O site This Recording vem juntando uma excelente coleção (em inglês, acesso gratuito) de “conselhos” de grandes autores sobre o ofício literário, sob o título “Como e por que escrever”. Coletados em fontes diversas, entre ensaios, artigos, entrevistas e até obras de ficção, os trechos são heterogêneos no conteúdo e no tom, mas compõem um painel instigante. Abaixo, uma pequena amostra em tradução caseira (via The Book Bench):

Susan Sontag: Todo mundo gosta de acreditar hoje em dia que escrever é apenas uma forma de amor-próprio. Também conhecida como auto-expressão. E não se supõe que sejamos mais capazes de sentimentos autenticamente altruísticos, ou capazes de escrever sobre qualquer coisa que não nós mesmos. Mas isso não é verdade.

Kurt Vonnegut Jr.: Garanto que nenhum esquema narrativo moderno, nem mesmo a ausência de trama, dará ao leitor satisfação genuína, a menos que uma daquelas tramas fora de moda seja contrabandeada para dentro em algum momento. Não valorizo a trama como representação acurada da vida, mas como uma forma de manter o leitor lendo. Quando eu dava oficinas de criação literária, dizia aos meus alunos para fazer com que seus personagens quisessem alguma coisa imediatamente – ainda que fosse só um copo d’água. Mesmo personagens paralisados pela ausência de sentido da vida moderna precisam beber água de vez em quando.

Roberto Bolaño: Nunca escreva um conto de cada vez. Quando se escreve um conto de cada vez, pode-se acabar escrevendo o mesmo conto até morrer. É melhor escrever três ou cinco contos ao mesmo tempo. Se você tiver energia para tanto, escreva nove ou quinze de uma vez.

Margaret Atwood: Leve um lápis para escrever em aviões. Canetas vazam. Mas se a ponta do lápis quebrar, você não conseguirá apontá-lo no avião, porque não pode carregar facas. Portanto: leve dois lápis.

Marguerite Duras: É desconfortável sentar a uma mesa redonda: seus cotovelos não têm onde se apoiar e você não pode contar com eles para descansar da escrita, e enquanto você escreve eles ficam boiando no vazio, e se você não percebe isso imediatamente pensa, “Não sei qual é o problema comigo, estou cansado”, mas isso é porque seus cotovelos não estão apoiados na mesa.

Vladimir Nabokov: O poder e a originalidade envolvidos no espasmo primário da inspiração são diretamente proporcionais ao valor do livro que o autor escreverá. No ponto mais baixo da escala, uma espécie branda de excitação pode ser experimentada por um escritor menor ao notar, digamos, a conexão íntima entre uma chaminé de fábrica, uma moita mirrada de lilases no jardim e uma criança de rosto pálido; mas a combinação é tão simples, a tríade simbólica tão óbvia, a ponte entre as imagens tão batida pelos pés de peregrinos literários e suas carroças cheias de ideias padronizadas, e o mundo que daí se deduz tão parecido com o mundo comum, que a obra de ficção posta então em movimento será necessariamente de pouco valor.

Fonte: Todoprosa

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