Quando escreveu este ensaio autobiográfico, nos finais de 1879 (com acrescentos e revisões posteriores, em 1881-82), Lev Tolstói estava sensivelmente a meio da sua vida intelectual adulta. Aos 51 anos, já publicara as suas obras-primas – “Guerra e Paz” (1869) e “Anna Karénina” (1877) -, mas ainda não entrara na fase tardia, a que correspondem livros importantes, como “A Morte de Ivan Ilitch” (1887), “A Sonata de Kreutzer” (1889) ou a novela “Hadji-Murat” (publicada em 1912, já depois da sua morte).

A imagem que me ocorre, ao ler esta “Confissão”, é a de um homem posto diante do espelho da sua própria consciência, completamente nu e desarmado, ainda à procura da lógica subjacente aos labirintos existenciais em que andou perdido toda a vida. Embora na linha de uma tradição europeia que remonta a Santo Agostinho, este impulso confessional diverge dessa tradição na medida em que aborda o problema da descoberta da fé num prisma exclusivamente individual, sem generalizações ou sínteses exemplares.

Tolstói começa por explicar como aos 18 anos já se afastara do sistema de crença em que crescera (o cristianismo ortodoxo), ao entender que “a doutrina religiosa não participa da vida”, é apenas um fenómeno exterior “aceite por confiança” e fruto da pressão social, sujeito por isso a um esvaziamento à medida que as experiências vividas vão contrariando os seus ditames. Sem saber ao certo em que acreditar, entregou-se ao ‘aperfeiçoamento’ próprio, tanto intelectual e físico como moral.

Escritores embriagados

Surge então a outra face da moeda: “Para ter fama e dinheiro, em prol dos quais escrevia, era preciso esconder o bom e manifestar o mau. Foi o que fiz.” A haver fé, era fé no ‘progresso’, de que os artistas e poetas seriam os arautos.

Mas esse progresso era ilusório, e os escritores embriagavam-se de uma importância que na verdade não tinham, lembra Tolstói, sem esconder uma certa vergonha: “É agora claro para mim que não existia qualquer diferença entre aquilo e um manicómio; mas naquela altura apenas desconfiava disso vagamente, e mesmo assim à maneira de todos os malucos – chamando malucos a toda a gente, tirando a mim próprio.”

Ao assistir a uma execução, em Paris, a “crença supersticiosa no progresso” cai por terra. Depois das deambulações pela Europa, regressa à Rússia, cria escolas para os camponeses e casa-se, assumindo o bem-estar da família como um desígnio. A necessidade de conforto material abafou durante uns tempos as questões existenciais de sempre (o porquê disto tudo, o para quê), mas elas regressariam, ocupando cada vez mais espaço e provocando-lhe “momentos de perplexidade”, quando não de paralisia.

Tolstói é então tomado pela ideia de que a existência é absurda (“uma partida estúpida e maldosa que alguém me pregou”); de que tudo está condenado ao esquecimento e à morte; de que tudo é engano, até a arte. Incapaz de se conformar com a falta de sentido da vida, descobre-se igualmente incapaz de cometer suicídio.

À procura de respostas, Tolstói vira-se então primeiro para as ciências experimentais (cujo “ponto extremo” é a matemática), depois para as ciências especulativas (cujo extremo é a metafísica) e por fim para a filosofia (Sócrates e Schopenhauer).

Em vão. De uma forma ou de outra, os “mais fortes intelectos da Humanidade” apenas corroboram o seu desespero. Nessa altura, o impulso mais lógico (o de se matar) não foi levado às últimas consequências, acredita Tolstói, porque “permanecia na minha alma uma vaga dúvida”: a de que o seu terror nascesse de um equívoco.

Esse erro original era de perspetiva. Ao olhar para fora do “círculo estreito das pessoas semelhantes a mim”, ao observar de perto as multidões de trabalhadores pobres, descobriu que elas não tinham dificuldade em atribuir sentido à vida: “O conhecimento racional, na figura dos cientistas e sábios, negava o sentido da vida, mas as enormes massas de pessoas, toda a Humanidade, reconheciam este sentido no conhecimento irracional. E este reconhecimento irracional é a fé.”

A fé e a “possibilidade de viver”

Na fé, Tolstói reencontrou a “possibilidade de viver”, porque ela permite igualar finito e infinito. O encontro definitivo com Deus acontece após centenas de ‘agonias’ e ‘ressurreições’, mas o regresso aos rituais litúrgicos do cristianismo ortodoxo rapidamente o desilude e o faz mergulhar no “desespero habitual”.

A sua salvação só acontece quando compreende que “a única vida verdadeira” é a do “simples povo trabalhador”, com quem se funde ao abdicar de uma “existência parasitária”.

Nas últimas páginas de “Confissão”, que termina com um sonho místico, o novo sentimento religioso de Tolstói fica apenas esboçado, embora se posicione claramente à margem das Igrejas estabelecidas. Nos anos seguintes, o cristianismo tolstoiano, vagamente anarquista e centrado nos Evangelhos, ganhará o seu espaço e projetará a sua influência no século XX (em Gandhi, por exemplo), já depois de o seu mentor ter sido excomungado, em 1901, pelo Santo Sínodo.

Duas notas finais: a primeira para a excelente tradução, mais uma, de Nina Guerra e Filipe Guerra, dupla que tem oferecido aos leitores portugueses o acesso, não contaminado por línguas intermediárias, a alguns dos livros essenciais da literatura russa; a segunda para a Alfabeto, irmã da Estrofes & Versos (o ‘pai’ de ambas é Carlos Barbosa), projeto editorial que inicia o seu caminho precisamente com esta “Confissão” de Tolstói. Abrir uma nova editora no pico da crise económica representa um gesto de tremenda coragem; gesto que nunca é de mais saudar, sobretudo quando a Alfabeto promete um catálogo de qualidade (para breve, estão anunciados livros de Jonathan Swift, Stephen Crane, Mihai Eminescu e Karel Capek).

Fonte: Expresso

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