Sou estudante de Ciência da Computação e, paralelamente a isso – já que minha função pouco ou nada tem a ver com o curso que escolhi –, trabalho conectada à internet durante todo o dia; grande parte das minhas atribuições, aliás, depende diretamente da web. Não me podem acusar, portanto, de ser uma pessoa avessa à tecnologia.

Mas é certo que, como qualquer coisa no universo, também a ferramenta que possibilitou que os quatro cantos do mundo se conectassem nos trouxe algumas consequências desagradáveis. A vulgarização de autores famosos é, ao lado de crimes virtuais, do spam e da falta de privacidade, uma das mais notáveis controvérsias do processo de, como diz o economista Thomas Friedman, achatamento do mundo.

Entendam, por favor, o contexto em que utilizo a palavra vulgarização. Caso um número imenso de pessoas tivesse acesso aos escritos genuínos de Pessoa, por exemplo, só haveria o que ser comemorado. Mas o conteúdo que nos chega por e-mail e aquele que é postado em redes sociais e em blogs dos mais variados estilos não é nada além de um punhado de apócrifos. Textos e poemas de qualidade extremamente duvidosa falsamente atribuídos ao luso circulam sem nenhum pudor e sem que ninguém os barre e grite que nada daquilo corresponde à verdade. É por isso que muitos ficam sem saber quem é a real figura – e o gênio – por trás do nome agora popular e cada vez mais conhecido.

Se alguém, por acaso, se interessar por conhecer mais a fundo aquilo que acredita ser Pessoa, é grande a chance de que o que acabará por encontrar vire um motivo para uma grande decepção. Quem se apaixona por algo assim:

“Posso ter defeitos, viver ansioso
e ficar irritado algumas vezes mas
não esqueço de que minha vida é a
maior empresa do mundo, e posso
evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale
a pena viver apesar de todos os
desafios, incompreensões e períodos
de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos
problemas e se tornar um autor
da própria história. É atravessar
desertos fora de si, mas ser capaz de
encontrar um oásis no recôndito da
sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã
pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios
sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um ’não’.
É ter segurança para receber uma
crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir
um castelo…”

…raramente entenderá e apreciará aquilo que, de fato, é de autoria do próprio:

“Da minha abstenção de colaborar na existência do mundo exterior advém, entre outras coisas, um fenómeno psíquico curioso.
Abstendo-me inteiramente da acção, desinteressando-me das Coisas, e consigo ver o mundo exterior quando atento nele com uma objectividade perfeita. Como nada interessa ou leva a ter razão para alterá-lo, não o altero.”
*

Nada disso me diz respeito, claro. Não me considero uma guardiã da boa literatura, visto que sou abissalmente ignorante em milhares de autores, estilos e escolas. Tudo isso me entristece profundamente, entretanto, porque Pessoa é, e sempre foi, meu escritor favorito (e não deixo de dizer poeta por distração; realmente prefiro sua prosa).

E enquanto minha geração – nasci em 1988 – ri-se dos clássicos e pisoteia os consagrados com frases feitas em perfis do Orkut e do Facebook, sempre com um copo de vodka na mão e ao mesmo tempo em que se sacode ao som de um bate-estaca (“Felizmente Chopin já morreu”, diria minha avó), eu fico a nerdiar na biblioteca, esperando que, um dia, estes saiam da luz dos holofotes para a luz do conhecimento.

Fonte: Diário de Canoas

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments