Até os 35 anos, o mineiro Roberto Lima Netto, 70, foi um homem essencialmente racional. Executivo de sucesso, ele dirigiu o BNDES, presidiu a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) e idealizou o CEBRAE, transformado mais tarde em SEBRAE. A paixão pela literatura sempre o acompanhou, mas, com a aposentadoria, os livros passaram ao primeiro plano de sua vida. Com 13 obras editadas, inclusive na Alemanha e Suíça, Lima Netto agora publica o romance Além do Arco-Íris. Parte da história de um homem que, ao se aposentar, sofre a decepção de pensar que pode se transformar em um inútil e tenta refazer a vida na paradisíaca Paraty. Lá descobre novas motivações e desbrava perigos ao tentar defender uma aldeia de pescadores da ambição de um grupo ligado ao tráfico.

Além do Arco-Íris é um romance sobre a reinvenção da vida. Todos os personagens transformam suas existências. Como surgiu a história de Além do Arco-Íris?

A história de Além do Arco-Íris surgiu de minhas reflexões sobre a aposentadoria. Papai parou de trabalhar aos 91 anos, mesmo assim por problemas de saúde. Eu acho que o ser humano precisa de alguma atividade útil à sociedade. Muitos sonham com a aposentadoria, com viagens, com tempo livre para o lazer. O lazer é importante, mas, ainda que as pessoas possam reduzir suas atividades com a idade, não acredito que devam parar por completo, deixar de ser útil à sociedade.

A literatura entrou na sua vida como uma chance de dar uma virada, de desafogar sua rotina?

Eu sempre gostei de escrever. Ainda em meu tempo de estudante de engenharia, com 20 anos, escrevi duas apostilhas, editadas pela gráfica da escola. Sinto uma necessidade de transmitir conhecimentos. Seria complexo de professor? Porém, enquanto o professor ensina para quarenta alunos por aula, o escritor escreve para milhares.

De que forma sua história pessoal se aproxima da do protagonista do romance?

A história pessoal do escritor está sempre próxima de sua ficção. Afinal, o autor se baseia em sua experiência de vida para criar a obra.

As histórias realmente imitam a vida?

As situações fictícias dos romances se baseiam em casos reais. Se assim não fosse, o autor não conseguiria manter o interesse do leitor. É claro que o escritor pinta as circunstâncias com cores fortes, romantiza as situações. Mesmo nos livros de ficção científica, ele descreve situações da vida real, ainda que metaforicamente. A busca do poder, a bondade, a maldade, e tantas outras qualidades e defeitos que existem na vida real estão também na ficção científica. As histórias fictícias de um romance realmente imitam a vida. Lendo bons romances você aprende lições que podem ser úteis em sua vida.

Como aconteceu essa guinada de um homem envolvido a vida inteira com administração e com o mundo empresarial se envolver com literatura?

Meus primeiros livros eram livros técnicos. Minha necessidade de transmitir idéias já existia desde cedo. Mais à frente, convenci-me de que você pode transmitir melhor suas ideias contando uma historinha, atraindo as pessoas pelo lado lúdico. Passei a escrever livros técnicos com historias. Daí para a ficção foi um pulo, que ocorreu quando a pressão da vida profissional diminuiu, e eu podia dispor de mais tempo. Porém, sempre escrevi ficção pensando em lições de vida. Hoje, com 70 anos, tenho algumas coisas a ensinar, ainda que também muito a aprender. A vida sempre ensina, e a literatura também.

Começou como um hobby e hoje já tem caráter profissional?

A literatura, para mim, sempre foi um hobby, seja como leitor, seja como autor. Acho que sou criativo. Tenho até um livro sobre criatividade (A Criatividade do Rei) e escrever sempre foi um prazer. Geralmente escrevo mais de um livro ao mesmo tempo, passando de um para outro com a inspiração. Porém, nada impede que um hobby seja visto profissionalmente. Pelo contrário, sempre que você atua profissionalmente naquilo que gosta, a vida fica leve. Estudei muito para aprender a escrever romances. Meu ascendente astrológico é capricórnio, determinado. Já li mais de cem livros sobre como escrever ficção. O Saturno de Capricórnio é muito exigente.

Você sempre foi um leitor voraz? O que lia ou lê?

Eu gosto de ler e leio rápido. Devoro livros. Além de romances, sou fanático pelas ideias de Jung, que considero um dos maiores gênios do século XX. Comecei, aos 35 anos, pelo “O Homem e seus Símbolos, escrito por ele e por outros junguianos. Então, eu me encantei. Li quase toda a obra de Jung e dezenas de autores junguianos. Jung é bem difícil de ler, mas existem alguns seguidores fantásticos, que explicam bem suas ideias. Já li, e continuo lendo muito, sobre cristianismo, espiritismo, budismo, hinduísmo. Meu lado esotérico vem do gnosticismo, cabala, sufismo, astrologia, tarô e outras obras herméticas. Sou um leitor inveterado e muito curioso, especialmente agora que reduzi um pouco minhas atividades profissionais. Atualmente, minha atividade principal é escrever e ler.

fonte: Tribuna do Norte

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