A correspondência inédita que J.D. Salinger manteve com um amigo inglês durante duas décadas mostra que o recluso escritor americano não era tão ermitão quanto se acreditava, e que viajava e desfrutava de hábitos populares como hambúrgueres e televisão.

Salinger morreu em janeiro de 2010, aos 91 anos, deixando para trás uma imagem de intelectual irascível e recluso, que sofria para lidar com o estrondoso sucesso de seu romance “O Apanhador no Campo de Centeio”, de 1951, cujo protagonista, o adolescente Holden Caufield, tornou-se ícone cultural da juventude – e rendeu uma verdadeira fortuna ao escritor.

No entanto, uma coleção de 50 cartas escritas à máquina e quatro cartões-postais escritos à mão, enviados ao longo de duas décadas por Salinger ao amigo Donald Hartog, mostra um lado diferente deste autor – sua vida em família, seus interesses e sua admiração pelo tenista britânico Tim Henman.

“Embora as cartas falem de assuntos bastante mundanos, são muito comoventes, principalmente devido à maneira como Salinger fala de meu pai e da longa amizade entre os dois”, explica Frances, filha de Hartog, que doou a coleção à Universidade de East Anglia (UEA), no leste da Inglaterra.

“Há grande ternura e afeto em relação ao meu pai, e isso é tão diferente do retrato que frequentemente se faz de Salinger”, acrescentou.

Ao contrário de passar a vida entrincheirado na casa onde morava, no estado de New Hampshire, as cartas revelam que Salinger viajou à Alemanha com a mulher, participou de uma excursão de ônibus pelas região das cataratas do Niágara e visitou o Grand Canyon.

Em abril de 1989, o escritor viajou à Londres para celebrar o aniversário de 70 anos de Hartog. Eles jantaram no hotel Savoy e visitaram o zoológico de Whipsnade, no norte da capital inglesa.

Uma foto dos dois amigos sentados em um banco em Londres, durante esta viagem, também faz parte da coleção doada à UEA, junto com quatro imagens da escrivaninha de trabalho de Salinger e uma foto de seus gatos, tirada em 1993.

J.D. Salinger e Donald Hartog conheceram-se em 1937, quando ambos tinham 18 anos, na cidade de Viena, onde ambos foram mandados por suas famílias para estudar alemão.

Eles mantiveram contato depois da viagem, e Hartog – que trabalhava com importação de alimentos – retomou a correspondência em 1986. Depois da viagem de Salinger a Londres, Hartog foi aos Estados Unidos em 1994.

Frances Hartog conheceu Salinger quando ele foi à Inglaterra, e diz que na intimidade ele não se parecia em nada com sua persona pública.

“Eu, na verdade, não queria conhecê-lo, porque gostava de seus livros e estava preocupada que ele fizesse jus à reputação que mantinha e fosse desagradável, mas ele não era isso de maneira nenhuma, ao contrário, era muito simpático”, lembra.

Em uma das cartas, Salinger conta ao amigo sobre o incêndio que destruiu sua casa em 1992. Na maioria delas, porém, discorre sobre sua vida doméstica – sua horta, sua família, seus gatos, o que assistia na TV e como decorava seus aposentos.

Além disso, comentava sobre política internacional, às vezes incluindo nas cartas recortes de jornal com notícias, e o torneio de tênis de Wimbledon, quando demonstrava especial admiração por Henman, que na época era o melhor tenista da Grã-Bretanha.

Certa vez, escreveu que achava a cadeia de ‘fast-food’ Burger King muito melhor do que suas concorrentes do ramo, devido ao fato de seus hambúrgueres serem grelhados no fogo, e não em chapas – o que tornava a comida “melhor do que apenas tolerável”, segundo um trecho publicado pelo jornal The Times.

Fonte: Yahoo

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