Um livro fechado em uma prateleira não tem valor nenhum. Se você já o leu, passe-o adiante.

A única razão de guardar um volume com suas palavras enclausuradas para todo o sempre é ele ser uma edição rara ou ele ter a dedicatória de um amigo querido ou do próprio autor.

Um livro com as páginas cerradas tem valor igual a zero. É como se você, de maneira egoísta, calasse o autor e quisesse guardar aquelas histórias, aquele conhecimento, apenas para você.

Não duvido que muitas das pessoas que reclamam que o Brasil é um país que não lê, que este é um lugar onde os livros são muito caros, sejam as mesmas que guardam em suas estantes edições banais (mas caras) que poderiam ser muito bem passadas adiante. E assim elas chegariam gratuitamente às mãos de pessoas para quem elas fariam diferença.

Talvez as mesmas pessoas que reclamam de que alguns dispositivos de leitura de livros eletrônicos não permitem o adequado compartilhamento de obras sejam as mesmas que não compartilham os seus livros.

Sobre isso também gostaria que você lesse este trecho de A Arte de Amar, de Erich Fromm:

Que é dar? Embora pareça simples a resposta a esta pergunta, ela em verdade é cheia de ambigüidades e complexidades. O equívoco mais vastamente espalhado é o que entende que dar é “abandonar” alguma coisa, ser privado de algo, sacrificar. A pessoa cujo caráter não se desenvolveu além da etapa da orientação receptiva, explorativa, ou amealhadora, experimenta o ato de dar dessa maneira. O caráter mercantil deseja dar, mas só em troca de receber; dar sem receber, para ele, é ser defraudado. (Man for Himself, E. Fromm, Londres, Routledge, 1949.) Aqueles cuja principal orientação é não-produtiva sentem que dar é um empobrecimento. A maioria dos indivíduos desse tipo, portanto, recusa dar. Alguns fazem do ato de dar uma virtude, no sentido de um sacrifício. Sentem que, por ser doloroso dar, deve-se dar; a virtude de dar, para eles, reside no próprio ato de aceitação do sacrifício. Para eles, a norma de que é melhor dar do que receber significa que é melhor sofrer privação do que experimentar alegria.

Para o caráter produtivo, dar tem um sentido inteiramente diverso. Dar é a mais alta expressão da potência. No próprio ato de dar, ponho à prova minha força, minha riqueza, meu poder. Essa experiência de elevada vitalidade e potência enche-me de alegria. Provo-me como superabundante, pródigo, cheio de vida e, portanto, como alegre. Dar é mais alegre que receber, não por ser uma privação, mas porque, no ato de dar, encontra-se a expressão de minha vitalidade.

Uma frase que resume tudo isso: “Muito perde quem nada tem: a oportunidade de dar”, de DeRose.

Recomendo também a leitura de Minha Regra de Ouro Para Empréstimo de Livros ou de Qualquer Outra Coisa.

Se você gostou deste artigo, talvez esteja inclinado a doar alguns de seus livros para alguma biblioteca comunitária. Considere a Biblioteca Pote de Mel, por mim mantida. Ela funciona em uma panificadora e nela você pode emprestar os livros sem carteirinha, sem prazo ou qualquer outro tipo de controle a não ser o seu próprio senso ético. Ela existe há quase 3 anos e, desde então, só tem aumentado o acervo além de ter colocado em circulação milhares de livros.

Fonte: Livros e  Afins

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