Festa na biblioteca

Vitor Hugo

O que haverá nas bibliotecas, que as tornam tão sensuais? A pesquisa é séria, essa coluna entrevistou (vem entrevistando), ao longo dos últimos anos, mais de uma dezena de amigas, e todas vieram a confirmar: eros fez casa nas bibliotecas. Não são raros os casos de paqueras, amassos, beijos calientes, cuticutis e outros etcs entre as prateleiras de livros silenciosos – as paredes têm ouvido, mas as prateleiras fazem vista grossa. Nada mais justificável, cessem as repreensões, as expulsões, porque a culpa desse calor todo é da biblioteca. Mas a pergunta ainda está de pé. Foi feitiço? Não há dúvida: alguma coisa acontece no meu coração, quando respiro o ar das bibliotecas.

Sim, talvez seja o ar. Porque os livros respiram. Toda matéria viva respira, as páginas dos livros são madeira, coisa viva, e ainda por cima tocadas pelo encantamento (os livros são objetos mágicos, como nos provou o Caetano, em seu disco “Os livros”). Seria, então, o gás misterioso resultante da respiração dos livros o responsável pela inoculação do veneno de eros nos pobres estudantes? Outra hipótese: o exercício da leitura é que vem a mobilizar aspectos do corpo até então adormecidos. Ler é movimentar sensações, vou lendo e um calor vem subindo, com aquele vizinho pode estar acontecendo o mesmo, a biblioteca é um grande motel do espírito, as pessoas podem estar acesas pelo mesmo fogo, um fogo que vai ganhando volume, invisível, devastador.

Uma última possibilidade: a biblioteca é espaço de transgressão. Não sei bem qual, mas pelo jeito existe um certo tipo de contiguidade entre transgressão e sexualidade, é nítida essa conexão, porque não raramente o transgressivo chega a assumir feições eróticas. E lá estão os livros, calados, cúmplices de todos os crimes da inteligência e da sensibilidade.
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Seja qual for a resposta para a pergunta principal, fica aqui uma proposta pros nossos estabelecimentos bibliotecários: que tal uma baladinha semanal na biblioteca? Meia luz, discotecagem jazzie alucinada, com volume de som perfeito, vinhos de qualidade para pingarem aquelas gotas maravilhosas sobre as páginas brancas, um gestual mais livre entre os corredores. Como reagirão os livros? Vamos dar essa alegria para eles.

Fonte: Correio de Uberlândia

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