhar para essa mania de sucesso como uma mania social patogênica.

Você alega que só não é um niilista por hábito, inclusive por hábito fisiológico. O que quer dizer com isso?

Antes de tudo, sou um ser de hábitos. Quando quebro meus há­­bitos, normalmente me es­­queço de fazer determinadas coisas. Descartes [René Descartes, filósofo francês do século 17] falava que ter métodos é uma confissão de humildade. Eu acho que ter hábitos é uma confissão de humildade. Tem uma outra coisa que eu debato em alguns textos do livro, inclusive num denominado “Babel”. Acho que a vida moral tem muito de hábito, de costume. Quando eu falo em hábito fisiológico, na realidade, quero dizer “Olha, são os átomos do meu corpo que estão acostumados a funcionar de um jeito”. Nesse sentido, o que quero dizer é que sou filosoficamente bastante pessimista, mas esse pessimismo acaba encaixado numa experiência fisiológica cotidiana otimista. Trocando em miúdos: eu gosto do que faço, do meu trabalho. Eu me divirto. Isso faz com que eu me sinta bem com as pessoas com quem eu trabalho. Gosto da minha vida familiar. Então sou uma pessoa fisiologicamente otimista. Com isso, quero dizer que não sou responsável pelo meu otimismo. Não sou eu que o produzo, e não é uma decisão filosófica minha ser otimista. Eu sou porque não conseguiria ser o contrário. Eu gosto da vida. Normalmente, isso gera muito im­­pacto em quem me lê, que projeta uma imagem pessimista minha. Aí quando me conhece, inclusive pessoalmente, diz: “Você não bate com aquilo que eu imaginava”. Estou longe de ser uma pessoa melancólica.

Isso é acaso, não?

Acho que sim. É uma questão de sorte. Eu dei sorte por ter uma natureza assim. Alguém poderia dizer que é por causa do meu pai ou da minha mãe, ou do DNA, da biologia, sei lá. Acho que é mais rápida a compreensão que de fato eu dei sorte. Consigo na maior parte dos dias ser sempre feliz.

Qual a sua opinião sobre a logoterapia e a busca por um sentido na vida, a teoria de Victor Frankl?

Essa ideia do Victor Frankl pode ter dois níveis de compreensão. Um mais profundo, que inclusive remete à questão de Deus – que Deus é o sentido último das coisas. Há um outro sentido, mais prosaico, cotidiano, que é, às vezes, ter prazer naquilo que você faz cotidianamente. Isso não significa que adianta escrever um livro idiota qualquer falando “Tenha prazer no que você faz no dia a dia” e aí os infelizes vão fazer um workshop para aprender a amar a sua função de caixa de banco. Não é isso que eu quero dizer. Existe um nível de gosto pela vida que faz você encontrar sentido nela. Claro que você pode começar a escarafunchar o sentido da vida. Eu escarafuncho o sentido da vida o tempo inteiro. Mas não sou afetado por isso. Trabalho com isso, mas não é porque eu não sou afetado que, na realidade, isso não é verdade. É um trabalho filosófico que, inclusive, tem um sentido terapêutico contra uma sociedade besta como a nossa, infantil, com espírito de classe média e mania de fazer todo mundo ser superlegal o tempo inteiro. Mas a ideia [de Frankl] é de que, de repente, no cotidiano, a gente não percebe o sentido da vida. A gente sente o sentido da vida. Não é você que escolhe. As coisas fazem sentido para você não porque você escolheu. O Victor Frankl tem uma pegada legal. Inclusive no sentido de Deus. Deus pode ser um grande sentido na vida. As religiões são grandes sistemas de sentido. Que seja fácil encontrar o sentido da vida como forma terapêutica pode parecer ingênuo. Não acho que as pessoas encontram sentido, é o sentido que as encontra.

A virtude é desejável?

Acho que sim. Mas a ideia de virtude no plano social está quase sempre do lado da hipocrisia. A maior parte das pessoas que se faz de virtuosa, se faz porque sem hipocrisia o mundo não funciona. A nova forma de hipocrisia, a ideia de virtude republicana, no lugar de um cristianismo puritano, é uma virtude politicamente correta. Todo mundo sabe as quatro ou cinco coisas que é preciso fazer para que as pessoas achem você legal. Minha relação com isso é estética. Acho brega ser bonzinho assim. Isso não significa que eu não acredite na ideia de virtude tal como desde a filosofia grega, desde Aristóteles, a ideia de virtude como capacidade para enfrentar a morte, a frustração, de resistir à tentação. Eu acredito mais na virtude do mundo grego, ou do mundo bíblico, do que no papinho furado das virtudes republicanas do século 18 para cá. Virtude é uma dessas coisas que o que foi dito sobre ela há 2.500 anos vale mais do que se fala hoje. Virtude hoje é papinho de recursos humanos. Ainda é um conceito que se compreende melhor numa estrutura guerreira – não necessariamente que você vá para a guerra matar ou morrer –, mas na qual você passa por testes cotidianos. Por exemplo: quando você demite uma pessoa, você percebe se ela é uma pessoa mais virtuosa ou menos virtuosa.

Se o sentimento é apenas reação a um acontecimento específico, ou seja, passageiro, em que medida devemos levá-lo em consideração. Quando você sabe que um sentimento é importante?

Não sei se tenho autonomia para dar valor aos meus sentimentos. Eu normalmente levo a coisa a sério quando ela de alguma forma fala ao sentimento. Quando só me fala à ideia, eu passo rápido por ela. Eu levo muito mais a sério o que é da ordem dos afetos do que o que é da ordem das ideias. Quase desconfio das pessoas que acham que o que importa é as ideias. Não estou dizendo que as ideias não importam, mas elas são importantes para você quando, alguma medida, te afetam. Não acho que sou eu que escolho dar valor aos sentimentos. Pelo menos no meu temperamento, os sentimentos e os afetos tendem a se impor. Com isso, não quero dizer que sou uma pessoa emocional, pelo contrário. A minha tendência muitas vezes em ser racional e cético é, em mim, um afeto, e não uma decisão racional. Eu falo isso no livro: para mim o ceticismo é quase uma forma de respiração. Sempre lembrando que ceticismo em filosofia não é uma crítica banal à religião. Ser cético com religião é bater em bêbado na ladeira. Qualquer um é. Ceticismo sério é quando você está brigando com a razão, com o método científico.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments