Karla Monteiro

São Paulo, Vila Madalena, cruzamento das ruas Rodésia e Jericó, cinco da tarde de uma quarta-feira. Precisamente: Mercearia São Pedro. Para os íntimos, Merça. Antes de penetrar na história da Merça, nos quês e porquês que a tornaram o centro etílico da literatura em São Paulo, segunda casa de gerações de escribas e cenário dos lançamentos mais concorridos da capital paulista, vamos ouvir o papo na mesa de Reinaldo Moraes. O cara virou “O” cara, a celebridade local. “Pornopopéia”, seu livro lançado pela Objetiva, vendeu sete mil cópias, número considerável para os padrões nacionais, e se tornou um cult. No final de fevereiro, sai na versão pocket. Segundo Reinaldo, versão “pocketão”, para “bolso de calça de palhaço”, porque tem 661 páginas. Os dois primeiros livros do autor, “Tanto faz”, de 1983, e “Abacaxi”, de 1985, também estarão de volta às livrarias em março, numa edição “dois em um” da Companhia das Letras. Reinaldo encontra-se numa mesa com amigos: o ensaísta e escritor americano Matthew Shirts, o cartunista Caco Galhardo e a fotógrafa Luciana De Francesco, ex-mulher do escritor Mário Prata.

Caco: Sabe que eu acabei de chegar do Rio, né, Rei? Fui encontrar o Jaguar. Saquei que o Jaguar faz nos desenhos a mesma coisa que você faz na literatura.

Reinaldo: – O quê? Merda?

Caco: – Não, meu, piada infame.

Matthew: – Eu também tava no Rio, lançando o meu livro ( “O jeitinho americano”, na semana passada). Meu, o Faustão faaaaaalou do meu livro no programa, muito louco.

Reinaldo: – Vai rolar uma sensível ereção nas vendas.

Matthew: – Sabe o que mais me impressionou no Rio? As pessoas aplaudem o pôr do sol.

Reinaldo: – E quando chove, vaiam?

Matthew: – Maior barato, Rei. Uma atitude pré-Iluminismo.

Reinaldo: – Quem quer pastel?

Os pastéis são uma tradição da casa, circulam fumegantes em bandejas todos os fins de tarde. E todos os fins de tarde até os fins de noite, tem galera ali. A Merça não para. Os escritores dominam, embora cartunistas e cineastas façam concorrência. A bebundagem literária no local começou no ano de 1984, com Reinaldo, Mário Prata e Matthew Shirts. Nos anos 90, o lugar ficou meio esquecido pelas letras. E, no início dos 2000, retomou a vocação. Hoje todos os lançamentos badalados de São Paulo acontecem ali, no mafuá: a Merça é um bar; uma mercearia (vende biscoitos, ketchup, óleo de cozinha, detergente etc.); uma videoteca com um grande acervo de filmes raros; e uma livraria cult. A média de lançamentos na Merça é de quatro por mês. “Pornopopéia” foi lançando lá. Vendeu mais de 200 cópias na noite de autógrafos. Para o próximo mês já estão programados dois eventos: “Canções para tocar no inferno”, o primeiro livro de contos de Mário Bortolotto; e “Ua-brari”, relançamento de um livro esgotado de Marcelo Rubens Paiva.

– A Merça é o polo, aqui nascem projetos, amores, amizades. Tem um pouco a ver com um movimento que está rolando em São Paulo, que não é só da literatura: o colaboracionismo, o se juntar para fazer acontecer. Junta quatro ou cinco, faz uma antologia. Junta dez, uma revista. Não temos nada a ver no estilo de texto, mas temos no espírito, nos livros que a gente lê, nas viagens de que gostamos – diz o escritor e jornalista Ronaldo Bressane. – Não temos pudor de falar dos nossos livros em blogs e sites, de bombar os lançamentos na Merça. As pessoas dizem que bebemos mais do que escrevemos e só falamos de nós mesmos. Mas o espírito é esse: uma coisa dionisíaca. Todo mundo fica muito bêbado e fala muita merda. Uma esculhambação.

Quando Bressane diz “nós”, ele está falando de uma turma que vai de Mário Prata a Antônio Prata, duas gerações de escritores que decidiram frequentar a mesma balada e fazer disso, de certa forma, um movimento literário. O núcleo ativo da Merça está devidamente publicado no livro de contos “Uma antologia bêbada: fábulas da Mercearia”: Andréa Del Fuego, André Sant’Anna, Antônio Prata, Bruno Zeni, Chico Mattoso, Clara Averbuck, Índigo, Ivana Arruda Leite, Joca Reiners Terron, José Alberto Bombig, Marcelino Freire, Mário Bortolotto, Matthew Shirts, Nelson de Oliveira, Reinaldo Moraes, Ronaldo Bressane e Xico Sá. Essa galera bate ponto. Na, digamos, retomada da Mercearia São Pedro, Joca puxou a fila:

– Em meados dos 90, a Merça estava caída. Tinha acontecido a efervescência dos 80 e tal. Mas eu não sabia. Passei a vir aqui porque era mais isolado. A Vila Madalena já estava sendo tomada por esses bares fakes, bregas. Na mesma época, a gente começou a se conhecer nuns encontros literários que rolavam numa livraria daqui da Vila. Ficamos amigos e não tínhamos um bar. Como eu frequentava a Merça, passei a trazer as pessoas – conta Joca. – Em 2002, fizemos o primeiro lançamento, com um livro meu e outro do Daniel Galera. Foi um sucesso. A gente, então, se desvinculou totalmente dos lançamentos em livraria. A Merça virou referência de literatura. Mas falamos mesmo é de mulher e de cachaça. Não vejo como um movimento literário. É mais um movimento para pegar mulher. Tem a dança do balcão, o ula-ula, a fricção. O Marquinho ( Benuthe, dono da Mercearia) é o ministro da Cultura da Vila Madalena. E o Reinaldão, o tiozão beatniquim.

Reinaldo retruca:

– Beat é o caralho! Literatura bitch, a literatura cadelona.

Fonte: O Globo

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